sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Frei Henri: um Las Casas de nossos dias



A Nota “Morre Frei Henri, um Las Casas de nossos dias” da Coordenação da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, do dia 26 de novembro/17, começa dizendo: “Recebemos hoje, com pesar, a notícia da morte de Frei Henri des Roziers, frade dominicano que trabalhou quase 40 anos no combate ao trabalho escravo, na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos no Brasil”.
Frei Henri morreu (completou sua Páscoa) aos 87 anos em Paris, no Convento do frades dominicanos “onde passou os últimos 4 anos de sua vida, com saúde frágil, uma atenção plena e uma alegria invejável”.
A Nota continua afirmando que Frei Henri foi “fonte de inspiração de uma grande quantidade de pessoas”, “reuniu ao seu lado uma centena de gente que conspira e se inspira conjuntamente, que se encontra em torno da vida desse homem que fez dos seus atos individuais, os gestos coletivos de luta e de resistência”
E ainda: “Sua vida foi sempre uma vida política. E esse foi o convite que ele dirigiu a todos e todas. E para isso, mostrava o caminho que ele mesmo seguira: as grandes utopias da liberdade, a radical experiência da fé encarnada vivida por pessoas como Antônio Montesino e, principalmente, Bartolomeu de Las Casas, cuja inspiração Henri encarnou vivamente ao longo da vida: ‘eu tentei viver como ele’, confessara nas páginas finais do livro biográfico Comme une rage de Justice, publicado na França, em 2016, pela Editora Le Cerf (previsto para ser lançado, em breve, no Brasil)”.
A Nota lembra também que “Henri é membro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil. Mais do que isso: foi um dos seus idealizadores. Entre nós, ele insistia na importância da estratégia e da articulação. Foi, por isso, um construtor de pontes, cujo cimento era a esperança na luta pela Justiça. Nessa tarefa, uniu mundos aparentemente incomunicáveis. Ele fez o estudante francês da Sorbonne de maio de 68 se encontrar com o sem-terra do sul do Pará; ele fez com que os jovens Katangais compartilhassem seus destinos com os jovens vítimas do trabalho escravo da Amazônia; que advogados do Haute-Savoie servissem de exemplo para os advogados do norte do Brasil; que os frades franceses se vissem em Tito de Alencar e nos jovens frades brasileiros que lutavam contra a ditadura; que o humanismo cristão se encontrasse com a teologia da libertação; que Congar, Chenu e o Cardeal Arns sentassem à mesma mesa; que o Centro Saint-Yves e a CPT se reconhecessem reciprocamente; que a autoridade jurídica do advogado se unisse à autoridade moral do religioso; que o direito se encontrasse, afinal, com os pobres”.
Henri “viveu assim sua vocação ao extremo e deu sentido à sua vida como poucos conseguiram. À sua cepa pertence gente como Tito de Alencar, Tomás Balduíno, Lília Azevedo e Irmã Revy, entre outros irmãos e irmãs que se inspiraram mutuamente”.
A Nota destaca: “Foi com palavras embrulhadas por um sotaque francês e com roupas rotas, que Henri frequentou tribunais para defender as gentes sem defesa contra a impunidade. Advogado das causas da terra, ele conhecia de perto as vítimas e suas dores. Fez disso a sua estratégia de luta e nunca esmoreceu diante das muitas ameaças que sofrera. Ao contrário, toda vez que seu nome aparecia nas listas dos marcados para morrer, a luz dos seus olhos pequenos brilhava com mais força. E era essa fonte de luz que animava quem estava ao seu lado”.
Em tom poético, declara: “Henri morreu no quarto do Convento Saint Jacques, onde está a famosa biblioteca dos Chorões (visitada por Foucault e tantos outros) em Paris, diante da janela, por onde se esparramava uma árvore frondosa, cujas folhas douradas ele não cansava de contemplar e que vinham suavemente morrer contra a vidraça do quarto. Aquela árvore outonal prenunciara o destino do homem que, no outono da vida, murchava como as folhas. Mas como elas, também declinara com beleza, tornando-se fertilizante de outras vidas. Como aquela árvore, a vida de Henri se prolongou nos seus adubos”.
E agora, “a quem fica, restam outras estações, vitalidades e declínios. Para homenagear Frei Henri, continuaremos contemplando as árvores, atentos às estações, cuidando do tempo que é nosso”.
Com um profundo sentimento de dor compartilhada, a Nota conclui: “Embora uma parte de nós morreu com Henri hoje, uma outra com ele se rejuvenesce. Em silêncio, olhos marejados, colheremos os frutos e as boas sementes do mundo que há de vir. Henri estará conosco. Aquela árvore foi sua última lição”.
No Brasil inteiro, por ocasião da Páscoa definitiva do Frei Henri - que fez de sua vida uma doação de amor à causa dos “pequenos”, tornando-se um dos maiores defensores dos direitos dos trabalhadores rurais - centenas de pessoas, que tiveram a felicidade de conhecer e conviver com ele, deram - oralmente ou por escrito - seus testemunhos emocionantes, que renovam a nossa esperança e o nosso compromisso com a causa da justiça e dos direitos humanos.
O Cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília e presidente da CNBB - em sua Nota “Palavra sobre Frei Henri” - lembra que ele “foi um notável defensor dos mais pobres na região de conflito de terras no interior do Brasil” e que, “na linha do trabalho sempre corajoso da Pastoral da Terra, colocando sua formação em Direito a serviço dos mais fracos, esteve por muitos anos compartilhando da vida das comunidades do sul do Estado do Pará, lutando incansavelmente pela busca da justiça”. Por fim, Dom Sérgio testemunha: “Guardamos o seu exemplo como semente de perseverança para todos na firme missão de permanecermos ao lado dos pobres, sempre na paz, sem nos deixarmos intimidar por nenhum tipo de força que queira fazer frente à justiça e ao Evangelho de Jesus Cristo”.
Pessoalmente, todas as vezes que tinha a oportunidade de me encontrar com Frei Henri e de conversar com ele, fazia a experiência de uma comunhão de ideais tão profunda que me fortalecia e renovava a minha esperança em outro mundo possível. Um dia, fiquei muito emocionado percebendo que os olhos de Frei Henri brilhavam de luz depois de ter visto e contemplado a imagem de Nossa Senhora da Terra, vestida de trabalhadora pobre e dando a mão ao Menino Jesus, vestido de criança pobre.
Frei Henri vive entre nós! Sua luta continua! Frei Henri, ore por nós! 




 

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de dezembro de 2017




 

sábado, 2 de dezembro de 2017

Fazendo memória e projetando o futuro



Nos dias 4 e 5 de novembro do corrente ano - às vésperas do cinquentenário da Conferência de Medellín - 51 irmãos e irmãs da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil estivemos reunidos pelo 28º ano, no Instituto São Francisco, em Goiânia. Viemos de 6 Estados brasileiros e do Distrito Federal e do Chile. Ao final de mais um triênio no caminho da Justiça e Paz, “fizemos memória dos passos dados, fomos descobrindo que o Senhor sempre acendeu luzes quando precisávamos delas, e projetamos o futuro”.
Abrindo o Encontro, “foram partilhadas carinhosas e proféticas mensagens de algumas de nossas irmãs e irmãos que não puderam estar entre nós”. No momento em que vivemos, “fomos interpelados a refletir sobre a nossa responsabilidade enquanto pessoas e Comunidades do Evangelho na tradição dominicana”.
Durante o Encontro, sentimo-nos chamados “a aceitar o convite de Deus para continuar a ter esperança mesmo em tempos de crises”. Para enfrentar os desafios que a realidade nos apresenta, baseados e baseadas na experiência do nosso trabalho, “sentimo-nos animados e animadas a:
  • Resistir ao avanço da ‘mercantilização’ da vida;
  • Desenvolver uma espiritualidade ecológica libertadora à luz da nossa luta por Justiça e Paz;
  • Recriar espaços da Política, com ética, poética e ternura;
  • Criar novos movimentos de base, ecológicos, anticapitalistas, antirracistas e feministas”.
Como irmãos e irmãs - “para continuar a nossa caminhada rumo a Terra Sem
Males, construindo o Reino de Deus aqui e agora” - assumimos, juntos e juntas, as seguintes Bandeiras de Luta:
  1. Ação Política: “Participar e intervir nos espaços de discussão e encaminhamentos das Políticas Públicas em vista de seu fortalecimento; realizar ações críticas e propositivas nos próximos processos eleitorais; retomar as Escolas de Fé e Política, com enfoque para o fortalecimento da democracia e dos direitos, com destaque para as Reformas Política, Administrativa e Judiciária; atuar em parceria com Movimentos Populares, Pastorais Sociais, Comunidades Eclesiais de Base - CEBs e outras organizações das Igrejas e da sociedade civil; incentivar e intensificar o trabalho de base”.
  2. Direitos Humanos: “Trabalhar pelo respeito em relação às diversidades; atuar na luta contra o trabalho escravo, a violência no campo e na cidade, pela reforma agrária e urbana; incentivar e promover a Cultura da Paz e dos Direitos Humanos”.
  3. Ecologia: “Pensar o bem viver e o bem conviver na perspectiva do enfrentamento do desafio do desenvolvimento versus natureza; enfocar a questão da água como direito e como alimento, articulando com a crise ambiental; fomentar e apoiar rede de consumidores de produtos agroecológicos; criar espaço nas paróquias e casas (eventos, merenda nas escolas e outros) para feiras de produtos da agricultura familiar”.
  4. Juventudes: “Promover encontros com jovens de paróquias e colégios na perspectiva de Justiça e Paz, com participação dos jovens da Comissão; orientar os projetos de ação social apoiados pela Comissão para apoio às iniciativas da juventude; promover o protagonismo e participação das juventudes.
  5. Formação e Educação: “Promover encontros anuais com leigos/as representantes de paróquias e colégios sobre Justiça, Paz e Direitos Humanos; produzir conhecimentos, articulando saberes acadêmicos e populares; apoiar e promover formação política de lideranças; criar ou fortalecer Grupos de Acompanhamento ao Legislativo - GALs, em nível de municípios e estados; desenvolver metodologias novas, participativas e democráticas”.
  6. Espiritualidade libertadora: “promover leituras, formações e celebrações inspiradas pela Justiça e Paz, no âmbito do laicato e da formação inicial da Vida Consagrada Religiosa; promover estágios de vivências em situações de fronteiras, nas etapas de formação inicial e permanente; incentivar o trabalho ecumênico, o diálogo entre/com crentes e não crentes; retomar o testemunho dos mártires e cultivo da memória de nossas lutas coletivas”.
  7. Articulação da Comissão: “investir na articulação regional dos trabalhos; continuar com a responsabilidade da edição brasileira do Livro-Agenda Latino Americana Mundial; realizar ações de solidariedade entre os membros da Família Dominicana e com demais agentes e entidades parceiras; continuar promovendo a Semana de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino; investir na comunicação e divulgação das causas de Justiça e Paz”.
Por fim, “reafirmamos que a nossa pertença à Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil é fruto do compromisso com o nosso batismo” e queremos ser - com a Igreja dos Pobres - “uma Comissão em saída, para encontrar Deus na natureza, no outro, no social e na luta” (Carta final do 28º Encontro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil. Goiânia, 05 de novembro de 2017).
Em tempo:
  • Frei Henri des Roziers, Frade dominicano - que trabalhou quase 40 anos no combate ao trabalho escravo, na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos no Brasil - morreu (completou sua Páscoa) no dia 25 deste mês em Paris, no Convento onde passou os últimos 4 anos de sua vida, “com saúde frágil, uma atenção plena e uma alegria invejável” (Veja a íntegra da Nota da Coordenação da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, da qual Frei Henri era membro: “Morre Frei Henri, um Las Casas de nossos dias”. Goiânia, 26 de novembro/17).
  • Semana dos Direitos Humanos em Goiás: de 30 de novembro a 14 de dezembro/17 (Realização: Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduino). Programação em: http://cressgoias.org.br/noticias/356-semana-dos-direitos-humanos-em-goias-2017. 10 de dezembro é o Dia Internacional dos Direitos Humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 10 de dezembro de 1948. Artigo 1º: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e em direitos humanos. Dotadas de razão e de consciência, devem agir umas para com as outras em espírito de fraternidade”. Dom Tomás Balduino: "Direitos Humanos não se pede de joelhos, exige-se de pé”. 






    Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
    Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
    Professor aposentado de Filosofia da UFG
    Goiânia, 29 de novembro de 2017


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Nossa Senhora da Terra motiva Romaria

No último dia 19 (domingo), no Jardim Curitiba III (Goiânia - GO), aconteceu a 1ª Romaria das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) à Nossa Senhora da Terra, padroeira de todos e todas que - com responsabilidade - lutamos para cuidar de nossa Mãe Terra: Terra Casa Comum, Terra de Moradia (Teto) e Terra de Trabalho (os 3 T: Terra, Teto, Trabalho).
Queremos que a Terra seja de verdade a Casa Comum e que - nessa Casa Comum - haja Moradia de qualidade e Trabalho digno para todos e para todas. Os trabalhadores e trabalhadoras - sejam aqueles e aquelas que trabalham diretamente na produção agroecológica, sejam aqueles e aquelas que trabalham em outros setores de produção, ou aqueles e aquelas que trabalham nas áreas de serviços, como educação, saúde e outras - devem, com seus dons e suas capacidades, buscar o bem de toda a sociedade, cuidando - como jardineiros e jardineiras - da Casa Comum, para que se transforme num grande e bonito Jardim.
Que Nossa Senhora da Terra, mulher pobre e trabalhadora, interceda por nós para que possamos cumprir a missão que Deus nos deu, que é a de cuidar de nossa Casa Comum, a Mãe Terra e de todas as formas de vida que nela se encontram.
A Romaria teve como tema: “Nossa Senhora da Terra caminha com seu Povo” e como lema: “o Projeto de Jesus é uma Igreja Povo de Deus comprometida com os Pobres”. Já, os destaques foram: “a história da Imagem de Nossa Senhora da Terra”, cuja origem é ligada à luta pela terra no nordeste do Brasil; “a memória dos 60 anos da Arquidiocese de Goiânia” (Jubileu de Diamante), sobretudo seu papel fundamental na caminhada das CEBs não só na Capital, mas também em todo o Estado de Goiás e o Distrito Federal; e “o 1º Dia Mundial dos Pobres”, que nos ajudou a refletir sobre o verdadeiro sentido das Obras de Misericórdia e o compromisso com a busca da Justiça Social.
A Romaria começou às 7:30 horas com a acolhida ao Povo e a Celebração do Perdão nas Comunidades: Jesus de Nazaré (Jardim Curitiba I e II), Nossa Senhora da Vitória (Bairro Floresta) Maria Mãe Santíssima (Bairro Boa Vista), Nossa Senhora da Paz (Bairro São Domingos) e Nossa Senhora da Terra (Jardim Curitiba III); continuou com cantos e paradas meditativas durante a caminhada; e chegou às 9:30 horas (aproximadamente) no pátio da Igreja Nossa Senhora da Terra (que é a referência da Paróquia), levantando os estandartes das Comunidades,
Participaram também da Romaria diversos irmãos e irmãs - entre as quais algumas religiosas - de Comunidades Eclesiais de Base de outros lugares.
Entramos festivamente na Igreja Nossa Senhora da Terra, cantando o Glória. Na Igreja, acolhemos os romeiros e romeiras das 5 Comunidades, que fazem a Paróquia, e aqueles e aquelas que vinham de outras Comunidades. Seguiu-se a Celebração compartilhada da Palavra e a Celebração da Ceia (a Missa), com grande participação do povo, terminando às 12:30 horas com um lanche comunitário.
A manhã inteira foi celebrativa. Foi uma experiência de Fé e Vida tão bonita e profunda que ninguém viu o tempo passar. No final, tivemos o momento do Envio, com a benção de Nossa Senhora da Terra, Mãe dos Excluídos e Excluídas. Todos e todas fomos enviados em Missão, invocando o Espírito Santo com um canto e recordando as palavras de Jesus: “O Espírito Santo descerá sobre vocês e Dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os extremos da Terra” (At 1, 8). E as palavras: “Como o Pai me enviou, eu envio vocês. (...) Recebam o Espírito Santo” (Jo 20, 21-22).
Terminada a Romaria, como Igreja em saída, voltamos para as nossas casas fortalecidos, com muita esperança e com muita vontade de lutar. Manifestamos também o desejo de, no próximo ano, realizar a 2ª Romaria das CEBs à Nossa Senhora da Terra.
Comprometemo-nos com o jeito de ser Igreja dos Documentos de Medellín, que encarnam os Documentos do Concílio Vaticano II na América Latina e no Caribe e - como afirma Clodovis Boff - são os Documentos fundantes da Igreja Latino-americana e Caribenha, enquanto Latino-americana e Caribenha (e não enquanto Igreja europeia implantada na América Latina e no Caribe).
A CEB é “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial” (Medellín, XV, 10) e a Paróquia, “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (Ib. 13).
Infelizmente, hoje temos Igrejas que - na prática - jogaram no lixo os Documentos da Conferência de Medellín (que em 2018 celebra seu Jubileu de Ouro). Quem não aceita os Documentos de Medellín, não pode exigir que sejam aceitos outros Documentos posteriores.
Por fim, queremos que a Paróquia Nossa Senhora da Terra se torne, cada vez mais, um espaço aberto para que as CEBs - que atualmente são obrigadas, muitas vezes, a viverem nas catacumbas ou simplesmente “descartadas” - possam se encontrar e se fortalecer na escuta dos sinais dos tempos, na Celebração compartilhada da Palavra e na Celebração da Ceia.
Por considera-lo de fundamental importância para as Pastorais Sociais e Ambientais e para a nossa militância nos Movimentos Populares, retomo um texto do Papa Francisco (que as Igrejas - que fazem oposição seletiva e silenciosa ao Papa - nunca citam).
Soube - afirma Francisco - que são muitos na Igreja aqueles e aquelas que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares.
Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (Discurso do Papa Francisco aos participantes do 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Queremos que a Paróquia Nossa Senhora da Terra - atendendo ao convite do Papa Francisco - se torne também um espaço aberto para os Movimentos Populares, Sindicatos autênticos de Trabalhadores, Partidos Políticos (ou Correntes de Partidos Políticos) comprometidos com o Povo e outras Organizações Populares, para que sintam o nosso apoio e a nossa solidariedade e para que contem com a nossa participação de militantes em suas lutas por outro mundo possível, que à luz da Fé, é para nós o Reino de Deus acontecendo na história do ser humano e do mundo.

As CEBs não morreram, elas estão muito vivas. Elas são a Igreja de Jesus de Nazaré hoje. Estamos a caminho do 14º Intereclesial das CEBs (Londrina - PR, 23-27/01/18). “CEBs e os Desafios do Mundo Urbano”. “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3, 7).






Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 22 de novembro de 2017

sábado, 18 de novembro de 2017

1º Dia Mundial dos Pobres



No dia 20 de novembro de 2016, na conclusão do Ano Santo extraordinário da Misericórdia - com a Carta Apostólica “Misericórdia et mísera” - o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Pobres, que será celebrado sempre em novembro e, neste ano, no dia 19 (próximo domingo).
No dia 13 de junho passado, o Papa publicou a Mensagem “Não amemos com palavras, mas com obras” para o 1º Dia Mundial dos Pobres.
Na Mensagem ele afirma: “No final do Jubileu da Misericórdia, quis oferecer à Igreja o ‘Dia Mundial dos Pobres’, para que as Comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor, sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais necessitados”.
Diz ainda: “Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste Dia, em todos aqueles e aquelas que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão” (6).
A misericórdia - lembra-nos o Documento de Aparecida - sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais a um sistema econômico iníquo. Requer-se que as obras de misericórdia estejam acompanhadas pela busca de uma verdadeira justiça social, que vá elevando o nível de vida dos cidadãos, promovendo-os como sujeitos de seu próprio desenvolvimento” (385).
À luz da Mensagem de Francisco e a partir do texto citado, faço algumas reflexões sobre as obras de misericórdia e o compromisso com a justiça.
A misericórdia é o amor que acontece ou - em outras palavras - é o amor que se faz história do ser humano e do mundo. Para que as nossas obras de misericórdia sejam realmente humanas e evangélicas (isto é, radicalmente humanas) devemos sempre considerar as pessoas que se encontram em situação de necessidade (seja qual for) como filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs em Cristo (não só na teoria, mas sobretudo na prática); e ir ao encontro dessas pessoas com o desejo de partilhar a vida e os bens, tratando-as como sujeitos de sua própria história (não como objetos de “caridade”, que - na realidade - não tem nada de caridade). Precisamos ser bons samaritanos e boas samaritanas hoje.
Infelizmente, além de obras de misericórdia realmente humanas e evangélicas, temos também - mesmo nas Igrejas - obras de assistência social (não propriamente obras de misericórdia) que - mesmo oferecendo alguma ajuda material às pessoas necessitadas - não são humanas e evangélicas.
Existem pessoas - e muitas delas se dizem cristãs (católicas ou evangélicas) -que realizam obras de assistência social por “egoísmo religioso”, como tranquilizante de consciência (o único que não se encontra nas farmácias) e para ganhar o céu, ou meramente “por pena”. Os assistidos e assistidas são tratadas como “objetos de caridade” e até com certo nojo.
Só para citar um exemplo, lembro-me de uma senhora - esposa de um político muito conhecido - que, depois de oferecer ajuda material aos pobres, voltava para a sua casa e tomava banho com desinfetante. Ela não percebia - ou não queria perceber - que o seu lar era muito mais infeccionado que o dos pobres.
A respeito das obras de assistência social, temos também outro comportamento igualmente desumano e antievangélico: o de Igrejas (Dioceses, Paróquias e Comunidades) que falam de boca cheia e até com certo orgulho de suas numerosas obras sociais, mas não dizem uma palavra sequer de denúncia das estruturas sociais injustas (que são a causa da miséria da grande maioria do nosso povo) para não desagradar os poderosos. A grande maioria dos membros dessas Igrejas - hipócrita e farisaicamente - não participam (como, em nome de sua consciência cidadã e de sua Fé, deveriam fazer) das lutas dos Movimentos Sociais Populares para mudar essas estruturas injustas e construir outro mundo possível. Preferem - como já afirmei em outra ocasião - ser Igrejas de Pilatos (que lavam as mãos) ou Igrejas de Judas (que traem Jesus nos pobres).
Como desculpa para não participar, algumas dessas pessoas dizem que os Movimentos Sociais Populares - além de bandeiras que são justas - defendem também outras bandeiras com as quais não podem concordar.
Pergunto: Os cristãos e cristãs não devem ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa?
Será que Jesus de Nazaré pediu aos seus discípulos e discípulas para escolherem a comida que devem salgar, o mundo que devem iluminar e a massa que devem fermentar? Não é isso um absurdo?
No 1º Dia Mundial dos Pobres, ouçamos o convite do Papa Francisco a todos os cristãos e cristãs: “Soube que são muitos na Igreja aqueles e aquelas que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares.
Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (Discurso do Papa Francisco aos participantes do 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Celebremos com muita fé e esperança o 1º Dia Mundial dos Pobres!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 15 de novembro de 2017


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Uma afronta à dignidade da população negra


Luislinda Valois, ministra dos Direitos Humanos, no dia 3 de outubro apresentou ao Governo um pedido para acumular o seu salário com o de desembargadora aposentada, o que lhe garantiria um rendimento bruto de R$ 61,4 mil. Ela reclama que, por causa do teto constitucional, só pode ficar com R$ 33,7 mil. Diz também que essa situação, “sem sombra de dúvidas, se assemelha ao trabalho escravo, o que também é rejeitado, peremptoriamente, pela legislação brasileira desde os idos de 1888 com a Lei da Abolição da Escravatura”. Com o maior descaramento, afirma ainda: “todo mundo sabe que quem trabalha sem receber é escravo”.
A comparação que a ministra faz com o trabalho escravo, além de ser de um cinismo repugnante, é uma falta de respeito e uma ofensa a todos os trabalhadores e trabalhadoras, principalmente negros e negras.
O Código Penal define trabalho análogo ao de escravo o que submete a pessoa a condições degradantes, jornada exaustiva, trabalho forçado, cerceamento de locomoção e servidão por dívida. Ora, sendo ministra, Luislinda tem direito a carro com motorista, jatinhos da FAB, cartão corporativo, imóvel funcional e salário de R$ 30,9 mil. Como pode ter o despudor de afirmar que sua situação se assemelha ao trabalho escravo? É realmente sem-vergonhice!
Luislinda justifica, pois, seu pedido dizendo que o cargo de ministra lhe impõe muitos custos, como se “vestir com dignidade” e “usar maquiagem”. A dignidade, ministra, não está nas vestimentas ou no cargo, mas na pessoa humana. O nosso irmão ou irmã que mora na rua tem a mesma dignidade do presidente da República, sua e de qualquer um de nós.
Pergunto: uma mulher como essa pode ser ministra dos Direitos Humanos? Que Direitos Humanos ela irá defender e promover? A nomeação de Luislinda é uma prova que o Governo ilegítimo do golpista Michel Temer não está nem aí com os Direitos Humanos.
Diante da polêmica que seu pedido suscitou e da indignação que provocou, a ministra Luislinda Valois - em nota divulgada no dia 2 deste mês de novembro - desistiu do pleito. Infelizmente, porém, o fato fica e fala por si mesmo.
Manifesto total apoio e irrestrita solidariedade à “Nota de Repúdio às declarações da Ministra Luislinda Valois” (03/11/2017), assinada pela Convergência Negra - Articulação Nacional do Movimento Negro Brasileiro, e subscrita pelas: Associação Brasileira de Pesquisadores Negros - ABPN; Agentes de Pastoral Negros - APNs; Círculo Palmarino; Coletivo de Entidades Negras - CEN; Coordenação Nacional de Entidades Negras - CONEN; Quilombação; Rádio Exu - Comunicação Comunitária de Matriz Africana; Movimento Negro Unificado - MNU; Rede Amazônica de Tradições de Matriz Africana - REATA; UNEGRO - União de Negros e Negras pela Igualdade; Enegrecer - Coletivo Nacional de Juventude Negra;
Movimento Consciência Negra de Butia - RS; Secretaria de Combate ao Racismo da CUT; Soweto; Grupo de União e Consciência Negra - GRUCON.
A Nota começa dizendo: “As Entidades do movimento negro brasileiro repudiam as declarações da ministra Luislinda Valois, que assim como fez o ministro do STF Gilmar Mendes, ao fazer referência a tragédia da escravidão que submeteu milhares de negros e negras a uma condição perversa e desumana - um crime contra a humanidade, declarado pela ONU - apropriou-se desse fato histórico trágico para obter benefícios próprios relativos ao seu salário”
Afirma também: “Não obstante não nos furtamos em observar que esse ano o Juiz Sérgio Moro percebeu o salário superior ao teto constitucional durante vários meses e a justificativa para tal descalabro são as generosas cestas de auxílios e adicionais eventuais comumente utilizados no expediente do sistema de justiça para burlar o teto constitucional e assim beneficiar milhares de juízes Brasil afora. O que também representa uma violência para a sociedade brasileira como um todo”.
Voltando a ministra Luislinda, declara: “Entendemos que reivindicar privilégios e participar de um Governo que quer acabar com os direitos trabalhistas, com o combate ao trabalho escravo e as políticas de inclusão racial, além de silenciar frente ao racismo religioso e as demais violências sofridas pelos povos de terreiros e comunidades quilombolas em todo o país é um contra-senso”.
Declara pois: “Além de afrontar a dignidade da população negra, a posição da ministra é um atestado cabal da falta de compromisso com o combate ao racismo e com verdadeira cidadania de negros e negras. Não resta dúvida que estamos vivendo um momento em que a violência contra as mulheres, negros, grupos LGBT, quilombolas e índios está se naturalizando e a posição equivocada da ministra é um retrato desses ataques”.
Reconhece, pois, que a nomeação de Luislinda Valois “é reveladora do desapreço que o Governo Temer (ilegítimo) tem pela comunidade negra e o gravíssimo problema do racismo no Brasil”.
Enfim, “também é sintomático o fato de (o golpista) Temer olhar para o Brasil e não conseguir enxergar os milhares de homens e mulheres negras com altíssimo nível de comprometimento político com os anseios e demandas da população negra para ocupar qualquer cargo na Esplanada dos Ministérios, ou estaria ele ciente de que a maioria de nós jamais compactuaria com um Governo ilegítimo que se instituiu através de opressões, desmandos e violências?”.
A Nota conclui declarando: “A ministra não representa o povo negro, não representa as mulheres negras e nem aqueles que lutam pelo fim do racismo. Estamos por nossa própria conta! O povo negro não vai se calar frente ao racismo!” (http://www.cenbrasil.org.br/nota-de-repudio-as-declaracoes-da-ministra-luislinda-valois/ ).
Termino fazendo minhas as palavras do presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Claudio Lamachia: “Usar o passado nefasto da escravidão para obter um privilégio ilegal é mais um deboche contra a sociedade”.  “A lei é clara e deve valer para todos, independentemente da função ou profissão exercida. O teto constitucional hoje é uma ficção. Isso precisa mudar. A comparação com a escravidão foi feita indevidamente. A ministra tenta deslocar para essa situação um argumento que não se aplica ao caso” (http://www.portalradioreporter.com.br/2017/11/03/presidente-da-oab-critica-ministra-luislinda-valois/)
As surpresas desagradáveis não acabaram! Novas aparecerão! Em nome de nossa cidadania e de nossa Fé, continuemos a luta! Outro Brasil é possível e necessário!





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 08 de novembro de 2017



sábado, 4 de novembro de 2017

Bandidagem política


Quando pensamos que já vimos tudo o que podíamos ver e que não há mais nada a ver a respeito de bandidagem política, é justamente nesse momento que ficamos surpreendidos com novos fatos. A esperteza calculista e a perversidade premeditada de políticos e governantes (graças a Deus, não todos) são de um descaramento e de uma sem-vergonhice tão grande que não têm limites. São atitudes repugnantes e diabólicas! “Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz” (Lc 16, 8). Hoje, temos políticos e governantes que são verdadeiros demônios a serviço dos interesses dos poderosos e dos seus próprios. São os adoradores do deus dinheiro.
A bandidagem política é fruto de um sistema econômico iníquo, que - diz o Papa Francisco - ninguém aguenta mais e precisamos muda-lo. “Toda árvore boa produz frutos bons e toda árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar frutos maus e uma árvore má não pode dar frutos bons” (Mt 7, 17-18).
Como amostras dessa bandidagem política - entre muitos que poderíamos lembrar - cito somente três fatos, amplamente divulgados na mídia e nas redes sociais.
Primeiro fato: Empresas privadas devem R$ 450 bilhões à Previdência. É um crime que clama por justiça diante de Deus. Essa dívida foi possível - e continua sendo possível - por causa da omissão e conivência de um Governo (Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário) covardemente submisso e totalmente conivente com os interesses da classe dominante. Por exercerem o papel de conivência criminosa com as empresas privadas, esses políticos e governantes são muito bem remunerados com dinheiro “legalmente” roubado (as leis estão a serviço dos poderosos) da classe trabalhadora.
O golpista Michel Temer (mais uma vez, nego-me a chama-lo de presidente) e seus asseclas - com a maior cara de pau - vêm a público trazendo dados falsos e dizendo que a Previdência, do jeito que está, é inviável. Querem enganar o povo e justificar a Contrarreforma da Previdência, que tem por finalidade acabar com os poucos direitos que os trabalhadores e trabalhadoras conquistaram a duras penas e com muita luta. Essa Contrarreforma, que o Governo pretende aprovar, é a decretação da “pena de morte” para os trabalhadores e trabalhadoras!
Segundo fato: A Portaria do trabalho escravo nº 1.129, do Ministério do Trabalho. É uma Portaria retrógrada e perversa, que - como afirma o Ministério Público - exclui da definição de trabalho escravo quase 90% dos processos. Que vergonha para o Brasil!
Terceiro fato: A negociação política para barrar a investigação de duas denúncias criminais contra o golpista Michel Temer. Essa negociação teve um custo de R$ 32,1 bilhões, que também foi pago a políticos inescrupulosos com dinheiro “legalmente” roubado dos trabalhadores e trabalhadoras.
Reparem: tudo isso só para impedir a investigação de duas denúncias criminais contra o golpista Michel Temer. Não se trata ainda de condenação ou absolvição, mas somente de investigação. Na realidade, essa maracutaia de Michel Temer é uma confissão de culpa. Se não fosse culpado, ele - Michel Temer - seria o primeiro interessado em defender a investigação para - como se costuma dizer - limpar o seu nome.
Ao invés disso, vemos o despudor do golpista quando, em pronunciamento no Palácio do Planalto - depois da votação da 2ª denúncia criminal - afirma que a rejeição do pedido de investigação pela Câmara dos Deputados é uma “conquista do Estado”. Vemos ainda sua mesquinhez quando, depois de tomar conhecimento do resultado da mesma votação, se vinga demitindo pessoas ligadas a políticos que foram a favor da investigação e que ele chama de “traidores”. Que hipocrisia! Que perversidade!
Será que Michel Temer e os políticos, seus cumplices na prática da corrupção, acreditam na justiça de Deus? Ela não se compra com dinheiro “legalmente” roubado do povo! Inclusive, Michel Temer não é mais tão novo e - pelas notícias divulgadas na mídia - parece que Deus enviou-lhe, justamente nesses dias, uma advertência! É muito bom que pense nisso enquanto há tempo! Deixo-lhe um aviso: os frutos da bandidagem política não cabem no caixão. Nele só cabem os frutos da bondade, da justiça, do amor e de todas as boas ações. Michel Temer e seus asseclas aguardem a justiça de Deus. Como diz o ditado, ela tarda, mas não falha! Um dia, se não mudarem de vida, ouvirão as palavras: “Afastem-se de mim, todos vocês que praticam injustiça” (Lc 13, 27).
Para mudar esse sistema econômico iníquo (ou dar passos que levem à mudança) e para combater a bandidagem política, seu fruto podre mais visível, só há um caminho: a união e organização (respeitando e valorizando as diferenças) dos trabalhadores e trabalhadoras nas Organizações de Classe (Sindicatos e Centrais Sindicais), nas Organizações Sociais (Movimentos Populares e Centrais de Movimentos Populares) e nas Organizações Políticas (Partidos ou Correntes de Partidos Populares e Frentes Partidárias Populares). Unidos e organizados construiremos o Projeto Popular, que é o oposto do Projeto Neoliberal!
Por fim, um questionamento dentro de casa: Seguindo Jesus de Nazaré, os e as que somos cristãos e cristãs não deveríamos ser Profetas e Profetisas da Vida? Os e as que somos religiosos e religiosas não deveríamos ser radicalmente Profetas e Profetisas da Vida? Por que há tanta omissão de nossas Igrejas e - muitas vezes - nossa também, diante da bandidagem política: uma iniquidade estrutural e sistêmica, que - à luz da Fé - é o Anti-Reino de Deus? Onde estão, hoje, os Profetas e Profetisas da Vida, que - doando sua própria vida - anunciam o Reino de Deus, denunciam - sem medo e com coragem - tudo o que é contrário a esse Reino e lutam para fazê-Lo acontecer na história do ser humano e do mundo? Meditemos!







Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de novembro de 2017


sábado, 28 de outubro de 2017

Novo Pentecostes a partir da base


Como comuniquei no artigo anterior “A força principal das CEBs: a Fé em Jesus Cristo Libertador” (leia o artigo na Internet), de 20 a 22 deste mês de outubro, aconteceu na Paróquia Nossa Senhora da Terra (Jardim Curitiba III - Região Noroeste de Goiânia) o Encontro Mini-Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base - CEBs do Regional Centro-Oeste (Goiás e Distrito Federal).
Participaram cerca de 170 pessoas (delegados e delegadas das Arquidioceses de Brasília e Goiânia; e das Dioceses de Uruaçu, Formosa, Luziânia, Ipameri, São Luís de Montes Belos, Itumbiara, Anápolis e Goiás as Dioceses de Rubiataba-Mozarlândia e Jataí não enviaram representantes), que irão a Londrina - PR para o 14º Encontro Intereclesial das CEBs (23-27/01/2018). Participaram também do Encontro 7 suplentes, 8 padres (diocesanos e religiosos), 1 religioso, diversas religiosas e as pessoas das equipes de serviço e animação. Tivemos a presença do bispo da Diocese de Goiás, Dom Eugênio Rixen. Nos momentos abertos a todos e a todas tivemos ainda a alegria da presença de irmãos e irmãs das Comunidades que fazem a Paróquia Nossa Senhora da Terra.
O Encontro - preparado com tanto amor e extraordinária dedicação - foi muito bom em todos os seus momentos: Celebração de abertura (com a memória do Jubileu de Diamante da Arquidiocese de Goiânia), Hospedagem nas famílias, Oração comum, Celebração do domingo, Estudo participativo (com a assessoria de Alexandre Rangel), Celebração do Envio e Encerramento.
A experiência de Fé, que vivenciamos e partilhamos no Encontro com a alegria de irmãos e irmãs, faz-nos acreditar que os Encontros locais, diocesanos e regionais de CEBs (rumo ao 14º Intereclesial) são hoje um novo Pentecostes a partir da base na Igreja do Brasil inteiro.
Como nos outros Encontros de CEBs, estudamos e aprofundamos o tema do 14° Intereclesial “CEBs e os desafios do mundo urbano” e o lema “Eu ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3, 7).
Hoje, infelizmente, nossas Igrejas (sobretudo os padres e bispos) - em sua maioria - mostram-se indiferentes, desinteressadas e, às vezes, até cínicas em relação às CEBs. Sei de Igrejas que - em sua estrutura física - tinham um espaço para as CEBs e o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos). Há tempo foram excluídos, ou melhor, descartados e tiveram que procurar outro lugar. É lamentável, mas compreensível!
Os poderosos e seus aliados “eclesiásticos”, os que moram em palácios ou mansões civis ou episcopais, os sinédrios “católicos” atuais e os que se fecham em sua auto suficiência clerical (o clericalismo, que - como diz o Papa Francisco - é “uma peste na Igreja” e “o pior mal da Igreja na América Latina”) não têm as mínimas condições de entender e, menos ainda, de vivenciar o jeito de ser Igreja das CEBs: uma Igreja “pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres”, mas aberta a todos aqueles e aquelas que - mesmo sendo ricos e ricas - se convertem, mudam de vida, praticam a partilha e aceitam seguir Jesus de Nazaré (como aconteceu com Zaqueu, o homem rico do Evangelho, no encontro com Jesus).
Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelastes aos pequeninos” (Lc 10, 21).
Apesar de tanta indiferença, desinteresse e cinismo, as CEBs não morreram, como ironicamente muitos e muitas costumam dizer. Elas são muito vivas e cada vez mais fortes, sobretudo quando não são reconhecidas e quando - às vezes - são até perseguidas e obrigadas a viver nas catacumbas.
As CEBs são obra do Espírito Santo. “Descerá sobre vocês o Espírito Santo e Dele receberão força para serem minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os extremos da terra” (At 1, 8). As CEBs são “Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus” (1º Intereclesial. Vitória - ES: 06-08/01/1975).
As CEBs são Igreja de Jesus de Nazaré; são Comunidades que - apesar de suas limitações humanas - vivem no mundo de hoje a radicalidade do Evangelho; são “de base”, por serem encarnadas na vida do Povo.
Diz o Papa Francisco: “O Povo é sujeito. E a Igreja é o Povo de Deus a caminho na história, com alegrias e dores. Sentir com a Igreja é para mim, pois, estar neste Povo. E o conjunto dos fiéis é infalível no crer, e manifesta esta sua infalibilidade crendo (...)” (Pe. Antônio Spadaro, S.J., diretor da “Civiltà Cattolica”. Entrevista ao Papa Francisco, publicada simultaneamente em 26 Revistas sob a responsabilidade de Jesuítas, 19/08/2013). Que testemunho bonito de humildade! Sigamos o seu exemplo!
As CEBs - na diversidade dos carismas e ministérios - acentuam (como fazia o apóstolo Paulo) a condição comum a todos os cristãos e cristãs, renascidos e renascidas pela água e pelo Espírito: “santos e santas”, “eleitos e eleitas”, “discípulos e discípulas”, “irmãos e irmãs” (no Novo Testamento nunca aparece o termo “leigo ou leiga” e nem o termo “clero”).
"Deve-se - ensina o Concílio Vaticano II - reconhecer cada vez mais (reparem: cada vez mais) a igualdade fundamental entre todos e todas" (A Igreja no mundo de hoje - GS, 29). E ainda: “Reina entre todos e todas verdadeira igualdade quanto à dignidade e ação comum a todos e todas os e as fiéis na edificação do Corpo de Cristo" (A Igreja - LG, 32).

Somos Igreja de Jesus de Nazaré! Somos Igreja que nasce do Povo pela força do Espírito de Deus! Somos CEBs! Com o salmista cantamos: “Eles e elas (que dizem que as CEBs morreram) se curvam e caem; nós nos mantemos de pé” (Sl 20, 9). Unidos e unidas na caminhada!









Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 25 de outubro de 2017



A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos