sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Campanha da Fraternidade 2018 A utopia de Jesus: “vocês são todos e todas irmãos e irmãs”




A Campanha da Fraternidade 2018 tem como tema “Fraternidade e superação da violência” e como lema “Vocês são todos e todas irmãos e irmãs” (Mt 23,8).
Começo o meu escrito fazendo um esclarecimento sobre a diferença que existe entre a pessoa idealista e a pessoa realista. A pessoa idealista - por ter uma consciência ingênua - aponta a utopia (o ideal), mas não indica o caminho a ser seguido para que essa utopia se torne uma realidade histórica. A pessoa realista - por ter uma consciência crítica - aponta a utopia, mas indica também o caminho a ser seguido e os passos concretos a serem dados para que essa utopia se torne, cada vez mais, uma realidade história.
Ora - mesmo sabendo que a vida é dinâmica e as pessoas mudam - a respeito do tema da Campanha da Fraternidade, podemos ter uma consciência ingênua, que leva a uma visão idealista da questão da violência ou uma consciência crítica, que leva - com todas as nuances possíveis - a uma visão realista, da mesma questão.
Falando de visão idealista, quantas vezes, por exemplo, nas nossas reuniões e encontros - sobretudo em ambientes religiosos - ficamos satisfeitos com a apresentação de uma longa lista de “boas intenções”, sem fazer uma análise mais crítica e mais profunda do tema tratado. Não seria o caso de lembrar o ditado “de boas intenções o inferno está cheio”?
Sobre o tema da Campanha “Fraternidade e superação da violência”, precisamos ter claro o que é a violência e como ela se manifesta hoje em nossa sociedade e em nossas Igrejas ou Instituições Religiosas (que são parte integrante da sociedade).
Fundamentalmente, temos dois tipos de violência: a violência estrutural (institucionalizada e legalizada, às vezes, em nome de Deus) e a violência pessoal (interpessoal, familiar e grupal).
Para intendermos o que é a violência estrutural, basta citar um dado da nossa realidade. “Estudos apontam que apenas 62 pessoas detém o mesmo dinheiro que a metade mais pobre da humanidade. Essa desigualdade se torna ainda mais impressionante quando se considera que os mais ricos correspondem a 1% da humanidade, mas detêm 99% das riquezas” (CF 2018. Texto-Base, 71).
Ora, a desigualdade não gera a violência (como se costuma dizer), ela é a violência, a maior e a mais brutal violência; é a violência estrutural; é - em linguagem teológica - o pecado social (sócio- econômico-político-ecológico-cultural) ou estrutural, o reino do mal, o anti-Reino de Deus.
“As transnacionais, sujeitos principais da acumulação capitalista mundial, não só produzem mercadorias e prestam serviços, mediante a exploração da força de trabalho, como também desigualdade, pobreza, desemprego, precariedade, exclusão, destruição da natureza, fome e morte. Por conseguinte, o capitalismo é um sistema criminoso para a maior parte da população mundial” (http://www.ihu.unisinos.br/575943-a-explicacao-da-fome-em-uma-sociedade-capitalista-globalizada).
Os que, mesmo na Igreja - consciente ou inconscientemente, ingênua ou hipocritamente - acham que a questão da desigualdade pode ser resolvida ou, ao menos, amenizada, multiplicando as obras sociais - que, muitas vezes, consideram os pobres como meros “objetos de caridade” para que “as pessoas de bem” (do alto de suas mansões ou palacetes, civis ou eclesiásticos) possam “ganhar o céu” - deveriam lembrar o que diz o Documento de Aparecida: “A misericórdia sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais a um sistema econômico iníquo (repito: sistema econômico iníquo”). Requer-se que as obras de misericórdia estejam acompanhadas pela busca de uma verdadeira justiça social” (385).
Na teologia moral da libertação, o pecado social ou estrutural era um tema central. Infelizmente, hoje a maioria dos teólogos da moral - e também dos agentes de pastoral - não falam mais sobre isso. Suas preocupações são outras. É esse um dos graves pecados de omissão da Igreja.
Para superar - em nome de nossa cidadania e de nossa fé - a violência estrutural, precisamos lutar, de maneira organizada, unidos e unidas a todas as forças sociais populares (movimentos, sindicatos, partidos e outras instituições) e abrir caminhos novos que levem à mudança do sistema. Querer superar a violência sem mudar o sistema, é ingenuidade ou hipocrisia.
Pergunto-me - diz o Papa Francisco - se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social e nem na destruição da natureza? Se é assim, digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos... E nem sequer o suporta a Terra, a Irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”.
Com palavras muito claras, o Papa afirma: “Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, na qual o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra” (Discurso aos Movimentos Populares. Bolívia , 9 de julho de 2015)
Diante de situações de injustiça legalizadas, Jesus de Nazaré se posicionou claramente a favor dos excluídos e excluídas, e praticou a desobediência civil e religiosa. Entre os muitos exemplos, que poderíamos citar, lembro a cura de um leproso, narrada pelo Evangelista Marcos (cf. Mc 1,40-45). E nós, os seguidores e seguidoras de Jesus, temos a coragem de fazer o que Ele fez? Pensemos!
A violência estrutural se manifesta de muitas maneiras e tem diversos rostos na sociedade e também nas igrejas. Na sociedade: violência contra os pobres, violência contra os moradores de rua, violência racial, violência contra os jovens negros, violência contra as mulheres, violência contra os trabalhadores rurais e urbanos, violência contra os povos tradicionais (indígenas, quilombolas), criminalização dos movimentos populares, corrupção, machismo, exploração sexual, tráfico humano, narcotráfico e muitos outros.
Nas Igrejas: clericalismo (que o Papa Francisco definiu como “uma peste na Igreja” e “o pior mal da Igreja na América Latina”), triunfalismo, funcionalismo sagrado, busca de poder, celebrações pomposas e teatrais, pouca atenção à Igreja dos Pobres e seu descarte silencioso (exemplo recente: Igrejas que não falaram nada ou quase nada do 14º Intereclesial das CEBs em Londrina e nem publicar a Carta final do Encontro e a Mensagem do Papa Francisco) e muitos outros.
Temos também muitas formas de violência pessoal (interpessoal, familiar e grupal). Não nego a responsabilidade humana e ética - embora sempre “situada e datada” - das pessoas (famílias e grupos), mas essas formas de violência, na maioria das vezes, são consequência da violência estrutural.
Lembremos: sem justiça, a fraternidade é mentira, é hipocrisia. Estamos na Quaresma, que é tempo de conversão e mudança de vida. Nossa missão de cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs é: construir, desde já, espaços de superação da violência estrutural e pessoal, espaços de justiça e paz, espaços de partilha e fraternidade, e espaços de uma nova educação e cultura, certos de que “outro mundo é possível e necessário”
Vocês são todos e todas irmãos e irmãs” (Mt 23,8). É a utopia (o projeto) de Jesus de Nazaré. É a nossa utopia, que é, ao mesmo tempo, histórica e meta-histórica.


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 15 de fevereiro de 2018

Prof. Geraldo: “a alegria do Evangelho” em pessoa



Na madrugada do dia 12 de janeiro último, faleceu (“completou sua Páscoa”) aos 80 anos o professor emérito da UFG Geraldo Faria Campos (Geraldo “Alemão”), que - depois de velado pelos familiares e por muitas outras pessoas que tinham por ele uma grande admiração - foi sepultado às 19 horas no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Goiânia.
Por diversas razões, nestes últimos anos tive poucas oportunidades de encontrar o professor Geraldo e - devido a uma falta de atenção minha involuntária - não estive presente no dia de sua partida para a casa do Pai. Sinto muito! Geraldo, me perdoe! Certamente, o dia do seu velório foi de muita dor, mas também de muita esperança para os familiares, os amigos e amigas e todos aqueles e aquelas que tiveram a graça de conhecer e conviver com você.
Manifesto agora publicamente (logo que for possível, o farei também pessoalmente) a minha mais profunda e sincera solidariedade de irmão e amigo à esposa Aparecida Curado Faria Campos (também professora), aos três filhos e aos cinco netos. Peço a Deus que todos e todas vocês - mesmo sofrendo (o que humano) - experimentem muita paz e serenidade, acreditando na vida. “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, nunca morrerá (Jo 11, 25-26).
Geraldo - sempre sorridente, brincalhão e otimista - era um homem de fé autêntica, um educador cristão (que respeitava e valorizava o diferente), um agente de pastoral, um verdadeiro seguidor de Jesus de Nazaré. Com as palavras do Papa Francisco, podemos dizer que Geraldo era “a alegria do Evangelho” em pessoa e - não tenho dúvidas - um esposo e pai de família santo (a santidade é a perfeição humana dentro do Plano de Deus).
Como afirma a poetiza Cora Coralina, “ninguém pode acrescentar dias a sua vida, mas pode acrescentar vida aos seus dias”. Foi isso o que Geraldo fez: acrescentou vida e sempre mais vida aos seus dias. O testemunho de Geraldo nos edificou - e continua nos edificando - a todos e a todas.
A UFG - em Nota na qual decretou luto oficial pelo falecimento do professor Geraldo - recorda-nos: “Professor de diversas gerações, Geraldo Faria é reconhecido como um verdadeiro mestre focado não só nos progressos acadêmicos, mas na formação integral dos seus alunos, oportunizando e buscando desenvolver neles habilidades como o gosto literário, o estilo de escrita e, sobretudo, a análise, o espírito crítico, a capacidade de reformular o pensamento e de criar novas ideias. A dedicação incansável aos educandos - sempre muito exigidos na produção de textos e leituras - acabava por extrair-lhes o melhor”. E continua: “Dono de uma trajetória marcante, tanto para os ex-alunos quanto para os colegas e todos que com ele conviveram, impulsionado por um tipo de inquietude, sobretudo para despertar a conscientização sobre as injustiças sociais, o lugar em que estamos inseridos nesse contexto e sobre as possibilidades de fazer diferente. Tudo isso, muito conectado à realidade do aluno”.
Geraldo foi educador e filósofo da educação não só no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae) da UFG (antigo Colégio de Aplicação), como professor de língua portuguesa por 30 anos, mas em todas as situações históricas concretas de sua vida.
No dia 15 de março de 2013, na solenidade de entrega do título de Professor Emérito, o seu colega aposentado, professor Paulo Marcelino, expôs os motivos pelos quais Geraldo Faria foi homenageado. “Mesmo sem títulos de pós-graduação, tão importantes para a academia, mostrou a diversos professores e estudantes uma nova forma de ensinar a língua portuguesa. Ele mostrou que a educação acontece quando atua o educador e não a instrução” (https://www.jornalufgonline.ufg.br/n/45430-professor-emerito-ao-mestre-geraldo-faria).
Para o jornalista Elder Dias, Geraldo era “o professor que fazia o mundo da leitura virar leitura de mundo. ‘Pensar dói’, costumava dizer. Sua forma de ensinar português e sua atitude humanizadora na relação com seus alunos o fizeram mestre inesquecível de gerações”.
Para a jornalista Ana Cláudia Rocha (ex-aluna), “há 80 anos, Deus enviou um anjo para tentar melhorar a Terra. Geraldo Faria Campos foi muito mais do que professor de português, foi um mestre de vida, um ser iluminado que transformou a vida de todos com quem conviveu”.
Para o assessor jurídico (MP-GO) Carlos Stuart Palma (ex-aluno), “Geraldo foi o mestre despretensioso que, mais do que ensinar, plantava em nós o germe da rebeldia, do questionamento. (…) Foi ele quem nos infectou com a incurável doença de amor aos livros e, sobretudo, nos transformou em contempladores de ideias” (https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/o-professor-que-fazia-o-mundo-da-leitura-virar-leitura-de-mundo-114705/). Poderíamos continuar citando inúmeros testemunhos de ex-alunos e ex-alunas, mas o nosso espaço não permite.
Termino com um depoimento pessoal. Além de termos sido colegas na UFG em áreas de ensino diferentes, mas complementares (ele, em educação e eu, em filosofia), de 1970 - quando nos conhecemos e nos tornamos amigos - até 1985 (ano da morte do arcebispo de Goiânia Dom Fernando Gomes dos Santos) trabalhamos juntos na pastoral da Arquidiocese de Goiânia (que - à época - era considerada por muitos e muitas uma referência em todo o Brasil na caminhada de renovação pós-conciliar) com o nosso amigo comum Dom Fernando, pastor e profeta, “pai da Pátria Grande”.
Quantas vezes participamos de reuniões e encontros pastorais juntos! No meu serviço de coordenador da pastoral, quantas vezes convidei o Gerando para dar palestras e conversar com o povo nas comunidades e, sobretudo, nos encontros da pastoral da juventude, da pastoral familiar e das pastorais sociais. Pela autenticidade de via, sua palavra e testemunho edificavam a todos e todas, deixando marcas profundas na vida das pessoas.
Geraldo está presente! Ele vive entre nós! “Creio na comunhão dos santos e santas”! Geraldo, ore por nós!






Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 08 de fevereiro de 2018

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

CEBs: uma Igreja mais viva do que nunca

“As CEBs continuam sendo um ‘sinal da vitalidade da Igreja’ (Redemptoris Missio - RM 51). Os discípulos e as discípulas de Cristo nelas se reúnem na escuta e na partilha da Palavra de Deus. Buscam relações mais fraternas, igualitárias e inclusivas. Superam a cultura machista e o clericalismo. Celebram os mistérios cristãos e assumem o compromisso de transformação da sociedade e a defesa da criação, a nossa casa comum” (Carta do 14º Intereclesial das CEBs)

        Do dia 23 a 27 de janeiro do corrente ano, participei do 14º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), em Londrina (PR). Do Estado de Goiás e Distrito Federal (Regional Centro-Oeste da CNBB) éramos cerca de 150 delegados e delegadas, dos quais 35 da Arquidiocese de Goiânia. No total - vindos de todos os cantos do Brasil - éramos 3.300 delegados e delegadas. Havia também uma boa representação dos povos indígenas e quilombolas. Participaram ainda do Encontro 60 bispos, diversos padres e diáconos, religiosos e religiosas, representantes de outras Igrejas cristãs e de outras Religiões, convidados de países da América Latina e da Europa (Argentina, Paraguai, México, Alemanha, França e Itália) e membros de Movimentos Populares.
      O tema do 14º Intereclesial foi: “CEBs e os desafios do mundo urbano” e o lema: “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3, 7).
        O Encontro foi um verdadeiro Pentecostes. Todos e todas que o vivenciamos, ouvimos - como um apelo muito forte - as palavras de Jesus, atualizadas para nós hoje: Fiquem em Londrina. O Espírito Santo descerá sobre vocês e dele receberão força para serem minhas testemunhas em Londrina, no Paraná, no Brasil e até os extremos da terra (cf. At 1, 4 e 8).
        Os dias do Intereclesial foram de muita partilha, reflexão e celebração. Partilhamos, refletimos e celebramos a vida à luz do mistério pascal e o mistério pascal à luz da vida. Um destaque especial merece a Celebração dos Mártires do Brasil e da América Latina, que foi realmente emocionante. Todos e todas, fortalecidos e fortalecidas com a experiência vivida, na “alegria do Evangelho” fomos enviados e enviadas - como discípulos missionários e discípulas missionarias - para continuar a missão de Jesus de Nazaré, fazendo acontecer - com a nossa palavra e, sobretudo, com o nosso testemunho - a sociedade do bem-viver e do bem-conviver, que - à luz da fé - é a Boa Notícia do Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.
        Escutamos os sinais dos tempos e - discernindo-os à luz da Palavra - ouvimos os apelos de Deus para nós hoje. .
        “As mudanças culturais, os desafios e clamores da sociedade globalizada e da cultura urbana, o desmonte das estruturas democráticas em nosso País, a perda dos direitos civis e sociais e a degradação da dignidade humana e da criação levam as CEBs a assumirem os seguintes compromissos:

  • transmitir às novas gerações as experiências e os valores das gerações anteriores;
  • promover a cultura da vida;
  • tornar-se uma Igreja de Comunidades em rede, com novos ministérios, que inclua a mulher em sua plena dignidade eclesial;
  • incentivar o protagonismo das juventudes e combater o seu extermínio;
  • apoiar as lutas dos povos indígenas, da população negra e quilombola, dos pescadores artesanais, da população em situação de rua, dos migrantes e refugiados, da população encarcerada, das crianças e dos idosos por cidadania plena;
  • cobrar políticas públicas de inclusão social, participar dos conselhos de cidadania, promover a democracia direta e participativa e a autodeterminação dos povos;
  • promover práticas de economia popular, solidária e sustentável;
  • reafirmar a vocação política dos cristãos e cristãs;
  • fortalecer a campanha pela auditoria da dívida pública, da reforma política e do controle sobre o poder judiciário.
        Nunca podemos nos esquecer de que as comunidades cristãs nasceram no meio dos pobres como um grito de esperança e lugar de relações igualitárias e inclusivas” (Carta do 14º Intereclesial das CEBs).
        Atualmente - apesar da falta de apoio, da indiferença, do desinteresse, de muitas Igrejas, apesar de serem, às vezes, simplesmente toleradas ou até descartadas por essas mesmas Igrejas e obrigadas a viverem nas catacumbas - as CEBs são uma Igreja mais viva do que nunca. Como acontecia com as primeiras comunidades cristãs, quando perseguidas, elas tornam-se mais fortes. Na diversidade de ministérios (serviços) e de carismas (dons), na variedade de suas expressões (mas com elementos eclesiológicos característicos comuns), as CEBs são “Igreja que nasce do Povo pela força do Espírito Santo”, são “Igreja pobre, para os pobres, dos pobres e com os pobres”, são “Igreja em permanente saída”.
        Na organização da Igreja, as CEBs não são um grupo ou movimento entre muitos outros. Elas são “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial” (Medellín XV, 10), e a Paróquia - renovada e libertadora - é “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (ib. XV, 13). Lutemos para que esse ideal seja vivido e se torne, cada vez mais, realidade!
        O Encontro foi uma experiência de intereclesialidade e de irmandade inesquecível. Para melhorar ainda mais os próximos Intereclesiais das CEBs, permito-me dar duas sugestões. Primeira: que - na programação dos Intereclesiais - haja mais espaço e mais tempo para a escuta do povo, aprendendo com sua sabedoria de vida e com sua vivência da fé.
        “Em todos os batizados/as, desde o primeiro ao último, atua a força santificadora do Espírito que impele a evangelizar. O povo de Deus é santo em virtude desta unção, que o torna infalível ao crer (‘in credendo’), não pode enganar-se, ainda que não encontre palavras para explicar a sua fé. O Espírito o guia na verdade e o conduz à salvação. Como parte do seu mistério de amor pela humanidade, Deus concede a todos os fiéis o instinto da fé (o ‘sensus fidei’) que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A presença do Espírito confere aos cristãos/ãs uma certa conaturalidade com as realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite captá-las intuitivamente, embora não possuam os meios adequados para expressá-las com precisão. Em virtude do Batismo recebido, cada membro do Povo de Deus tornou-se discípulo missionário (cf. Mt 28, 19). Cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é sujeito ativo de evangelização” (Papa Francisco. A Alegria do Evangelho - EG, 119-120).
        Segunda sugestão: que, à luz do que Francisco nos ensina, os assessores e assessoras sejam sempre pessoas que participam integralmente do Intereclesial, que partilham sua vida com o povo, que aprendem com ele e que - a partir dessa experiência vivencial - contribuem com seus conhecimentos na busca comunitária de novos caminhos.
        Por fim, comunicamos que a cidade de Rondonópolis, no Estado de Mato Grosso (Regional Oeste II da CNBB), assumiu o compromisso de sediar, em 2022, o 15º Intereclesial das CEBs. “Vem pra cá, vem pra cá, 15º Mato Grosso acolherá”.
        “Lá vem, lá vem o trem das CEBs. Fazendo nossa história sempre a evangelizar. O trem traz nossas lutas, nosso canto e nossa força. E a próxima parada desse trem é o Mato Grosso”.
        Somos Igreja de Jesus de Nazaré! Somos Povo de Deus! Somos CEBs!

       (Leiam, em www.cebsdobrasil.com.br, a íntegra da “Mensagem do Papa Francisco ao 14º Intereclesial das CEBs”, a “Carta dos bispos presentes no 14º Intereclesial das CEBs”, a “Carta do 14º Intereclesial das CEBs” e outros escritos muito interessantes sobre as CEBs).






Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de fevereiro de 2018 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Natal 2017: em Goiânia a manjedoura de Jesus é a rua



Nenhum estábulo se abre para que Maria, grávida de Jesus, possa dar à luz. Natal 2017: em Goiânia - como em outras cidades do Brasil e do mundo - a manjedoura de Jesus é a rua.
Jesus não nasce nos locais e ambientes dos poderosos da sociedade capitalista neoliberal, individualista e consumista. Jesus não nasce nos locais e ambientes das Igrejas luxuosas e triunfalistas, que - aliadas dos poderosos - buscam se impor pela ostentação e pelo poder. Jesus não nasce nas catedrais majestosas, nas igrejas teatrais e nas Igrejas que - em nome do “deus” propriedade privada - tiram os bancos e fecham as praças para expulsar os Moradores de Rua, que comem nos bancos, dormem debaixo deles, sujam a praça e amedrontam as “pessoas de bem”, que querem ir à Igreja para “louvar a Deus”. Jesus não nasce nas celebrações clericais (episcopais, presbiterais e diaconais) com insígnias imperiais. Quanta hipocrisia - às vezes institucionalizada e legalizada - existe em grande parcela da sociedade e na maioria das Igrejas!
Jesus nasce no meio dos Moradores de Rua, dos Sem-Teto, de todos os descartados/as da sociedade e das Igrejas e de todos aqueles/as que - por se considerarem irmãos e irmãs - são solidários/as com eles/as.
Como amostra, apresento alguns dados sobre a realidade - iníqua e perversa - dos Moradores de Rua em Goiânia (que, proporcionalmente à população, é parecida com a de muitas outras cidades do Brasil e do mundo) e faço algumas reflexões sobre o Encontro dos Moradores de Rua, acontecido recentemente na Capital.
As violações aos Direitos Humanos contra a População em Situação de Rua são hoje uma das faces mais cruéis do pecado estrutural da sociedade e das Igrejas. Uma pesquisa - desenvolvida pelo Núcleo de Estudos Sobre Criminalidade e Violência da Universidade Federal de Goiás (UFG) - “aponta que 61 Moradores de Rua foram mortos em Goiânia entre agosto de 2012 e maio de 2013. O número de mortos pode ser ainda maior, já que há relatos de diversos corpos sem identificação no IML”.
Na cidade de Goiânia “o assassinato das pessoas em situação de rua não ganha manchetes em grandes mídias, tampouco é lamentado pela sociedade”. Na Capital de Goiás “o morador de rua vive esquecido entre o sucateamento dos serviços de assistência social e a banalidade da situação em que se encontra”.
A população de rua, “além de ser violentada pela falta de políticas públicas, nos primeiros nove meses de 2017 foi vítima de pelo menos 17 assassinatos noticiados, mas sabemos que essas mortes são subnotificadas, como confirma o homicídio, não notificado, do companheiro Rogério Martins Borges, que foi encontrado esquartejado, sem cabeça, nas imediações da ‘bica’, no Setor Aeroporto, na segunda quinzena do mês de junho. Dos 17 homicídios noticiados, 14 vítimas tiveram seus perfis limitados à condição de moradores de rua. Suas histórias - seus sonhos e a dor deixada - sequer são mencionadas”,
Neste cenário de luto, o Movimento Nacional da População em Situação de Rua de Goiás (MNPR-GO) “vem denunciar e repudiar ações higienistas e toda forma de violência contra os povos da rua. Chega de violência!” (Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino. Relatório de Violações de Direitos Humanos no Estado de Goiás, Goiânia, dezembro de 2017, p. 4 e 5).
Um sinal, que aponta caminhos de mudança, é o Encontro “Formação de Base do MNPR-GO” - com a participação de aproximadamente 50 pessoas - que aconteceu nos dias 13 e 14 deste mês de dezembro em Goiânia, no Centro Cultural Cara Vídeo (Rua 83, nº 361, Setor Sul). O objetivo do Encontro foi: “reunir pessoas em situação de rua, com trajetória de rua ou que se vejam interessadas neste contexto para discutir seu histórico com toda complexidade e pensar estratégias para diminuir a violência que temos sofrido. A perspectiva da formação é a do entrelace dos saberes e da união do grupo. Assim, esperamos nos fortalecer para alcançar um posicionamento firme em relação às mais diversas violações às quais os moradores de rua vem sendo submetidos ao longo dos tempos” (Panfleto de divulgação do Encontro).
Na programação do Encontro - além dos calorosos momentos de confraternização e convívio - destaco as palestras compartilhadas: “Histórico de luta do MNPR”, “As imagens da vida”, “As vantagens de não ser invisível” e “Direitos Humanos, eu e nós!”; e também as rodas de conversa popular: “A colocação do negro na história e na sociedade” e “Nossa luta, nossa força!”.
Participei, em parte, do Encontro e fiquei profundamente edificado. Ele foi preparado com muito amor e carinho pela coordenação do MNPR e seus apoiadores. Conviver com os Moradores de Rua participantes do Encontro - compartilhando sua sabedoria, seus sofrimentos, suas dores, suas humilhações (causadas muitas vezes por “pessoas de bem”, que vão à Igreja todo domingo) foi uma experiência de vida, que renovou a minha esperança em outro mundo possível!
Não devemos “ir ao encontro do pobre para conduzi-lo a Cristo” (Jornal “Encontro Semanal”. Goiânia, 26/11/17): atitude farisaica. Devemos ir ao encontro do pobre para que ele nos conduza a Cristo: atitude evangélica.
Que Deus nos converta e nos ajude a viver - sem hipocrisias - a radicalidade do Evangelho: a Boa Notícia de Jesus de Nazaré. Que os pobres e os descartados da sociedade e das Igrejas sejam os nossos mestres.
São esses os meus votos de Feliz Natal e Abençoado Ano Novo a todos e a todas que buscam a verdade e a justiça. Não esqueçamos: em Goiânia a manjedoura de Jesus é a rua!
Leia também os artigos: Jesus “morador de rua” em Belém (http://freimarcos.blogspot.com.br/2012/12/jesus-morador-de-rua-em-belem.html) e Jesus o “sem-teto” de Belém (http://freimarcos.blogspot.com.br/2011/01/jesus-o-sem-teto-de-belem_4.html?m=0)
Comunico aos prezados leitores e leitoras que - se Deus quiser - voltarei a escrever no início de fevereiro/18.




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 20 de dezembro de 2017

sábado, 16 de dezembro de 2017

Barganha política diabólica

Nestes dias - entre os muitos já presenciados - estamos assistindo a mais um espetáculo político deprimente e repugnante. Com a maior cara-de-pau o golpista Michel Temer compra - com dinheiro dos cofres públicos - o voto de políticos para aprovar a chamada Reforma (que, na realidade, é Antirreforma) da Previdência. A perversidade moral - premeditada e matematicamente calculada - do governo ilegítimo e da maioria dos políticos não tem limite. O descaramento é total. Até onde iremos? Com urgência urgentíssima, precisamos dar um basta a tamanha sem-vergonhice!
Vejam! Como moeda de troca pela aprovação da Reforma da Previdência, aliados pediram mais R$ 3 bilhões; deputados negociaram com o Planalto aumento das emendas parlamentares em 2018; o governo comprometeu R$ 43,2 bilhões nos próximos anos.
Além do despudorado toma-lá-dá-cá, o governo ilegítimo do golpista Michel Temer só está preocupado em preservar e defender os interesses dos investidores e do mercado às custas dos trabalhadores/as. O povo que se dane!
O governo já perdoou R$ 27 bilhões de bancos privados em 2017. E agora, pasmem! “Temer entrega R$ 1 trilhão para petrolíferas americanas e estrangeiras. Não satisfeito em vender o petróleo do pré-sal, o governo Michel Temer quer a redução de tributos de empresas envolvidas nas atividades de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural para favorecer as empresas internacionais; somente para 2018, a previsão de renúncia de receita, decorrente de Medida Provisória que teve relatório aprovado em comissão especial, é de cerca de R$ 16,4 bilhões, e pode chegar a R$ 1 trilhão, conforme previsões de técnicos do setor e de relatórios elaborados pela assessoria legislativa da Câmara”. Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou: “Isso é uma traição nacional, traição do governo para com o país. O que está sendo aprovado nesta comissão é uma mamata para o setor internacional de petróleo” (https://falandoverdades.com.br/temer-entrega-r-1-trilhao-para-petroliferas-americanas-e-estrangeiras/).
Depois de muitas conversas e várias tentativas de marcar a data para a votação da Reforma da Previdência, ficou claro que a viabilização dessa data dependerá unicamente do resultado da compra de votos dos parlamentares: uma verdadeira barganha política diabólica, totalmente imoral, mas com aparência de legalidade. Para aprovar a Reforma são necessários 308 votos na Câmara e 49 no Senado.
E tem mais: o governo - hipócrita e maldosamente - tenta enganar os trabalhadores/as, passando mel na boca das Centrais Sindicais. “Em meio às negociações para a aprovação da Reforma da Previdência, o Planalto fez um aceno às Centrais Sindicais que se opõem às mudanças. Michel Temer garantiu - dia 5 - que baixará portaria na próxima semana para liberar o pagamento de cerca de R$ 500 milhões em verbas do imposto sindical que estavam retidas na União (por falhas no preenchimento de dados obrigatórios para o pagamento). O dinheiro é fruto de um acordo entre as entidades, o MP, a Caixa e o governo” (http://painel.blogfolha.uol.com.br/2017/12/07/em-meio-a-ofensiva-pela-previdencia-governo-libera-r-500-milhoes-para-centrais-sindicais/).
Deixo uma advertência: o golpista Michel Temer e sua gang de políticos oportunistas e corruptos lembrem-se que Deus não aceita barganha política. Em breve, poderão constatar pessoalmente. Aguardem!
Precisamos desmascarar as mentiras - uma verdadeira farsa - do governo ilegítimo a respeito da Reforma da Previdência.
  1. A CPI da Previdência e Seguridade Social - depois do estudo e análise de dados do governo federal - chegou a conclusão que a Previdência Social não é deficitária e não dá nenhum prejuízo ao governo.
  2. O que o governo realmente quer com suas mentiras é acabar com a Previdência Pública; dificultar ao máximo a aposentadoria de trabalhadores informais, terceirizados e rurais; fazer com que os trabalhadores mais pobres morram antes de aposentar; abrir mercados para os bancos que vendem Previdência privada; perdoar os grandes bancos e empresas que sonegam a Previdência aumentando seus lucros; ampliar recursos do Tesouro Nacional para pagar a dívida pública e para fazer empréstimos a juros baixos aos bancos e grandes empresas.
  3. As grandes empresas de mídia, com a Rede Globo à frente, também devem à Previdência. Além disso, seus grandes clientes são os bancos e as grandes empresas devedoras.
  4. O relatório final da CPI mostra que as empresas privadas devem R$ 450 bilhões à Previdência.
  5. Os trabalhadores/as são os maiores interessados que a Previdência esteja em equilíbrio financeiro. Por isso defendemos: combater as fraudes; cobrar dos grandes devedores; impedir que os recursos da Previdência sejam desviados para obras do governo; impedir que a lei - que congela os gastos públicos por 20 anos - congele as fontes de financiamento da Seguridade Social que integra o Sistema de Previdência; ampliar a cobrança de impostos sobre as grandes fortunas (Cf. Forum Goiano contra as Reformas da Previdência e Trabalhista. Jornal da Classe Trabalhadora. Ano 1 - Número 3 - Novembro de 2017).
Por fim, manifestamos nossa solidariedade aos/às que se encontram em greve de fome (que começou no último dia 5) contra a Reforma da Previdência.
O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Sérgio da Rocha, esteve - dia 12 - na Câmara, para visitar e solidarizar-se com os agricultores em greve de fome, Dom Sérgio afirmou que a CNBB tem manifestado a necessidade de que as Reformas em andamento pelo Governo Temer devem preservar os direitos dos mais pobres e pediu paz e justiça.
Com esperança e fé, unidos e organizados, vamos à luta! Pela Revogação da Lei da Terceirização! Pela Revogação da Reforma Trabalhista! Contra a Reforma da Previdência! Nenhum Direito a Menos!





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 13 de dezembro de 2017

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Frei Henri: um Las Casas de nossos dias



A Nota “Morre Frei Henri, um Las Casas de nossos dias” da Coordenação da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, do dia 26 de novembro/17, começa dizendo: “Recebemos hoje, com pesar, a notícia da morte de Frei Henri des Roziers, frade dominicano que trabalhou quase 40 anos no combate ao trabalho escravo, na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos no Brasil”.
Frei Henri morreu (completou sua Páscoa) aos 87 anos em Paris, no Convento do frades dominicanos “onde passou os últimos 4 anos de sua vida, com saúde frágil, uma atenção plena e uma alegria invejável”.
A Nota continua afirmando que Frei Henri foi “fonte de inspiração de uma grande quantidade de pessoas”, “reuniu ao seu lado uma centena de gente que conspira e se inspira conjuntamente, que se encontra em torno da vida desse homem que fez dos seus atos individuais, os gestos coletivos de luta e de resistência”
E ainda: “Sua vida foi sempre uma vida política. E esse foi o convite que ele dirigiu a todos e todas. E para isso, mostrava o caminho que ele mesmo seguira: as grandes utopias da liberdade, a radical experiência da fé encarnada vivida por pessoas como Antônio Montesino e, principalmente, Bartolomeu de Las Casas, cuja inspiração Henri encarnou vivamente ao longo da vida: ‘eu tentei viver como ele’, confessara nas páginas finais do livro biográfico Comme une rage de Justice, publicado na França, em 2016, pela Editora Le Cerf (previsto para ser lançado, em breve, no Brasil)”.
A Nota lembra também que “Henri é membro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil. Mais do que isso: foi um dos seus idealizadores. Entre nós, ele insistia na importância da estratégia e da articulação. Foi, por isso, um construtor de pontes, cujo cimento era a esperança na luta pela Justiça. Nessa tarefa, uniu mundos aparentemente incomunicáveis. Ele fez o estudante francês da Sorbonne de maio de 68 se encontrar com o sem-terra do sul do Pará; ele fez com que os jovens Katangais compartilhassem seus destinos com os jovens vítimas do trabalho escravo da Amazônia; que advogados do Haute-Savoie servissem de exemplo para os advogados do norte do Brasil; que os frades franceses se vissem em Tito de Alencar e nos jovens frades brasileiros que lutavam contra a ditadura; que o humanismo cristão se encontrasse com a teologia da libertação; que Congar, Chenu e o Cardeal Arns sentassem à mesma mesa; que o Centro Saint-Yves e a CPT se reconhecessem reciprocamente; que a autoridade jurídica do advogado se unisse à autoridade moral do religioso; que o direito se encontrasse, afinal, com os pobres”.
Henri “viveu assim sua vocação ao extremo e deu sentido à sua vida como poucos conseguiram. À sua cepa pertence gente como Tito de Alencar, Tomás Balduíno, Lília Azevedo e Irmã Revy, entre outros irmãos e irmãs que se inspiraram mutuamente”.
A Nota destaca: “Foi com palavras embrulhadas por um sotaque francês e com roupas rotas, que Henri frequentou tribunais para defender as gentes sem defesa contra a impunidade. Advogado das causas da terra, ele conhecia de perto as vítimas e suas dores. Fez disso a sua estratégia de luta e nunca esmoreceu diante das muitas ameaças que sofrera. Ao contrário, toda vez que seu nome aparecia nas listas dos marcados para morrer, a luz dos seus olhos pequenos brilhava com mais força. E era essa fonte de luz que animava quem estava ao seu lado”.
Em tom poético, declara: “Henri morreu no quarto do Convento Saint Jacques, onde está a famosa biblioteca dos Chorões (visitada por Foucault e tantos outros) em Paris, diante da janela, por onde se esparramava uma árvore frondosa, cujas folhas douradas ele não cansava de contemplar e que vinham suavemente morrer contra a vidraça do quarto. Aquela árvore outonal prenunciara o destino do homem que, no outono da vida, murchava como as folhas. Mas como elas, também declinara com beleza, tornando-se fertilizante de outras vidas. Como aquela árvore, a vida de Henri se prolongou nos seus adubos”.
E agora, “a quem fica, restam outras estações, vitalidades e declínios. Para homenagear Frei Henri, continuaremos contemplando as árvores, atentos às estações, cuidando do tempo que é nosso”.
Com um profundo sentimento de dor compartilhada, a Nota conclui: “Embora uma parte de nós morreu com Henri hoje, uma outra com ele se rejuvenesce. Em silêncio, olhos marejados, colheremos os frutos e as boas sementes do mundo que há de vir. Henri estará conosco. Aquela árvore foi sua última lição”.
No Brasil inteiro, por ocasião da Páscoa definitiva do Frei Henri - que fez de sua vida uma doação de amor à causa dos “pequenos”, tornando-se um dos maiores defensores dos direitos dos trabalhadores rurais - centenas de pessoas, que tiveram a felicidade de conhecer e conviver com ele, deram - oralmente ou por escrito - seus testemunhos emocionantes, que renovam a nossa esperança e o nosso compromisso com a causa da justiça e dos direitos humanos.
O Cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília e presidente da CNBB - em sua Nota “Palavra sobre Frei Henri” - lembra que ele “foi um notável defensor dos mais pobres na região de conflito de terras no interior do Brasil” e que, “na linha do trabalho sempre corajoso da Pastoral da Terra, colocando sua formação em Direito a serviço dos mais fracos, esteve por muitos anos compartilhando da vida das comunidades do sul do Estado do Pará, lutando incansavelmente pela busca da justiça”. Por fim, Dom Sérgio testemunha: “Guardamos o seu exemplo como semente de perseverança para todos na firme missão de permanecermos ao lado dos pobres, sempre na paz, sem nos deixarmos intimidar por nenhum tipo de força que queira fazer frente à justiça e ao Evangelho de Jesus Cristo”.
Pessoalmente, todas as vezes que tinha a oportunidade de me encontrar com Frei Henri e de conversar com ele, fazia a experiência de uma comunhão de ideais tão profunda que me fortalecia e renovava a minha esperança em outro mundo possível. Um dia, fiquei muito emocionado percebendo que os olhos de Frei Henri brilhavam de luz depois de ter visto e contemplado a imagem de Nossa Senhora da Terra, vestida de trabalhadora pobre e dando a mão ao Menino Jesus, vestido de criança pobre.
Frei Henri vive entre nós! Sua luta continua! Frei Henri, ore por nós! 




 

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de dezembro de 2017




 

sábado, 2 de dezembro de 2017

Fazendo memória e projetando o futuro



Nos dias 4 e 5 de novembro do corrente ano - às vésperas do cinquentenário da Conferência de Medellín - 51 irmãos e irmãs da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil estivemos reunidos pelo 28º ano, no Instituto São Francisco, em Goiânia. Viemos de 6 Estados brasileiros e do Distrito Federal e do Chile. Ao final de mais um triênio no caminho da Justiça e Paz, “fizemos memória dos passos dados, fomos descobrindo que o Senhor sempre acendeu luzes quando precisávamos delas, e projetamos o futuro”.
Abrindo o Encontro, “foram partilhadas carinhosas e proféticas mensagens de algumas de nossas irmãs e irmãos que não puderam estar entre nós”. No momento em que vivemos, “fomos interpelados a refletir sobre a nossa responsabilidade enquanto pessoas e Comunidades do Evangelho na tradição dominicana”.
Durante o Encontro, sentimo-nos chamados “a aceitar o convite de Deus para continuar a ter esperança mesmo em tempos de crises”. Para enfrentar os desafios que a realidade nos apresenta, baseados e baseadas na experiência do nosso trabalho, “sentimo-nos animados e animadas a:
  • Resistir ao avanço da ‘mercantilização’ da vida;
  • Desenvolver uma espiritualidade ecológica libertadora à luz da nossa luta por Justiça e Paz;
  • Recriar espaços da Política, com ética, poética e ternura;
  • Criar novos movimentos de base, ecológicos, anticapitalistas, antirracistas e feministas”.
Como irmãos e irmãs - “para continuar a nossa caminhada rumo a Terra Sem
Males, construindo o Reino de Deus aqui e agora” - assumimos, juntos e juntas, as seguintes Bandeiras de Luta:
  1. Ação Política: “Participar e intervir nos espaços de discussão e encaminhamentos das Políticas Públicas em vista de seu fortalecimento; realizar ações críticas e propositivas nos próximos processos eleitorais; retomar as Escolas de Fé e Política, com enfoque para o fortalecimento da democracia e dos direitos, com destaque para as Reformas Política, Administrativa e Judiciária; atuar em parceria com Movimentos Populares, Pastorais Sociais, Comunidades Eclesiais de Base - CEBs e outras organizações das Igrejas e da sociedade civil; incentivar e intensificar o trabalho de base”.
  2. Direitos Humanos: “Trabalhar pelo respeito em relação às diversidades; atuar na luta contra o trabalho escravo, a violência no campo e na cidade, pela reforma agrária e urbana; incentivar e promover a Cultura da Paz e dos Direitos Humanos”.
  3. Ecologia: “Pensar o bem viver e o bem conviver na perspectiva do enfrentamento do desafio do desenvolvimento versus natureza; enfocar a questão da água como direito e como alimento, articulando com a crise ambiental; fomentar e apoiar rede de consumidores de produtos agroecológicos; criar espaço nas paróquias e casas (eventos, merenda nas escolas e outros) para feiras de produtos da agricultura familiar”.
  4. Juventudes: “Promover encontros com jovens de paróquias e colégios na perspectiva de Justiça e Paz, com participação dos jovens da Comissão; orientar os projetos de ação social apoiados pela Comissão para apoio às iniciativas da juventude; promover o protagonismo e participação das juventudes.
  5. Formação e Educação: “Promover encontros anuais com leigos/as representantes de paróquias e colégios sobre Justiça, Paz e Direitos Humanos; produzir conhecimentos, articulando saberes acadêmicos e populares; apoiar e promover formação política de lideranças; criar ou fortalecer Grupos de Acompanhamento ao Legislativo - GALs, em nível de municípios e estados; desenvolver metodologias novas, participativas e democráticas”.
  6. Espiritualidade libertadora: “promover leituras, formações e celebrações inspiradas pela Justiça e Paz, no âmbito do laicato e da formação inicial da Vida Consagrada Religiosa; promover estágios de vivências em situações de fronteiras, nas etapas de formação inicial e permanente; incentivar o trabalho ecumênico, o diálogo entre/com crentes e não crentes; retomar o testemunho dos mártires e cultivo da memória de nossas lutas coletivas”.
  7. Articulação da Comissão: “investir na articulação regional dos trabalhos; continuar com a responsabilidade da edição brasileira do Livro-Agenda Latino Americana Mundial; realizar ações de solidariedade entre os membros da Família Dominicana e com demais agentes e entidades parceiras; continuar promovendo a Semana de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino; investir na comunicação e divulgação das causas de Justiça e Paz”.
Por fim, “reafirmamos que a nossa pertença à Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil é fruto do compromisso com o nosso batismo” e queremos ser - com a Igreja dos Pobres - “uma Comissão em saída, para encontrar Deus na natureza, no outro, no social e na luta” (Carta final do 28º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil. Goiânia, 05 de novembro de 2017).
Em tempo:
  • Frei Henri des Roziers, Frade dominicano - que trabalhou quase 40 anos no combate ao trabalho escravo, na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos no Brasil - morreu (completou sua Páscoa) no dia 25 deste mês em Paris, no Convento onde passou os últimos 4 anos de sua vida, “com saúde frágil, uma atenção plena e uma alegria invejável” (Veja a íntegra da Nota da Coordenação da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, da qual Frei Henri era membro: “Morre Frei Henri, um Las Casas de nossos dias”. Goiânia, 26 de novembro/17).
  • Semana dos Direitos Humanos em Goiás: de 30 de novembro a 14 de dezembro/17 (Realização: Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino). Programação em: http://cressgoias.org.br/noticias/356-semana-dos-direitos-humanos-em-goias-2017. 10 de dezembro é o Dia Internacional dos Direitos Humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 10 de dezembro de 1948. Artigo 1º: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e em direitos humanos. Dotadas de razão e de consciência, devem agir umas para com as outras em espírito de fraternidade”. Dom Tomás Balduino: "Direitos Humanos não se pede de joelhos, exige-se de pé”. 






    Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
    Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
    Professor aposentado de Filosofia da UFG
    Goiânia, 29 de novembro de 2017


A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos