sábado, 1 de julho de 2017

Frente Ampla Nacional



Hoje, na grave crise política, econômica, social e institucional que o Brasil atravessa, as Frentes Políticas Populares (Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo e outras) - que integram Partidos Políticos Populares (ou Correntes Populares de Partidos Políticos), Sindicatos de Trabalhadores, Centrais Sindicais de Trabalhadores, Movimentos Populares e Centrais de Movimentos Populares sentem, cada vez mais, a necessidade de se unir numa Frente Ampla Nacional (uma Frente de Frentes) para que sua ação política seja mais orgânica, mais abrangente e mais eficaz.
Mantendo a identidade e valorizando as diferenças (e até as divergências) das diversas Frentes Políticas Populares na apresentação de Propostas e na escolha de Estratégias para os vários momentos históricos do processo de construção do Projeto Político Popular, a Frente Ampla Nacional deve - sobretudo neste tempo de crise - exercer sua militância em dois níveis.
  1. Em nível conjuntural: conclamando toda a sociedade brasileira a se mobilizar, tomar as ruas e as praças e gritar bem alto e forte: Fora Temer! Diretas já! Nenhum direito a menos! (e outras palavras de ordem).
  2. Em nível estrutural: dando todos os passos possíveis e necessários para derrotar (superar) o projeto capitalista neoliberal e construir o Projeto Político Popular para o Brasil (e para o mundo).
Atualmente, na prática política, podemos assumir três posicionamentos: o de quem quer manter o projeto político dominante (conservador), o de quem quer reformá-lo (reformista) e o de quem quer transformá-lo (transformador, libertador).
Por ser a história humana dinâmica e contraditória (dialética), esses posicionamentos não são três compartimentos estanques, sem nenhuma comunicação mútua. Entre seus defensores - mesmo que seja por razões diferentes - pode haver, por exemplo, "acordos pontuais” sobre alguma prática política concreta, mas nunca "aliança”, que supõe comunhão de ideais e de utopias.
O que caracteriza o projeto político dominante (projeto capitalista neoliberal)? Ele é um "sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA 385) ou um "sistema nefasto”, porque considera "o lucro como o motivo essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos bens de produção como um direito absoluto, sem limites nem obrigações correspondentes” (Paulo VI. Populorum Progressio - PP 26).
O sistema econômico capitalista neoliberal cria profundas desigualdades sociais, oprime, marginaliza e descarta os pobres. Como diz o Papa Francisco aos Movimentos Populares (Bolívia, julho de 2015), “este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata!”.
Para o projeto político neoliberal, o importante não é a vida do povo, mas o deus-mercado e os interesses dos seus servidores e adoradores. Do ponto de vista estrutural, ele é desumano, antiético e, portanto, anticristão.
Os defensores desse projeto político podem até aceitar algumas mudanças, mas só se for para modernizar o sistema e torná-lo mais eficiente. Nunca pensam em mudanças de estruturas. Com as migalhas que sobram da mesa dos ricos, promovem programas chamados de distribuição de renda, que - por sua ambiguidade - de um lado, servem para amenizar situações de extrema pobreza (o que é sempre positivo) e, de outro lado, para cooptar os trabalhadores e evitar que se transformem numa ameaça para a segurança e os interesses do próprio sistema. Na realidade, porém, esses programas não distribuem a renda, mas simplesmente restituem ao povo uma pequena e insignificante parcela daquilo que é sistemática e permanentemente roubado (roubo legalizado e institucionalizado) dos pobres na exploração da mão de obra e nos impostos sobre os produtos de primeira necessidade.
O que caracteriza o projeto político reformista (projeto capitalista neoliberal reformado)? As reformas - dizem os defensores desse projeto - têm por objetivo um "capitalismo com sensibilidade e responsabilidade social e ambiental” um "capitalismo de rosto humano”, um "capitalismo humanizado”, com a redução das desigualdades sociais e a busca do bem estar social e ambiental. É a chamada Terceira Via, doutrina político-econômica, idealizada por Anthony Giddens, impulsionada por Tony Blair e Lionel Jaspin, e que ganhou força com o chanceler Gerhard Schroeder e outros.
Uma pergunta: se o capitalismo neoliberal é estruturalmente desumano, pode ser humanizado? Pela lógica, a resposta é: não. O máximo que pode ser feito é amenizar, em determinadas situações conjunturais, seus efeitos iníquos.
O que caracteriza o projeto político transformador, libertador (Projeto Político Popular)? Como projeto alternativo, ele visa mudar as estruturas e superar o capitalismo neoliberal, abrindo caminhos para um socialismo realmente democrático e comunitário.
Um alerta: “Atualmente, multiplicam-se sem cessar as relações do ser humano com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que a própria socialização introduz novas ligações, sem no entanto favorecer em todos os casos uma conveniente maturação das pessoas e relações verdadeiramente pessoais (a personalização)” (Concílio Ecumênico Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 6). O desafio é buscar sempre mais a integração entre “socialização” e “personalização”.
O Projeto Político Popular “é a sociedade que queremos construir, é o objetivo a ser alcançado. Ele deverá estimular o trabalho de base, a formação militante e as ações conjuntas para a transformação de nossa sociedade. O caráter do nosso projeto não é apenas reivindicativo, mas busca construir unidade e força social para a transformação profunda das relações de produção”.
Para isso, precisamos construir o Poder Popular - como serviço - que consiste na "organização autônoma e independente do povo em suas lutas concretas, sejam elas locais ou regionais, de âmbito nacional ou internacional”, como "um processo permanente de busca por igualdade e justiça”, na promoção e defesa dos Direitos Ambientais, Políticos, Sociais, Civis, Econômicos e Culturais (II Assembleia Popular Nacional. Projeto Popular para o Brasil na construção do Brasil que queremos. Luziânia, 25-28/05/10, p. 6-9).
Em outras palavras, o Projeto Político Popular é o projeto do Bem Viver, do Bem Conviver. Jesus de Nazaré, "profeta da maior Utopia (‘que sejamos bons como Deus é bom, que nos amemos como Ele nos amou, que demos a vida pelas pessoas que amamos’) promulgou, com sua vida, sua morte e sua vitória sobre a morte, o Bem Viver do Reino de Deus. Ele é pessoalmente um paradigma, perene e universal, do Bem Viver, do Bem Conviver” (Pedro Casaldáliga. Latino-americana Mundial 2012, p. 11).
O argumento do pragmatismo político, tão usado pelos chamados Governos progressistas, deve nos levar a tomar consciência daquilo que - em determinadas condições objetivas concretas - é possível fazer para construir o Projeto Político Popular e não para promover e fortalecer o projeto capitalista neoliberal. Como se pode derrotar ou superar o projeto capitalista neoliberal fazendo acordos que o promovem e o fortalecem?
Não merece uma autocrítica a prática política social-desenvolvimentista (ou capitalista neoliberal “maquiada”) que levou os Governos presididos pelo PT “a dar atenção às demandas populares, desde que não contrariassem a política macroeconômica de inspiração neoliberal”? (CEBs e os desafios do mundo urbano. Texto Base do 14º Intereclesial das CEBs, 23-27 de janeiro de 2018, Londrina - Pr, p. 27-28).
E ainda: um Governo comprometido com a construção do Projeto Político Popular não deveria exercer o poder-serviço organicamente ligado (com seu apoio e sua solidariedade) às Frentes Políticas Populares e - se firmar - com a Frente Ampla Nacional? O que nós queremos implementar e fortalecer sempre mais é a governabilidade popular e não a governabilidade capitalista neoliberal!
Como resultado do esforço conjunto das Frentes Políticas Populares no processo de construção do Projeto Político Popular, tivemos uma grande mobilização em todos os cantos do país: nos dias 8 e 15 de março, na Greve Geral de 28 de abril, no Ocupa Brasília em 24 de maio e, por último, na Greve Geral de 30 de junho. Por sua vez, como resultado da grande mobilização e do amplo debate com a sociedade, conseguimos frear a tramitação da Reforma da Previdência e reprovar na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAS) a Reforma Trabalhista. Tudo isso é uma grande vitória que precisa ser comemorada.
No Brasil atual, a Frente Ampla Nacional - que já é uma realidade - poderá se tornar a grande força propulsora do Projeto Político Popular. Essa é a nossa esperança!
(Leia também na internet o artigo “Sobre o Plano Popular de Emergência”).
Se Deus quiser, voltarei a escrever na 1ª semana de agosto.





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de julho de 2017

 

sábado, 24 de junho de 2017

Crime cultural contra Frei Confaloni no centenário do seu nascimento


A obra de Frei Nazareno Confaloni, dominicano, no Setor Coimbra (Goiânia - GO) é um conjunto arquitetônico que inclui a Igreja São Judas Tadeu (construída entre 1959 - 1965) e a Praça com o mesmo nome. Agredindo a Igreja está se agredindo a Praça e agredindo a Praça está se agredindo a Igreja. O que há hoje é uma agressão à Igreja e à Praça ao mesmo tempo. Trata-se de um crime cultural contra Frei Confaloni, no ano do seu centenário de nascimento. Trata-se de um verdadeiro vandalismo, que revela a total falta de sensibilidade artística por parte dos responsáveis pela agressão.
Quer-se transformar a Praça inteira num estacionamento fechado. A todos e todas que têm um mínimo de bom senso, pergunto: dá para imaginar a Igreja de Frei Confaloni dentro de um estacionamento fechado? Quer-se também construir galpões (já iniciados) “colados” às paredes e às rampas da Igreja. Novamente pergunto: dá para imaginar a Igreja de Frei Confaloni com galpões “colados” às paredes e rampas da própria Igreja? Tudo isso que está acontecendo é um absurdo inconcebível.
Antes da agressão, subindo as rampas da Igreja, tinha-se a sensação de levitar, passando do jardim da Terra (Praça) para o jardim do Céu (Igreja). Era um momento agradável de contemplação. Com a agressão (em andamento), subindo as rampas da Igreja, tem-se a sensação de se defrontar com o telhado dos galpões. É um momento desagradável de poluição visual.
Diante dessa gravíssima agressão a um patrimônio cultural de Goiânia (que é também de Goiás, do Brasil e do mundo), faço dois pedidos.
O primeiro é dirigido aos artistas, arquitetos, paisagistas e urbanistas de Goiânia. Organizem um movimento de resistência e não deixem acontecer tamanha agressão - que envergonha a cidade de Goiânia - contra o patrimônio cultural de Frei Confaloni.
O segundo pedido é dirigido ao Secretário Municipal de Cultura de Goiânia, Kleber Adorno, para que tome com urgência as providências cabíveis.
Secretário, sabendo de seu interesse pela questão da cultura, sugiro que:
  1. Decrete - em homenagem ao centenário de nascimento de Frei Confaloni, artista plástico e pintor reconhecido nacional e internacionalmente - o tombamento imediato, em nível municipal, do conjunto arquitetônico, Igreja e Praça S. Judas Tadeu; solicitando às autoridades competentes que embarguem os trabalhos de agressão iniciados;
  2. Crie uma Comissão (composta de artistas, arquitetos, paisagistas e urbanistas) com a incumbência de fazer um estudo sobre o projeto original do conjunto arquitetônico de Frei Confaloni (Igreja e Praça);
  3. Recupere - a partir do estudo feito pela Comissão - o projeto original do conjunto arquitetônico de Frei Confaloni;
  4. Revitalize a Praça - sempre a partir do estudo feito pela Comissão - com área verde, calçadas, bancos (em forma de círculo ou de quadrado) e o maior número possível de vagas para estacionamento.
  5. Incorpore ao conjunto arquitetônico de Frei Confaloni somente os acréscimos posteriores que não agridem o projeto original, mas servem para lhe dar maior destaque e, ao mesmo tempo, para atender às necessidades de espaço físico da Paróquia.
Aproveito a oportunidade para pedir que seja tombada também, em nível municipal, a antiga Igrejinha São Judas Tadeu (Rua 242, ao lado da Praça, onde atualmente funciona a Secretaria da Paróquia), cuja construção é anterior à vinda a Goiânia de Frei Confaloni e que - reconduzida ao seu estilo original - valoriza a história, a cultura e a religiosidade do nosso povo.
Termino com a certeza que, diante do exposto, o Secretário Municipal da Cultura, Kleber Adorno, fará tudo o que estiver em suas possibilidades para preservar o patrimônio artístico e cultural de Frei Confaloni. O Direito à Cultura faz parte dos Direitos Humanos e deve ser promovido.

(Leia também na internet a minha “Carta aberta aos irmãos e irmãs da Paróquia S. Judas Tadeu e a quem possa interessar”).







Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 21 de junho de 2017


domingo, 18 de junho de 2017

Jubileu de Diamante da Arquidiocese de Goiânia


No dia 16 de junho deste ano é o 60º aniversário - Jubileu de Diamante - da instalação da Arquidiocese de Goiânia (sua criação - por decreto do Papa Pio XII - foi no dia 26 de março de 1956) e da posse de seu 1º arcebispo Dom Fernando Gomes dos Santos (1957).
Cinco anos depois começou o Concílio Ecumênico Vaticano II, que - no dizer do Papa S. João XXIII - abriu as janelas da Igreja para o mundo. Podemos dizer que a Arquidiocese de Goiânia nasceu e deu seus primeiros passos no clima do Concílio. Cresceu e se desenvolveu como uma Igreja renovada (pós-conciliar) com as janelas - e também as portas - abertas para o mundo: 60 anos de caminhada.
Em comemoração ao Jubileu de Diamante, a Arquidiocese realizou duas Celebrações: a Missa no Santuário Basílica de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Matriz de Campinas) no dia 31 de maio (Festa da Visitação de Nossa Senhora) e a Missa na Praça Cívica (Centro) no dia 15 de junho (Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo).
Durante a Jornada da Cidadania (24-27 de maio) - promovida pela PUC em conjunto com a Arquidiocese - realizou também uma “Linha da História” com a exposição de fotos e textos, produzida pelo Vicariato da Comunicação - com o apoio da PUC e da agência Iltda Comunicação - no Centro de Convenções da Universidade.
Faço agora duas reflexões. Primeira: o Ano Jubilar da Arquidiocese de Goiânia não pode ser reduzido a algumas Celebrações “formais” e a uma “exposição histórica” feita por comunicadores. É a Igreja Povo de Deus (sobretudo os pobres das nossas Comunidades) que - a partir de sua experiência de fé - deve viver este Ano Jubilar como um ano de “memória compartilhada” dos 60 anos de sua caminhada.
Do ponto de vista bíblico, fazer a memória da caminhada significa torna-la presente hoje, para que seja, para todos e todas nós, motivo de alegria, de ação de graças, de pedido de perdão, de renovação da esperança e de fortalecimento do compromisso com o Projeto de vida de Jesus de Nazaré - que é o Reino de Deus na história humana e cósmica - em Goiânia, em Goiás, no Brasil e no mundo de hoje.
Na “memória compartilhada”, ”o “ver-julgar-agir” (“analisar-interpretar-libertar”) nos leva ao “celebrar” e o “celebrar” nos leva novamente - num processo vivencial comunitário contínuo e de maneira sempre renovada - ao “ver-julgar-agir”. É somente vivendo esse processo - cada vez mais intensa e radicalmente - que podemos ser seguidores e seguidoras, discípulos missionários e discípulas missionárias de Jesus de Nazaré. Em caso contrário, corremos o risco de sermos fariseus hipócritas.
No 2º semestre do Ano Jubilar, a Paróquia Nossa Senhora da Terra (Jardim Curitiba III), para dar sua contribuição, promoverá - com o apoio, a colaboração e a participação de outras Organizações (CEBs, CEBI, CRB, CPT, Curso de Verão, Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, Cajueiro, Centro Cultural Cara-Vídeo, Economia Solidária) e Movimentos Populares - os seguintes acontecimentos comemorativos:
  1. Um Encontro de “memória compartilhada” dos 60 anos de caminhada da Arquidiocese de Goiânia (em setembro: local, data e horário a definir);
  2. Um “espaço” também de “memória compartilhada” - destacando sobretudo o papel fundamental da Arquidiocese de Goiânia na caminhada das CEBs no Regional Centro-Oeste da CNBB (Goiás e Distrito Federal) - no Mini-Intereclesial das CEBs, que acontecerá na Paróquia Nossa Senhora da Terra (20 - 22 de outubro)
  3. A 1ª Romaria das CEBs a Nossa Senhora da Terra - Mãe dos excluídos e excluídas - padroeira de todos e todas que lutamos em defesa de nossa Mãe Terra (em sintonia com as Campanhas da Fraternidade de 2016 e 2017). A Romaria celebrará a “memória compartilhada” (feita pela Igreja Povo de Deus nos dois Encontros anteriores e em outros Encontros) dos 60 anos da Arquidiocese de Goiânia. Durante a caminhada, teremos a Celebração Penitencial e a Celebração da Palavra; na Igreja Nossa Senhora da Terra, a Celebração da Ceia (domingo 26 de novembro: Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. Horário e trajeto da Romaria a definir).
Pedimos ao Espírito Santo que estes acontecimentos sejam “tempos fortes” de graça de Deus, para que a nossa Igreja Povo de Deus da Paróquia Nossa Senhora da Terra e de toda a Arquidiocese de Goiânia seja realmente uma Igreja evangélica, “pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres”, comprometida (como já dissemos) com o Projeto de vida de Jesus de Nazaré - que é o Reino de Deus na historia humana e cósmica - em Goiânia, em Goiás, no Brasil e no mundo de hoje.
Segunda reflexão: os Documentos de Medellín (1968: 2018 será o ano do Jubileu de Ouro) - que encarnam os Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II na América Latina e no Caribe - nos ensinam que a Comunidade Eclesial de Base (CEB) é “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial”, e que a Paróquia é “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (Medellín, XV, 10 e 13). As palavras são muito claras. Não precisam de explicação. Só não entende quem não quer entender.
Infelizmente, muitas de nossas Igrejas, há tempo, jogaram os Documentos de Medellín (e, consequentemente, também do Concílio Vaticano II) no “lixo”. Ora, pela lógica (um pouco de lógica aristotélico-tomista faz sempre bem!), as Igrejas que não aceitam os ensinamentos dos Documentos de Medellín - que são os Documentos fundantes da Igreja latino-americana e caribenha enquanto latino-americana e caribenha - não têm moral para exigir que aceitemos os ensinamentos de seus Documentos). Como uma Lei Municipal ou Estadual que vai contra a Constituição Federal (a Lei Magna) não tem valor, assim também um Documento de uma Igreja Particular que vai contra os Documentos de Medellín (a Constituição - a Lei Magna da Igreja Latino-americana e Caribenha), não tem valor.
Em comunhão com os ensinamentos de Medellín, a Arquidiocese de Goiânia - em seu Plano de Pastoral - considerou por muitos anos as CEBs como a prioridade das prioridades pastorais. Infelizmente, há alguns anos, na Igreja de Goiânia e em muitas outras, as CEBs (como o Centro de Estudos Bíblicos - CEBI e outras Organizações eclesiais que tanto bem fizeram à Igreja no Brasil) foram praticamente “descartadas” ou simplesmente “toleradas” (muitas vezes, com um sorrisinho cínico e irônico contido, estampado no rosto de bispos, padres e outros agentes de pastoral) como um “grupinho” que não tem nenhum peso na estrutura eclesial. “Não há lugar para as CEBs nos ‘espaços físicos’ da Igreja oficial!”. Lembrem os responsáveis pelo “descarte” ou pela “mera tolerância” das CEBs que terão de prestar conta a Deus!
Uma advertência: aqueles que pensam que as CEBs morreram se enganam redondamente. Elas estão muito vivas e nunca morrerão, porque nasceram no Dia de Pentecostes. As CEBs são “um jeito antigo e sempre novo de ser Igreja”; são a Igreja de Jesus de Nazaré, que foi “morador de rua” antes de nascer, nasceu como “sem-teto” e nunca morou em palácios ou mansões episcopais. Hoje, a Igreja das CEBs é a Igreja das catacumbas. Tenho certeza na fé que ela voltará mais forte, mais experimentada e mais madura. Aguardem!
Meditemos e oremos pela Igreja que está em Goiânia e por toda a Igreja.






Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 14 de junho de 2017

sábado, 10 de junho de 2017

Sobre o Plano Popular de Emergência


No dia 19 de maio último, a Frente Brasil Popular lançou o Plano Popular de Emergência: que apresenta 76 medidas, distribuídas em 10 propostas (que são os eixos do Plano): Democratização do Estado - Política de desenvolvimento, emprego e renda - Reforma agrária e agricultura familiar - Reforma tributária - Direitos sociais e trabalhistas - Direito à saúde, à educação, à cultura e à moradia - Segurança pública - Direitos humanos e cidadania - Defesa do meio-ambiente - Política externa soberana.
Na apresentação do Plano, a Frente diz que a saída democrática da situação em que o Brasil se encontra “tem como pressuposto a antecipação das eleições presidenciais para 2017. Esse é primeiro passo para se travar uma ampla e persistente disputa politica capaz de criar uma correlação de forças favorável à oportuna convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, destinada a refundar o Estado de direito e estabelecer reformas estruturais democráticas”.
O Plano, que “representa uma alternativa para enfrentar a crise gestada pela agenda antipatriótica, antipopular, antinacional e autoritária dos golpistas”, merece todo nosso apoio.
A Frente Brasil Popular propõe “debater esse Plano junto às bases das entidades, movimentos e partidos do campo democrático, popular e progressista”. Trabalha também para “aprofundar o diálogo e a unidade entre as correntes democráticas, populares e progressistas, fortalecendo e ampliando alianças imprescindíveis para derrotar o bloco conservador que tomou de assalto o comando da República”. Visa ainda “a unificação das forças democráticas, populares e progressistas, na luta pela derrogação do atual Governo e construção de uma nova coalizão popular que enseje a retomada democrática e a ascensão das grandes massas como sujeito da História”.
Esse é o maior desafio das forças políticas populares!
(Leia o Plano na íntegra em:
http://frentebrasilpopular.org.br/system/uploads/action_file_version/b9769c87753c384b277f1f828ac7721d/file/ppe.pdf)
Para colaborar no enfrentamento desse desafio, apresento quatro sugestões:
  1. Que os Movimentos Populares, as Centrais de Movimentos Populares, os Sindicatos, as Centrais Sindicais, os Partidos Políticos Populares e as Frentes Populares não envidem esforços para construir a unidade (mesmo nas diferenças) em torno de um Projeto Político Popular comum possível, que combata o capitalismo neoliberal: rural (o agronegócio, a monocultura, o envenenamento da terra, a destruição dos biomas) e urbano (a especulação imobiliária, o urbanismo de mercado).
  2. Que - em suas propostas - o Projeto Político Popular destaque três grandes bandeiras de luta (os 3 T): a Reforma Agraria Popular (que garanta o direito à terra e a uma agricultura ecológica familiar - comunitária), a Reforma Urbana Popular (que garanta o direito ao teto - moradia digna) e a Reforma Trabalhista (que garanta o direito ao trabalho digno, defenda os direitos já conquistados dos trabalhadores, amplie esses direitos e incentive a prática da “economia solidária”, criando pequenas e médias empresas familiares e comunitárias, geridas pelos próprios trabalhadores/as).
  3. Que depois de elaborado (a partir das propostas do Plano Popular de Emergência e outras) um Projeto Político Popular comum possível, as forças políticas populares indiquem um candidato ou candidata (mesmo que seja só pré-candidato ou pré-candidata) que se comprometa com o Projeto e se disponha a governar com o apoio e a colaboração dessas forças políticas (buscando sempre a “governabilidade popular” e não a “governabilidade neoliberal”). Infelizmente, os Governos progressistas dos últimos anos, coordenados pelo PT, foram levados - por uma série de fatores que não cabe aqui analisar - a “dar atenção às demandas populares, desde que não contrariassem a política macroeconômica de inspiração neoliberal” (CEBs e os desafios do mundo urbano. Texto-Base do 14º Intereclesial das CEBs, Londrina - PR, 23-27/01/18, p. 27-28). Foi justamente o “desde que...” o grande erro (causa de muitos outros) desses Governos. Lembremos: se não formos capazes de construir a unidade em torno de um Projeto Político Popular comum possível com um único candidato/a a presidente, estaremos fazendo o jogo do sistema dominante e seus asseclas!
  4. Que nesse Projeto Político Popular comum possível sejam incorporadas as valiosas contribuições dos Documentos Finais dos 3 Encontros Mundiais dos Movimentos Populares e dos Discursos do Papa Francisco aos participantes desses Encontros. Só para citar o 3º EMMP - no final de uma série de 6 artigos sobre o tema - eu dizia: “Termino essa série de artigos convencido que os dois Documentos Finais do 3º EMMP “Propostas de ação transformadora” e “Estratégias comuns em todas as linhas de ação” (Síntese dos trabalhos de grupos) são um roteiro de um programa político de governo”. E concluía: “Oxalá, os Movimentos Populares, as Centrais de Movimentos Populares, os Sindicatos de Trabalhadores/as, as Centrais Sindicais de Trabalhadores/as, os Partidos Políticos Populares e as Frentes Populares do Brasil (unidos/as nas diferenças) elaborassem - a partir de suas bases e à luz dessas Propostas e Estratégias - um programa político de governo possível! Oxalá (depois de elaborado o programa), escolhessem, entre eles e elas, um candidato ou candidata a Presidente, que assumisse esse programa e - organicamente ligado a todas as Organizações Populares e seus aliados/as - se comprometesse a cumpri-lo!”. Dizia ainda: “Permito-me sonhar! Quem sabe, o sonho se torne realidade! A esperança nunca morre!”.

A luta continua! A vitória já é nossa!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 07 de junho de 2017


sábado, 3 de junho de 2017

Dom Fernando, pastor-profeta: um “Pai da Pátria Grande”

Fiquei feliz - embora surpreso - com a boa notícia do dia 23 de maio último, a respeito de Dom Fernando Gomes dos Santos: “A PUC Goiás e a Universidade Internacional da Flórida participam de projeto do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) que vai recontar a trajetória de religiosos que tiveram impacto na sociedade. Em Goiás, o escolhido é Dom Fernando Gomes, arcebispo da Arquidiocese de Goiânia de 1957 a 1985. Os pesquisadores Janira Sodré Miranda e Antônio César Caldas Pinheiro conduzirão o trabalho, que comporá o volume especial ‘Trajetórias pastorais - Histórias dos Pais da Pátria Grande’. O lançamento está previsto para setembro de 2018, data dos 50 anos da 2ª Conferência dos Bispos Latino-americanos na cidade de Medellín, Colômbia” (O Popular, 25/05/17, p. 6).
Dom Fernando é realmente um “Pai da Pátria Grande”! Sua história precisa ser redescoberta e recontada, com toda fidelidade e amor à verdade. “A verdade vos libertará!” (Jo 8, 32). É uma história paradigmática para a Igreja pós-conciliar em Goiás, no Brasil e na América Latina.
No dia 1º de junho do corrente ano completam 32 anos da Páscoa definitiva de Dom Fernando. Aproveito a data para retomar - por ser sempre atual - o que escrevi há 7 anos.
Por ter tido a felicidade - dizia à época - de ser amigo e colaborador direto de Dom Fernando Gomes dos Santos como Coordenador da Pastoral e Vigário Geral da Arquidiocese de Goiânia (também Vice-Presidente da Sociedade Goiana de Cultura, Mantenedora da UCG), não posso deixar passar o ano do seu centenário de nascimento sem dar publicamente o meu testemunho.
Por ocasião de sua morte, ou, melhor dizendo, do dia em que "completou sua Páscoa", falei que Dom Fernando foi "um Pastor-Profeta dos nossos tempos", "fiel à Palavra de Deus e fiel aos apelos da realidade" (cf. Revista da Arquidiocese. Goiânia, ano 28, n. 6/7, junho/julho 1985, p. 393 e 426-427).
Dom Fernando tinha uma personalidade forte, mas um coração muito grande. Era uma figura de extraordinária profundidade humana; sabia compreender, com amor de pai e ternura de mãe, as fraquezas do ser humano; ele foi sempre um irmão solidário de todos/as, especialmente dos mais pobres.
No depoimento, que ele deu à Revista Eclesiástica Brasileira (REB), poucos meses antes de sua Páscoa definitiva, depois de falar da ação pastoral do Secretariado da Pastoral Arquidiocesana (SPAR), diz que ela "se complementa naturalmente no gabinete do arcebispo, sempre aberto a ouvir a todos, a qualquer hora. Nesses encontros - em sua maior parte com pessoas pobres, marginalizadas e oprimidas - tem acontecido que, além das palavras de estímulo, recebam, alguma vez, o sacramento da Penitência, sem que ninguém saiba ou perceba. Transforma-se, assim, em lugar privilegiado de reconciliação e de perdão" (REB, março de 1985).
Quando, por causa de sua tomada de posição clara, destemida e firme em defesa do povo, o acusavam de ser contra o Governo, Dom Fernando dizia: “eu sou a favor do povo; quando o Governo estiver a favor do povo, eu estarei com ele, quando estiver contra o povo, eu estarei contra ele".
Dom Fernando nunca foi um homem bajulador e oportunista, como é bastante comum acontecer, mesmo em ambientes de igreja. Por ser sempre um homem reto, coerente e franco, ele não conseguia entender e não tolerava, de forma alguma, a traição, que na realidade é um comportamento covarde e mesquinho. Percebendo que uma pessoa, em quem ele tinha confiado, o traia, sofria calado, mas perdia completamente a confiança. Quando, porém, confiava em alguém, sua confiança era total e irrestrita.
Como tive a graça de conviver com Dom Fernando e ser, pela afinidade que tínhamos, pessoa da sua confiança, quando alguém o procurava para tratar de um assunto que podia ser resolvido no Secretariado da Pastoral Arquidiocesana (SPAR), o ouvi diversas vezes dizer: "isso é com Frei Marcos". Dom Fernando - sobretudo depois do Concílio Vaticano II - era um homem que acreditava na "Igreja dos Pobres" e vivia a comunhão e participação, numa Igreja toda ela ministerial. Por isso, partilhava com os Padres, as Religiosas e os Agentes pastorais leigos/as a responsabilidade do pastoreio.
Embora tenha consciência que não é mérito meu, mas dom de Deus, honra-me muito o reconhecimento de Dom Fernando a respeito do SPAR, no depoimento já citado: "O SPAR tem sido o grande centro de convergência e de irradiação de tudo o que se passa na Arquidiocese no campo pastoral. Dotado de sede própria, que integra o conjunto Catedral-Cúria Metropolitana-SPAR, no centro da cidade, constitui o ponto mais dinâmico da Arquidiocese. Hoje o SPAR conta com o coordenador da Pastoral, Frei Marcos Sassatelli, que é também vigário geral, e com uma extraordinária equipe de sacerdotes, religiosas e leigos competentes, de rara dedicação e eficiência. No SPAR, funcionam oito Comissões que dinamizam as atividades fundamentais, referentes às prioridades do Plano Pastoral, elaborado em Assembleia Arquidiocesana e constantemente estudado nas reuniões e encontros. O SPAR produz, também, grande número de boletins e impressos, que são divulgados nas paróquias da Arquidiocese, principalmente nas comunidades da periferia, e que são encomendados por outras Igrejas particulares do Brasil afora. Grande é também o número de cursos ministrados nas comunidades da capital e do interior" (REB, ib.).
Como todo ser humano, Dom Fernando tinha também suas limitações e seus defeitos, mas era um homem de uma só palavra, um homem íntegro, um homem "sem violência e sem medo". Com inabalável fidelidade, amava muito a Mãe Igreja, mesmo, às vezes, sofrendo profunda e silenciosamente por causa das incompreensões de irmãos da própria Igreja.
No seu Testamento, Dom Fernando confessa: "Não obstante as minhas deficiências, fraquezas e falhas, sempre me consagrei com tudo o que sou e com tudo o de que dispus, à Santa Igreja e ao sagrado ministério" (O Testamento de Dom Fernando. Revista da Arquidiocese. Goiânia, ano 28, n. 6/7, junho/julho 1985, p. 356).
Dom Fernando, como "pastor-profeta dos nossos tempos" e como "defensor e advogado do Povo" (capa da REB de março de 1985), era também implacável na denúncia e na luta contra as injustiças sociais. Era respeitado e temido pelos poderosos, sobretudo nos tempos difíceis da ditadura civil e militar. Só para citar um exemplo, foi a coragem de Dom Fernando que impediu a expulsão de Dom Pedro Casaldáliga do Brasil.
Dom Fernando, como homem "fiel à Palavra de Deus e fiel aos apelos da realidade", viveu intensamente os ensinamentos do Concílio Vaticano II.
"Como Cristo, por sua Encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja - AG, 10).
"Para desempenhar sua missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre os significados da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (Concílio Vaticano II, A Igreja no mundo de hoje - GS, 4).
À época (e retomo agora) terminava o meu testemunho dizendo: Que a memória do legado do primeiro arcebispo da Arquidiocese de Goiânia, Dom Fernando Gomes dos Santos, no centenário do seu nascimento e nos 25 anos de sua Páscoa definitiva (hoje, já são 32 anos), sirva-nos de estímulo para que sejamos, sempre mais, uma Igreja evangélica, uma Igreja pobre e uma Igreja comprometida com a Boa Notícia do Reino de Deus no mundo de hoje (Cf.Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 23/12/10, p. 17. Veja também:
http://freimarcos.blogspot.com.br/2010/12/dom-fernando-pastor-profeta.html). 




 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de junho de 2017

sábado, 27 de maio de 2017

Carta aberta aos irmãos e irmãs da Paróquia São Judas Tadeu e a quem possa interessar


Dirijo-me a vocês como irmão, religioso dominicano e padre. Sem nenhuma intenção de polemizar e com todo respeito, em consciência sinto-me no dever de fazer algumas considerações e reflexões.
A área na qual se localiza a Igreja S. Judas Tadeu é conhecida, historicamente, como Praça S. Judas Tadeu (Setor Coimbra - Goiânia - GO) e não como Estacionamento S. Judas Tadeu. A história deve ser respeitada (mesmo que a propriedade do terreno seja de uma Entidade particular).
Confesso a vocês, irmãos e irmãs, que me doeu muito quando vi que os bancos tinham sido tirados da Praça, para que - conforme disseram algumas pessoas - os jovens não sentassem nos bancos para namorar ou usar drogas e, sobretudo, para que os Moradores de Rua não comessem nos bancos - sujando a Praça - ou não dormissem debaixo deles.
Fica a pergunta: Jesus de Nazaré - se morasse hoje no Setor Coimbra - teria agido dessa forma? Pensemos!
Confesso também a vocês que me doeu mais ainda quando tomei conhecimento que - por decisão (dizem) da Assembleia paroquial - tinha sido lançada a “Campanha do estacionamento e do fechamento da Praça”.
Fica novamente a pergunta: Jesus de Nazaré teria agido dessa forma? Com toda fraternidade para com o meu irmão Frei Bruno (atualmente, Coordenador da nossa Província dominicana do Brasil Frei Bartolomeu de Las Casas), será que se pode dizer: “Você colabora, a Comunidade agradece e Deus abençoa!”? Pessoalmente, não acredito que, neste caso, “Deus abençoe”! Continuemos pensando!
Na Paróquia São Judas Tadeu - confiada aos cuidados pastorais dos Frades Dominicanos e fundada por Frei Nazareno Confaloni, artista plástico e pintor reconhecido nacional e internacionalmente - trabalhei três anos e meio, de novembro/69 a maio/73 (depois de vir da Itália e morar dois anos em São Paulo), colaborando com Frei Celso Pereira de Almeida, pároco da Paróquia.
À época, eu - jovem padre - e algumas outras pessoas, fundamos o Movimento de Jovens “Mundo Novo”, que teve uma atuação marcante em Goiânia e em algumas outras cidades, sobretudo no meio estudantil.  
Após essa primeira experiência pastoral - por opção pelos pobres e vocação missionária - trabalhei sempre em Comunidades e Paróquias da periferia de Goiânia (quase a vida toda) e de Belo Horizonte (5 anos). Além disso, em Goiânia, assumi serviços pastorais em nível de Arquidiocese e fui professor de teologia (UCG, IFITEG e Seminário Santa Cruz) e, sobretudo, de Filosofia (UFG).
Atualmente - com Irmãs Dominicanas, Irmãs de São José e muitos outros irmãos e irmãs - trabalho na Paróquia Nossa Senhora da Terra (5 Comunidades) na Região Noroeste de Goiânia e participo de Pastorais Sociais e Movimentos Populares.
Sou membro do Convento S. Judas Tadeu (o Convento, além da Paróquia homônima, tem também outras atividades missionárias) e, no momento, a minha presença na Paróquia São Judas Tadeu se dá somente nas Missas com a Oração da Manhã (Laudes) das 7h - de terça à sexta-feira - e nas Missas de encerramento de algumas festas da Família Dominicana.
Mesmo assim, como irmão e baseado na minha longa experiência pastoral no meio do povo, faço alguns questionamentos e dou algumas sugestões a respeito da “Campanha do estacionamento e fechamento da Praça”.

  1.  Com esta Campanha, irmãos e irmãs, vocês não estão indo na contramão do Evangelho de Jesus de Nazaré e das orientações do Papa Francisco, que nos pede para construir pontes que unem e não muros (ou grades) que separam?
  2. Por que - no lugar de fechar toda a Praça - vocês não reduzem a área já fechada ao mínimo necessário e aumentam a área verde com estacionamento?
  3.  Por que - nesta área verde com estacionamento - vocês não fazem calçadas com bancos (em forma de quadrados ou círculos), para que a Praça se torne um lugar de encontro e de convívio com as pessoas, principalmente com os nossos irmãos e irmãs Moradores de Rua, vítimas de estruturas sociais injustas e de “um sistema econômico iniquo”?
  4. Por que - respeitando a estrutura arquitetônica da Igreja - vocês não criam (como fez o Papa Francisco) um espaço com chuveiros e lavanderia para que os Moradores de Rua possam tomar banho e lavar suas roupas, colaborando assim na recuperação de sua autoestima?
  5.  Por que, na dimensão social do Dízimo, vocês não reservam mensalmente uma quantia de dinheiro para que uma Equipe multidisciplinar de voluntários e voluntárias da Paróquia possa realizar - depois de bem preparada - um trabalho de Pastoral da População de Rua, promocional e libertador, em comunhão com a Pastoral Nacional da População de Rua da CNBB e em “colaboração real, permanente e comprometida” (Papa Francisco) com o Movimento Nacional da População de Rua e com o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, de Goiás?
  6.  Por que vocês constroem na Igreja “puxados” que desrespeitam e agridem sua estrutura arquitetônica original, justamente no ano em que comemoramos o centenário de nascimento do idealizador da Igreja, Frei Nazareno Confaloni?
  7.  Enfim, por que - para valorizar a história da Paróquia - vocês não recuperam, no seu estilo original, a Igrejinha da antiga Comunidade S. Judas Tadeu (anterior à vinda dos Frades Dominicanos), como lugar de Oração e Contemplação?
Lembrem-se, irmãos e irmãs, das palavras de Jesus, no juízo final: “Tudo o que vocês fizeram (ou não fizeram) a um desses meus irmãos mais pequeninos, é a mim que o fizeram (ou não o fizeram)” (Mt 25, 40 e 45).
Termino, convidando todos e todas vocês a meditar comigo dois textos do Papa Francisco, que recentemente comemorou seus 80 anos de idade tomando o café da manhã com Moradores de Rua.
“Hoje vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem inúmeros prazeres e bem-estar para uma minoria..., mas nega-se o teto a milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados, elegantemente, de ‘pessoas em situação de rua’. È curioso como no mundo das injustiças abundam os eufemismos. Não se dizem as palavras com toda a clareza, e busca-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa segregada, uma pessoa apartada, uma pessoa que está sofrendo a miséria, a fome, é uma ‘pessoa em situação de rua’: palavra elegante, não? (...). Em geral, por trás de um eufemismo há um crime”. (Discurso do Papa Francisco. 1º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Roma, 28/10/14).  
“Soube que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (Discurso do Papa Francisco. 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Como irmão de vocês, espero que um dia - parafraseando as palavras do Evangelho - não sejamos obrigados a dizer: “Não há lugar para eles (os Moradores de Rua - que são as Marias grávidas e os Josés de hoje) na Praça São Judas Tadeu!” (Lc 2, 7). Fraternalmente, Frei Marcos.




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 24 de maio de 2017

sábado, 20 de maio de 2017

O vale tudo do Governo e a luta dos trabalhadores

“No esforço de superação do grave momento atual, são necessárias Reformas, que se legitimam quando obedecem à lógica do diálogo com toda a sociedade, com vistas ao bem comum” (CNBB. O grave momento nacional, 03/05/17)
Infelizmente, não é isso o que acontece hoje no Brasil, no Governo ilegítimo do golpista Michel Temer com as Reformas (Antirreformas) da Previdência e Trabalhista e com a Lei da Terceirização. As Reformas são impostas ditatorialmente, de cima para baixo, sem ouvir a voz dos trabalhadores e das trabalhadoras.
É o império do mal, é um crime contra a vida do povo (um crime de lesa-humanidade). Michel Temer não passa de um fantoche, manipulado pelos detentores do poder financeiro internacional e a serviço de seus interesses.
Para impor as Reformas, “vale tudo”. Basta um exemplo. “A equipe econômica (do Governo) decidiu perdoar os juros da dívida da contribuição social do empregador rural. A informação é publicada por O Estado de S. Paulo, 15-05-17. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, bateu o martelo nesse ponto reivindicado pela bancada ruralista do Congresso. O Governo vai editar uma medida provisória para tratar do passivo do Funrural, o equivalente à contribuição para a Previdência do setor, cujo passivo pode superar R$ 10 bilhões. Michel Temer se reúne com a bancada hoje e deve anunciar a medida como moeda de troca para o apoio à Reforma da Previdência” (http://www.ihu.unisinos.br/567640-por-reforma-governo-faz-agrado-aos-ruralistas). O descaramento é total e a sem-vergonhice não tem limites!
No dia 4 do mês corrente, as Centrais Sindicais - na Nota “Continuar e ampliar a mobilização contra a retirada de direitos” - “avaliaram a Greve Geral do dia 28 de abril como a maior mobilização da classe trabalhadora brasileira”. E afirmam: “Os trabalhadores demonstraram sua disposição em combater o desmonte da Previdência social, dos Direitos trabalhistas e das Organizações Sindicais de trabalhadores”.
Continuam dizendo: “A forte paralisação teve adesão nas fábricas, escolas, órgãos públicos, bancos, transportes urbanos, portos e outros setores da economia e teve o apoio de entidades da sociedade civil como a CNBB, a OAB, o Ministério Público do Trabalho, Associações de magistrados e advogados trabalhistas, além do enorme apoio e simpatia da população, desde as grandes capitais até as pequenas cidades do interior”.
As Centrais Sindicais, reafirmando sua disposição de luta em defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, definiram um calendário para dar continuidade e ampliar as mobilizações.
“De 8 a 12 de maio:
  • Comitiva permanente de dirigentes sindicais no Congresso Nacional para pressionar os deputados e senadores e também atividades em suas bases eleitorais para que votem contra a retirada de direitos;
  • Atividades nas bases sindicais e nas ruas para continuar e aprofundar o debate com os trabalhadores e a população sobre os efeitos negativos para a toda sociedade e para o desenvolvimento econômico e social brasileiro.
De 15 a 19 de maio:
  • Ocupa Brasília: conclamamos toda a sociedade brasileira, as diversas categorias de trabalhadores do campo e da cidade, os Movimentos sociais (populares) e de cultura a ocuparem Brasília para reiterar que a população brasileira é frontalmente contra a aprovação da Reforma da Previdência, da Reforma Trabalhista e de toda e qualquer retirada de direitos;
  •  Marcha para Brasília: em conjunto com as Organizações sindicais e sociais (populares) de todo o país, realizar uma grande manifestação em Brasília contra a retirada de direitos”.
A Nota termina dizendo: “Se isso ainda não bastar, as Centrais Sindicais assumem o compromisso de organizar um movimento ainda mais forte do que foi o 28 de abril. Por fim, as Centrais Sindicais reunidas convocam todos os Sindicatos de trabalhadores do Brasil para mobilizarem suas categorias para esse calendário de lutas” (CGTB - Central Geral dos Trabalhadores do Brasil, CSB - Central dos Sindicatos Brasileiros, CSP Conlutas - Central Sindical e Popular, CTB - Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil, CUT - Central Única dos Trabalhares, Força Sindical, Intersindical - Central da Classe Trabalhadora, NCST - Nova Central Sindical de Trabalhadores, UGT - União Geral dos Trabalhadores).
No dia 7 último, as Centrais Sindicais convocaram a “Marcha para Brasília” contra as Reformas para o próximo dia 24, como uma preparação para a segunda greve geral do ano no País. Parabéns às Centrais Sindicais pela unidade na luta! Aliadas aos Movimentos Populares e outras Organizações da sociedade civil - como Comunidades Eclesiais de Base, Igrejas, Pastorais Sociais e outras - elas são uma força invencível.
A causa é justa e Deus está do lado dos que lutam pela justiça! Fora Temer! Diretas já! Nenhum Direito a Menos!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 17 de maio de 2017

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos