terça-feira, 15 de agosto de 2017

Governo Federal e Congresso Nacional: duas redes de esgoto a céu aberto


Hoje, o Governo Federal ilegítimo do golpista corrupto Michel Temer e o Congresso Nacional - composto de Deputados e Senadores, em sua grande maioria, corruptos e sem representatividade popular - são na realidade duas redes de esgoto a céu aberto. Ninguém aguenta mais tanto fedor!
O descaramento e a falta de pudor dos políticos não têm nenhum limite! A arrogância e o cinismo de Michel Temer e de seus asseclas dá nojo! O oportunismo interesseiro da maioria dos deputados e senadores é revoltante! Felizmente, ainda existem no Congresso alguns riachos de água limpa que são motivo de esperança.
No dia 13 de julho, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara Federal derrubou, por 40 votos a 25 (com uma abstenção) o relatório do deputado Sérgio Zveiter (PMDB-RJ), que pedia a admissibilidade da denúncia feita pela Procuradoria Geral da República (PGR) contra Michel Temer, autorizando o prosseguimento da acusação pelo crime de corrupção passiva, perante o Supremo Tribunal Federal (STF).
Por meio de manobras políticas inescrupulosas e diabólicas, Michel Temer - que tinha sido gravado apoiando o suborno do ex-deputado federal Eduardo Cunha para encobrir seus negócios sujos e corruptos - comprou deputados, com emendas parlamentares, cargos de confiança para aliados e ameaças, para evitar a investigação.
No dia 2 de agosto - em sessão deprimente e vergonhosa - a Câmara Federal, por 263 votos (13 dos deputados goianos) a 227 (4 dos deputados goianos), barrou a denúncia da PGR contra Michel Temer, mesmo tendo conhecimento de sua impopularidade (95%) e sabendo que a investigação da denúncia é exigida pelos eleitores (81%). Trata-se de total desrespeito para com o povo e de verdadeira afronta - cínica, irônica e repugnante - à sua inteligência!
Segundo pesquisa do Ibope (24 a 26 de julho), para 79% dos entrevistados o deputado que vota contra a denúncia (o afastamento do golpista Michel Temer e o prosseguimento das investigações no STF) é cumplice de corrupção e, para 73% dos eleitores, o deputado que vota contra a denúncia não merece ser reeleito.
No dia 3 do mês corrente (um dia depois da votação na Câmara), em um Jornal, lia-se a manchete “Temer se safa”. Em outro, “deputados salvam Temer e enterram denúncia de corrupção”. Advirto o golpista corrupto Michel Temer que - mesmo tendo-se “safado” ou “salvado” na Câmara Federal com suas manobras políticas inescrupulosas e diabólicas - não se “safará” ou “salvará” diante de Deus. Michel Temer aguarde e, enquanto ainda há tempo, lembre-se de sua idade!
Enfim, pergunto:
  1. Não é um absurdo jurídico exigir a aprovação da Câmara Federal para dar prosseguimento à investigação de uma denúncia fundamentada contra um presidente (no caso em questão, contra o golpista corrupto Michel Temer)? Ao menos em teoria (embora não o seja na prática), não somos todos iguais perante a lei?
  2. Não é um crime contra os trabalhadores e trabalhadoras comprar o voto de deputados com dinheiro dos cofres públicos?
  3. Se praticar uma injustiça em nome do dinheiro é um crime grave, praticar uma injustiça em nome de Deus - falando o nome de Deus em vão - é um crime muito mais grave ainda e uma grande hipocrisia. Infelizmente, não é isso que muitos políticos - que se dizem “católicos” ou “evangélicos” - fazem?
  4. Impedir, com manipulações inescrupulosas e diabólicas, o prosseguimento da investigação da denúncia, não é - para Michel Temer - uma auto confissão de culpabilidade?
  5. Se Michel Temer achasse a denúncia injusta e sem fundamentação, não deveria ser ele mesmo o primeiro interessado em defender o prosseguimento das investigações para limpar o seu nome e reestabelecer a verdade?
Vejam a pouca vergonha dos deputados que pertencem aos partidos da base aliada do golpista corrupto Michel Temer e que no dia 2 de agosto votaram em massa a favor dele, derrubando a denúncia da PGR. Os deputados aumentaram a pressão por cargos ocupados por "infiéis", ameaçam travar a discussão da Reforma da Previdência e retirar o apoio ao Governo ilegítimo na votação de uma provável segunda denúncia apresentada pela PGR. Que descaramento! Que comportamento político nojento! Dá vômito!
Eleitor e eleitora não está na hora de tirar o Brasil desse mar de lama? Nas próximas eleições, antes de votar, conheçam a história de vida dos candidatos ou candidatas, estudem seu projeto político e o do seu partido. Não se deixem enganar com palavras bonitas e falsas promessas. Vamos banir para sempre da vida pública os políticos corruptos, que buscam cargos públicos para defenderem seus próprios interesses e para se enriquecerem com dinheiro dos cofres públicos, que é dinheiro dos trabalhadores e trabalhadoras. Chega de enganação! Abramos nossos olhos!

Outro Brasil é possível! Lutemos por ele! 





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 09 de agosto de 2017


terça-feira, 8 de agosto de 2017

“Quem não luta, está morto! Quem luta educa!”
Sobre a “Carta do Encontro Brasileiro de Movimentos Populares em Diálogo com o Papa Francisco”


Além dos três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares (sobre os quais escrevi diversos artigos), entre os dias 1º e 4 de junho de 2016 aconteceu em Mariana (MG) o “Encontro Brasileiro de Movimentos Populares em Dialogo com o Papa Francisco”, com quase 300 participantes.
O Encontro teve o apoio e a solidariedade do cardeal Peter K.A. Turkson, Presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz (que, em nome do Papa Francisco, enviou uma Carta muito fraterna e carinhosa) e da Arquidiocese de Mariana.
A Carta final do Encontro (do dia 4 de junho) é uma luz para os Movimentos Populares e as Pastorais Sociais do Brasil. Começa dizendo: “Nós, Movimentos Populares e Pastorais Sociais reunidos em Mariana, Minas Gerais, em resposta ao chamando do Papa Francisco para o diálogo com os que lutam por ‘terra, teto e trabalho’, aqui viemos nos solidarizar com as famílias atingidas pelo maior crime socioambiental provocado em 2015 pela mineração no Brasil e alimentar nossa esperança na construção de outro mundo possível”.
Continua relatando: “Povos indígenas, quilombolas, pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, agentes das pastorais sociais compartilhamos nossas experiências de lutas, dificuldades numa sociedade tão desigual. Debatemos a opressão das forças do capital, a fragmentação e criminalização dos Movimentos Sociais (Populares) e as violências contra os pobres, negros, mulheres, jovens e LGBTs. Aprofundamos nossa reflexão e partilha das formas de resistência e luta, para enfrentar esses desafios”.
Na Carta, os Movimentos Populares clamam e denunciam: “Clamamos junto com a Mãe-Terra, que o uso intensivo de agrotóxicos provoca a morte de nossos povos e rios. Denunciamos que a concentração da propriedade e o estímulo ao agronegócio geram conflitos e violências no campo e na cidade, por isso se tornam urgentes e necessárias a Reforma Urbana e a Reforma Agrária”.
Com muita firmeza e garra, os Movimentos Populares declaram: “Queremos o fim da especulação imobiliária. Apesar dos avanços na política de moradia popular, a carência por moradia cresce a cada ano. O avanço do capital nos territórios, com estímulo ao extrativismo mineral, deixa um rastro de destruição ambiental, do qual o crime na Bacia do Rio Doce, provocado pela Vale e BHP Billiton, por meio da Samarco, com a conivência do  Estado, é um dos exemplos mais terríveis. Neste momento de trevas no país, o Encontro Brasileiro surge como uma luz. Nos últimos anos, o modelo de desenvolvimento adotado foi favorecido pelo contexto internacional, possibilitou avanços e garantias de direitos sociais, mas muito lucro para o capital.  Com a crise do capitalismo mundial iniciada em 2008, este modelo se esgotou. As forças do capital querem garantir seus interesses, mas nosso povo vem resistindo. Tomaram o Governo Federal por meio de um golpe, com apoio do Congresso Nacional e do Judiciário brasileiro, impondo o modelo neoliberal derrotado por quatro vezes nas urnas”.
Os Movimentos Populares continuam denunciando: “Dizemos não às privatizações propostas pelo Governo interino e golpista, não ao desemprego e à terceirização que ameaçam diretos dos trabalhadores e trabalhadoras. No Brasil, a democracia sempre foi resultado da organização e da luta do povo. Uma vez mais é preciso fortalecer a aliança das classes populares (reparem: a aliança das classes populares!). Mais do que isto, estamos desafiados a construir um novo Projeto para o país. Projeto que além de garantir terra, teto e trabalho para todos e todas, com justiça social, esteja em sintonia com a Mãe-Terra”.
Quanta clareza e objetividade encontramos nas palavras dos Movimentos Populares!
 Em total sintonia com os Encontros Mundiais dos Movimentos Populares, os participantes do Encontro Brasileiro declaram: “Nós em diálogo com o Papa Francisco, reafirmamos o que está na Encíclica Laudato Si’: ‘Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. A solução requer uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza’”.
Ao final, com muito realismo, os Movimentos Populares afirmam: “Quem não luta, está morto! Quem luta, educa!. Com nossa fé revolucionária (reparem mais uma vez: nossa fé revolucionária!), fortalecemos nossa esperança na caminhada e a certeza na chegada. É preciso lutar para derrotar o golpe no Brasil, por isso nos comprometemos a ampliar as mobilizações, fortalecendo e diversificando os trabalhos de base, o diálogo entre os Movimentos e ocupando as ruas. A luta imediata deve ser fermento no processo de construção de um Projeto Popular de país”.
Concluem dizendo: “Encerramos o Encontro no subdistrito de Paracatu de Baixo, com nossos pés na terra devastada pela ganância do capital, e em diálogo com os atingidos reforçamos nossa solidariedade e compromisso com a luta pela justiça, reparação e empoderamento do povo da Bacia do Rio Doce”.
Enfim - afirmam os participantes do Encontro - queremos “manter viva a memória e o compromisso de cuidar bem da nossa Mãe-Terra como Casa Comum de todos”. E declaram solenemente: “ao som dos sinos de Mariana, ecoando a dor dos Atingidos e Atingidas, clamamos por Justiça!”.
A luta dos povos do campo, das águas e das florestas continua! Sejamos solidários!





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 02 de agosto de 2017

sábado, 1 de julho de 2017

Frente Ampla Nacional



Hoje, na grave crise política, econômica, social e institucional que o Brasil atravessa, as Frentes Políticas Populares (Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo e outras) - que integram Partidos Políticos Populares (ou Correntes Populares de Partidos Políticos), Sindicatos de Trabalhadores, Centrais Sindicais de Trabalhadores, Movimentos Populares e Centrais de Movimentos Populares sentem, cada vez mais, a necessidade de se unir numa Frente Ampla Nacional (uma Frente de Frentes) para que sua ação política seja mais orgânica, mais abrangente e mais eficaz.
Mantendo a identidade e valorizando as diferenças (e até as divergências) das diversas Frentes Políticas Populares na apresentação de Propostas e na escolha de Estratégias para os vários momentos históricos do processo de construção do Projeto Político Popular, a Frente Ampla Nacional deve - sobretudo neste tempo de crise - exercer sua militância em dois níveis.
  1. Em nível conjuntural: conclamando toda a sociedade brasileira a se mobilizar, tomar as ruas e as praças e gritar bem alto e forte: Fora Temer! Diretas já! Nenhum direito a menos! (e outras palavras de ordem).
  2. Em nível estrutural: dando todos os passos possíveis e necessários para derrotar (superar) o projeto capitalista neoliberal e construir o Projeto Político Popular para o Brasil (e para o mundo).
Atualmente, na prática política, podemos assumir três posicionamentos: o de quem quer manter o projeto político dominante (conservador), o de quem quer reformá-lo (reformista) e o de quem quer transformá-lo (transformador, libertador).
Por ser a história humana dinâmica e contraditória (dialética), esses posicionamentos não são três compartimentos estanques, sem nenhuma comunicação mútua. Entre seus defensores - mesmo que seja por razões diferentes - pode haver, por exemplo, "acordos pontuais” sobre alguma prática política concreta, mas nunca "aliança”, que supõe comunhão de ideais e de utopias.
O que caracteriza o projeto político dominante (projeto capitalista neoliberal)? Ele é um "sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA 385) ou um "sistema nefasto”, porque considera "o lucro como o motivo essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos bens de produção como um direito absoluto, sem limites nem obrigações correspondentes” (Paulo VI. Populorum Progressio - PP 26).
O sistema econômico capitalista neoliberal cria profundas desigualdades sociais, oprime, marginaliza e descarta os pobres. Como diz o Papa Francisco aos Movimentos Populares (Bolívia, julho de 2015), “este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata!”.
Para o projeto político neoliberal, o importante não é a vida do povo, mas o deus-mercado e os interesses dos seus servidores e adoradores. Do ponto de vista estrutural, ele é desumano, antiético e, portanto, anticristão.
Os defensores desse projeto político podem até aceitar algumas mudanças, mas só se for para modernizar o sistema e torná-lo mais eficiente. Nunca pensam em mudanças de estruturas. Com as migalhas que sobram da mesa dos ricos, promovem programas chamados de distribuição de renda, que - por sua ambiguidade - de um lado, servem para amenizar situações de extrema pobreza (o que é sempre positivo) e, de outro lado, para cooptar os trabalhadores e evitar que se transformem numa ameaça para a segurança e os interesses do próprio sistema. Na realidade, porém, esses programas não distribuem a renda, mas simplesmente restituem ao povo uma pequena e insignificante parcela daquilo que é sistemática e permanentemente roubado (roubo legalizado e institucionalizado) dos pobres na exploração da mão de obra e nos impostos sobre os produtos de primeira necessidade.
O que caracteriza o projeto político reformista (projeto capitalista neoliberal reformado)? As reformas - dizem os defensores desse projeto - têm por objetivo um "capitalismo com sensibilidade e responsabilidade social e ambiental” um "capitalismo de rosto humano”, um "capitalismo humanizado”, com a redução das desigualdades sociais e a busca do bem estar social e ambiental. É a chamada Terceira Via, doutrina político-econômica, idealizada por Anthony Giddens, impulsionada por Tony Blair e Lionel Jaspin, e que ganhou força com o chanceler Gerhard Schroeder e outros.
Uma pergunta: se o capitalismo neoliberal é estruturalmente desumano, pode ser humanizado? Pela lógica, a resposta é: não. O máximo que pode ser feito é amenizar, em determinadas situações conjunturais, seus efeitos iníquos.
O que caracteriza o projeto político transformador, libertador (Projeto Político Popular)? Como projeto alternativo, ele visa mudar as estruturas e superar o capitalismo neoliberal, abrindo caminhos para um socialismo realmente democrático e comunitário.
Um alerta: “Atualmente, multiplicam-se sem cessar as relações do ser humano com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que a própria socialização introduz novas ligações, sem no entanto favorecer em todos os casos uma conveniente maturação das pessoas e relações verdadeiramente pessoais (a personalização)” (Concílio Ecumênico Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 6). O desafio é buscar sempre mais a integração entre “socialização” e “personalização”.
O Projeto Político Popular “é a sociedade que queremos construir, é o objetivo a ser alcançado. Ele deverá estimular o trabalho de base, a formação militante e as ações conjuntas para a transformação de nossa sociedade. O caráter do nosso projeto não é apenas reivindicativo, mas busca construir unidade e força social para a transformação profunda das relações de produção”.
Para isso, precisamos construir o Poder Popular - como serviço - que consiste na "organização autônoma e independente do povo em suas lutas concretas, sejam elas locais ou regionais, de âmbito nacional ou internacional”, como "um processo permanente de busca por igualdade e justiça”, na promoção e defesa dos Direitos Ambientais, Políticos, Sociais, Civis, Econômicos e Culturais (II Assembleia Popular Nacional. Projeto Popular para o Brasil na construção do Brasil que queremos. Luziânia, 25-28/05/10, p. 6-9).
Em outras palavras, o Projeto Político Popular é o projeto do Bem Viver, do Bem Conviver. Jesus de Nazaré, "profeta da maior Utopia (‘que sejamos bons como Deus é bom, que nos amemos como Ele nos amou, que demos a vida pelas pessoas que amamos’) promulgou, com sua vida, sua morte e sua vitória sobre a morte, o Bem Viver do Reino de Deus. Ele é pessoalmente um paradigma, perene e universal, do Bem Viver, do Bem Conviver” (Pedro Casaldáliga. Latino-americana Mundial 2012, p. 11).
O argumento do pragmatismo político, tão usado pelos chamados Governos progressistas, deve nos levar a tomar consciência daquilo que - em determinadas condições objetivas concretas - é possível fazer para construir o Projeto Político Popular e não para promover e fortalecer o projeto capitalista neoliberal. Como se pode derrotar ou superar o projeto capitalista neoliberal fazendo acordos que o promovem e o fortalecem?
Não merece uma autocrítica a prática política social-desenvolvimentista (ou capitalista neoliberal “maquiada”) que levou os Governos presididos pelo PT “a dar atenção às demandas populares, desde que não contrariassem a política macroeconômica de inspiração neoliberal”? (CEBs e os desafios do mundo urbano. Texto Base do 14º Intereclesial das CEBs, 23-27 de janeiro de 2018, Londrina - Pr, p. 27-28).
E ainda: um Governo comprometido com a construção do Projeto Político Popular não deveria exercer o poder-serviço organicamente ligado (com seu apoio e sua solidariedade) às Frentes Políticas Populares e - se firmar - com a Frente Ampla Nacional? O que nós queremos implementar e fortalecer sempre mais é a governabilidade popular e não a governabilidade capitalista neoliberal!
Como resultado do esforço conjunto das Frentes Políticas Populares no processo de construção do Projeto Político Popular, tivemos uma grande mobilização em todos os cantos do país: nos dias 8 e 15 de março, na Greve Geral de 28 de abril, no Ocupa Brasília em 24 de maio e, por último, na Greve Geral de 30 de junho. Por sua vez, como resultado da grande mobilização e do amplo debate com a sociedade, conseguimos frear a tramitação da Reforma da Previdência e reprovar na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAS) a Reforma Trabalhista. Tudo isso é uma grande vitória que precisa ser comemorada.
No Brasil atual, a Frente Ampla Nacional - que já é uma realidade - poderá se tornar a grande força propulsora do Projeto Político Popular. Essa é a nossa esperança!
(Leia também na internet o artigo “Sobre o Plano Popular de Emergência”).
Se Deus quiser, voltarei a escrever na 1ª semana de agosto.





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de julho de 2017

 

sábado, 24 de junho de 2017

Crime cultural contra Frei Confaloni no centenário do seu nascimento


A obra de Frei Nazareno Confaloni, dominicano, no Setor Coimbra (Goiânia - GO) é um conjunto arquitetônico que inclui a Igreja São Judas Tadeu (construída entre 1959 - 1965) e a Praça com o mesmo nome. Agredindo a Igreja está se agredindo a Praça e agredindo a Praça está se agredindo a Igreja. O que há hoje é uma agressão à Igreja e à Praça ao mesmo tempo. Trata-se de um crime cultural contra Frei Confaloni, no ano do seu centenário de nascimento. Trata-se de um verdadeiro vandalismo, que revela a total falta de sensibilidade artística por parte dos responsáveis pela agressão.
Quer-se transformar a Praça inteira num estacionamento fechado. A todos e todas que têm um mínimo de bom senso, pergunto: dá para imaginar a Igreja de Frei Confaloni dentro de um estacionamento fechado? Quer-se também construir galpões (já iniciados) “colados” às paredes e às rampas da Igreja. Novamente pergunto: dá para imaginar a Igreja de Frei Confaloni com galpões “colados” às paredes e rampas da própria Igreja? Tudo isso que está acontecendo é um absurdo inconcebível.
Antes da agressão, subindo as rampas da Igreja, tinha-se a sensação de levitar, passando do jardim da Terra (Praça) para o jardim do Céu (Igreja). Era um momento agradável de contemplação. Com a agressão (em andamento), subindo as rampas da Igreja, tem-se a sensação de se defrontar com o telhado dos galpões. É um momento desagradável de poluição visual.
Diante dessa gravíssima agressão a um patrimônio cultural de Goiânia (que é também de Goiás, do Brasil e do mundo), faço dois pedidos.
O primeiro é dirigido aos artistas, arquitetos, paisagistas e urbanistas de Goiânia. Organizem um movimento de resistência e não deixem acontecer tamanha agressão - que envergonha a cidade de Goiânia - contra o patrimônio cultural de Frei Confaloni.
O segundo pedido é dirigido ao Secretário Municipal de Cultura de Goiânia, Kleber Adorno, para que tome com urgência as providências cabíveis.
Secretário, sabendo de seu interesse pela questão da cultura, sugiro que:
  1. Decrete - em homenagem ao centenário de nascimento de Frei Confaloni, artista plástico e pintor reconhecido nacional e internacionalmente - o tombamento imediato, em nível municipal, do conjunto arquitetônico, Igreja e Praça S. Judas Tadeu; solicitando às autoridades competentes que embarguem os trabalhos de agressão iniciados;
  2. Crie uma Comissão (composta de artistas, arquitetos, paisagistas e urbanistas) com a incumbência de fazer um estudo sobre o projeto original do conjunto arquitetônico de Frei Confaloni (Igreja e Praça);
  3. Recupere - a partir do estudo feito pela Comissão - o projeto original do conjunto arquitetônico de Frei Confaloni;
  4. Revitalize a Praça - sempre a partir do estudo feito pela Comissão - com área verde, calçadas, bancos (em forma de círculo ou de quadrado) e o maior número possível de vagas para estacionamento.
  5. Incorpore ao conjunto arquitetônico de Frei Confaloni somente os acréscimos posteriores que não agridem o projeto original, mas servem para lhe dar maior destaque e, ao mesmo tempo, para atender às necessidades de espaço físico da Paróquia.
Aproveito a oportunidade para pedir que seja tombada também, em nível municipal, a antiga Igrejinha São Judas Tadeu (Rua 242, ao lado da Praça, onde atualmente funciona a Secretaria da Paróquia), cuja construção é anterior à vinda a Goiânia de Frei Confaloni e que - reconduzida ao seu estilo original - valoriza a história, a cultura e a religiosidade do nosso povo.
Termino com a certeza que, diante do exposto, o Secretário Municipal da Cultura, Kleber Adorno, fará tudo o que estiver em suas possibilidades para preservar o patrimônio artístico e cultural de Frei Confaloni. O Direito à Cultura faz parte dos Direitos Humanos e deve ser promovido.

(Leia também na internet a minha “Carta aberta aos irmãos e irmãs da Paróquia S. Judas Tadeu e a quem possa interessar”).







Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 21 de junho de 2017


domingo, 18 de junho de 2017

Jubileu de Diamante da Arquidiocese de Goiânia


No dia 16 de junho deste ano é o 60º aniversário - Jubileu de Diamante - da instalação da Arquidiocese de Goiânia (sua criação - por decreto do Papa Pio XII - foi no dia 26 de março de 1956) e da posse de seu 1º arcebispo Dom Fernando Gomes dos Santos (1957).
Cinco anos depois começou o Concílio Ecumênico Vaticano II, que - no dizer do Papa S. João XXIII - abriu as janelas da Igreja para o mundo. Podemos dizer que a Arquidiocese de Goiânia nasceu e deu seus primeiros passos no clima do Concílio. Cresceu e se desenvolveu como uma Igreja renovada (pós-conciliar) com as janelas - e também as portas - abertas para o mundo: 60 anos de caminhada.
Em comemoração ao Jubileu de Diamante, a Arquidiocese realizou duas Celebrações: a Missa no Santuário Basílica de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Matriz de Campinas) no dia 31 de maio (Festa da Visitação de Nossa Senhora) e a Missa na Praça Cívica (Centro) no dia 15 de junho (Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo).
Durante a Jornada da Cidadania (24-27 de maio) - promovida pela PUC em conjunto com a Arquidiocese - realizou também uma “Linha da História” com a exposição de fotos e textos, produzida pelo Vicariato da Comunicação - com o apoio da PUC e da agência Iltda Comunicação - no Centro de Convenções da Universidade.
Faço agora duas reflexões. Primeira: o Ano Jubilar da Arquidiocese de Goiânia não pode ser reduzido a algumas Celebrações “formais” e a uma “exposição histórica” feita por comunicadores. É a Igreja Povo de Deus (sobretudo os pobres das nossas Comunidades) que - a partir de sua experiência de fé - deve viver este Ano Jubilar como um ano de “memória compartilhada” dos 60 anos de sua caminhada.
Do ponto de vista bíblico, fazer a memória da caminhada significa torna-la presente hoje, para que seja, para todos e todas nós, motivo de alegria, de ação de graças, de pedido de perdão, de renovação da esperança e de fortalecimento do compromisso com o Projeto de vida de Jesus de Nazaré - que é o Reino de Deus na história humana e cósmica - em Goiânia, em Goiás, no Brasil e no mundo de hoje.
Na “memória compartilhada”, ”o “ver-julgar-agir” (“analisar-interpretar-libertar”) nos leva ao “celebrar” e o “celebrar” nos leva novamente - num processo vivencial comunitário contínuo e de maneira sempre renovada - ao “ver-julgar-agir”. É somente vivendo esse processo - cada vez mais intensa e radicalmente - que podemos ser seguidores e seguidoras, discípulos missionários e discípulas missionárias de Jesus de Nazaré. Em caso contrário, corremos o risco de sermos fariseus hipócritas.
No 2º semestre do Ano Jubilar, a Paróquia Nossa Senhora da Terra (Jardim Curitiba III), para dar sua contribuição, promoverá - com o apoio, a colaboração e a participação de outras Organizações (CEBs, CEBI, CRB, CPT, Curso de Verão, Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, Cajueiro, Centro Cultural Cara-Vídeo, Economia Solidária) e Movimentos Populares - os seguintes acontecimentos comemorativos:
  1. Um Encontro de “memória compartilhada” dos 60 anos de caminhada da Arquidiocese de Goiânia (em setembro: local, data e horário a definir);
  2. Um “espaço” também de “memória compartilhada” - destacando sobretudo o papel fundamental da Arquidiocese de Goiânia na caminhada das CEBs no Regional Centro-Oeste da CNBB (Goiás e Distrito Federal) - no Mini-Intereclesial das CEBs, que acontecerá na Paróquia Nossa Senhora da Terra (20 - 22 de outubro)
  3. A 1ª Romaria das CEBs a Nossa Senhora da Terra - Mãe dos excluídos e excluídas - padroeira de todos e todas que lutamos em defesa de nossa Mãe Terra (em sintonia com as Campanhas da Fraternidade de 2016 e 2017). A Romaria celebrará a “memória compartilhada” (feita pela Igreja Povo de Deus nos dois Encontros anteriores e em outros Encontros) dos 60 anos da Arquidiocese de Goiânia. Durante a caminhada, teremos a Celebração Penitencial e a Celebração da Palavra; na Igreja Nossa Senhora da Terra, a Celebração da Ceia (domingo 26 de novembro: Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. Horário e trajeto da Romaria a definir).
Pedimos ao Espírito Santo que estes acontecimentos sejam “tempos fortes” de graça de Deus, para que a nossa Igreja Povo de Deus da Paróquia Nossa Senhora da Terra e de toda a Arquidiocese de Goiânia seja realmente uma Igreja evangélica, “pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres”, comprometida (como já dissemos) com o Projeto de vida de Jesus de Nazaré - que é o Reino de Deus na historia humana e cósmica - em Goiânia, em Goiás, no Brasil e no mundo de hoje.
Segunda reflexão: os Documentos de Medellín (1968: 2018 será o ano do Jubileu de Ouro) - que encarnam os Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II na América Latina e no Caribe - nos ensinam que a Comunidade Eclesial de Base (CEB) é “o primeiro e fundamental núcleo eclesial” ou “a célula inicial da estrutura eclesial”, e que a Paróquia é “um conjunto pastoral unificador das Comunidades de Base” (Medellín, XV, 10 e 13). As palavras são muito claras. Não precisam de explicação. Só não entende quem não quer entender.
Infelizmente, muitas de nossas Igrejas, há tempo, jogaram os Documentos de Medellín (e, consequentemente, também do Concílio Vaticano II) no “lixo”. Ora, pela lógica (um pouco de lógica aristotélico-tomista faz sempre bem!), as Igrejas que não aceitam os ensinamentos dos Documentos de Medellín - que são os Documentos fundantes da Igreja latino-americana e caribenha enquanto latino-americana e caribenha - não têm moral para exigir que aceitemos os ensinamentos de seus Documentos). Como uma Lei Municipal ou Estadual que vai contra a Constituição Federal (a Lei Magna) não tem valor, assim também um Documento de uma Igreja Particular que vai contra os Documentos de Medellín (a Constituição - a Lei Magna da Igreja Latino-americana e Caribenha), não tem valor.
Em comunhão com os ensinamentos de Medellín, a Arquidiocese de Goiânia - em seu Plano de Pastoral - considerou por muitos anos as CEBs como a prioridade das prioridades pastorais. Infelizmente, há alguns anos, na Igreja de Goiânia e em muitas outras, as CEBs (como o Centro de Estudos Bíblicos - CEBI e outras Organizações eclesiais que tanto bem fizeram à Igreja no Brasil) foram praticamente “descartadas” ou simplesmente “toleradas” (muitas vezes, com um sorrisinho cínico e irônico contido, estampado no rosto de bispos, padres e outros agentes de pastoral) como um “grupinho” que não tem nenhum peso na estrutura eclesial. “Não há lugar para as CEBs nos ‘espaços físicos’ da Igreja oficial!”. Lembrem os responsáveis pelo “descarte” ou pela “mera tolerância” das CEBs que terão de prestar conta a Deus!
Uma advertência: aqueles que pensam que as CEBs morreram se enganam redondamente. Elas estão muito vivas e nunca morrerão, porque nasceram no Dia de Pentecostes. As CEBs são “um jeito antigo e sempre novo de ser Igreja”; são a Igreja de Jesus de Nazaré, que foi “morador de rua” antes de nascer, nasceu como “sem-teto” e nunca morou em palácios ou mansões episcopais. Hoje, a Igreja das CEBs é a Igreja das catacumbas. Tenho certeza na fé que ela voltará mais forte, mais experimentada e mais madura. Aguardem!
Meditemos e oremos pela Igreja que está em Goiânia e por toda a Igreja.






Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 14 de junho de 2017

sábado, 10 de junho de 2017

Sobre o Plano Popular de Emergência


No dia 19 de maio último, a Frente Brasil Popular lançou o Plano Popular de Emergência: que apresenta 76 medidas, distribuídas em 10 propostas (que são os eixos do Plano): Democratização do Estado - Política de desenvolvimento, emprego e renda - Reforma agrária e agricultura familiar - Reforma tributária - Direitos sociais e trabalhistas - Direito à saúde, à educação, à cultura e à moradia - Segurança pública - Direitos humanos e cidadania - Defesa do meio-ambiente - Política externa soberana.
Na apresentação do Plano, a Frente diz que a saída democrática da situação em que o Brasil se encontra “tem como pressuposto a antecipação das eleições presidenciais para 2017. Esse é primeiro passo para se travar uma ampla e persistente disputa politica capaz de criar uma correlação de forças favorável à oportuna convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, destinada a refundar o Estado de direito e estabelecer reformas estruturais democráticas”.
O Plano, que “representa uma alternativa para enfrentar a crise gestada pela agenda antipatriótica, antipopular, antinacional e autoritária dos golpistas”, merece todo nosso apoio.
A Frente Brasil Popular propõe “debater esse Plano junto às bases das entidades, movimentos e partidos do campo democrático, popular e progressista”. Trabalha também para “aprofundar o diálogo e a unidade entre as correntes democráticas, populares e progressistas, fortalecendo e ampliando alianças imprescindíveis para derrotar o bloco conservador que tomou de assalto o comando da República”. Visa ainda “a unificação das forças democráticas, populares e progressistas, na luta pela derrogação do atual Governo e construção de uma nova coalizão popular que enseje a retomada democrática e a ascensão das grandes massas como sujeito da História”.
Esse é o maior desafio das forças políticas populares!
(Leia o Plano na íntegra em:
http://frentebrasilpopular.org.br/system/uploads/action_file_version/b9769c87753c384b277f1f828ac7721d/file/ppe.pdf)
Para colaborar no enfrentamento desse desafio, apresento quatro sugestões:
  1. Que os Movimentos Populares, as Centrais de Movimentos Populares, os Sindicatos, as Centrais Sindicais, os Partidos Políticos Populares e as Frentes Populares não envidem esforços para construir a unidade (mesmo nas diferenças) em torno de um Projeto Político Popular comum possível, que combata o capitalismo neoliberal: rural (o agronegócio, a monocultura, o envenenamento da terra, a destruição dos biomas) e urbano (a especulação imobiliária, o urbanismo de mercado).
  2. Que - em suas propostas - o Projeto Político Popular destaque três grandes bandeiras de luta (os 3 T): a Reforma Agraria Popular (que garanta o direito à terra e a uma agricultura ecológica familiar - comunitária), a Reforma Urbana Popular (que garanta o direito ao teto - moradia digna) e a Reforma Trabalhista (que garanta o direito ao trabalho digno, defenda os direitos já conquistados dos trabalhadores, amplie esses direitos e incentive a prática da “economia solidária”, criando pequenas e médias empresas familiares e comunitárias, geridas pelos próprios trabalhadores/as).
  3. Que depois de elaborado (a partir das propostas do Plano Popular de Emergência e outras) um Projeto Político Popular comum possível, as forças políticas populares indiquem um candidato ou candidata (mesmo que seja só pré-candidato ou pré-candidata) que se comprometa com o Projeto e se disponha a governar com o apoio e a colaboração dessas forças políticas (buscando sempre a “governabilidade popular” e não a “governabilidade neoliberal”). Infelizmente, os Governos progressistas dos últimos anos, coordenados pelo PT, foram levados - por uma série de fatores que não cabe aqui analisar - a “dar atenção às demandas populares, desde que não contrariassem a política macroeconômica de inspiração neoliberal” (CEBs e os desafios do mundo urbano. Texto-Base do 14º Intereclesial das CEBs, Londrina - PR, 23-27/01/18, p. 27-28). Foi justamente o “desde que...” o grande erro (causa de muitos outros) desses Governos. Lembremos: se não formos capazes de construir a unidade em torno de um Projeto Político Popular comum possível com um único candidato/a a presidente, estaremos fazendo o jogo do sistema dominante e seus asseclas!
  4. Que nesse Projeto Político Popular comum possível sejam incorporadas as valiosas contribuições dos Documentos Finais dos 3 Encontros Mundiais dos Movimentos Populares e dos Discursos do Papa Francisco aos participantes desses Encontros. Só para citar o 3º EMMP - no final de uma série de 6 artigos sobre o tema - eu dizia: “Termino essa série de artigos convencido que os dois Documentos Finais do 3º EMMP “Propostas de ação transformadora” e “Estratégias comuns em todas as linhas de ação” (Síntese dos trabalhos de grupos) são um roteiro de um programa político de governo”. E concluía: “Oxalá, os Movimentos Populares, as Centrais de Movimentos Populares, os Sindicatos de Trabalhadores/as, as Centrais Sindicais de Trabalhadores/as, os Partidos Políticos Populares e as Frentes Populares do Brasil (unidos/as nas diferenças) elaborassem - a partir de suas bases e à luz dessas Propostas e Estratégias - um programa político de governo possível! Oxalá (depois de elaborado o programa), escolhessem, entre eles e elas, um candidato ou candidata a Presidente, que assumisse esse programa e - organicamente ligado a todas as Organizações Populares e seus aliados/as - se comprometesse a cumpri-lo!”. Dizia ainda: “Permito-me sonhar! Quem sabe, o sonho se torne realidade! A esperança nunca morre!”.

A luta continua! A vitória já é nossa!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 07 de junho de 2017


sábado, 3 de junho de 2017

Dom Fernando, pastor-profeta: um “Pai da Pátria Grande”

Fiquei feliz - embora surpreso - com a boa notícia do dia 23 de maio último, a respeito de Dom Fernando Gomes dos Santos: “A PUC Goiás e a Universidade Internacional da Flórida participam de projeto do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) que vai recontar a trajetória de religiosos que tiveram impacto na sociedade. Em Goiás, o escolhido é Dom Fernando Gomes, arcebispo da Arquidiocese de Goiânia de 1957 a 1985. Os pesquisadores Janira Sodré Miranda e Antônio César Caldas Pinheiro conduzirão o trabalho, que comporá o volume especial ‘Trajetórias pastorais - Histórias dos Pais da Pátria Grande’. O lançamento está previsto para setembro de 2018, data dos 50 anos da 2ª Conferência dos Bispos Latino-americanos na cidade de Medellín, Colômbia” (O Popular, 25/05/17, p. 6).
Dom Fernando é realmente um “Pai da Pátria Grande”! Sua história precisa ser redescoberta e recontada, com toda fidelidade e amor à verdade. “A verdade vos libertará!” (Jo 8, 32). É uma história paradigmática para a Igreja pós-conciliar em Goiás, no Brasil e na América Latina.
No dia 1º de junho do corrente ano completam 32 anos da Páscoa definitiva de Dom Fernando. Aproveito a data para retomar - por ser sempre atual - o que escrevi há 7 anos.
Por ter tido a felicidade - dizia à época - de ser amigo e colaborador direto de Dom Fernando Gomes dos Santos como Coordenador da Pastoral e Vigário Geral da Arquidiocese de Goiânia (também Vice-Presidente da Sociedade Goiana de Cultura, Mantenedora da UCG), não posso deixar passar o ano do seu centenário de nascimento sem dar publicamente o meu testemunho.
Por ocasião de sua morte, ou, melhor dizendo, do dia em que "completou sua Páscoa", falei que Dom Fernando foi "um Pastor-Profeta dos nossos tempos", "fiel à Palavra de Deus e fiel aos apelos da realidade" (cf. Revista da Arquidiocese. Goiânia, ano 28, n. 6/7, junho/julho 1985, p. 393 e 426-427).
Dom Fernando tinha uma personalidade forte, mas um coração muito grande. Era uma figura de extraordinária profundidade humana; sabia compreender, com amor de pai e ternura de mãe, as fraquezas do ser humano; ele foi sempre um irmão solidário de todos/as, especialmente dos mais pobres.
No depoimento, que ele deu à Revista Eclesiástica Brasileira (REB), poucos meses antes de sua Páscoa definitiva, depois de falar da ação pastoral do Secretariado da Pastoral Arquidiocesana (SPAR), diz que ela "se complementa naturalmente no gabinete do arcebispo, sempre aberto a ouvir a todos, a qualquer hora. Nesses encontros - em sua maior parte com pessoas pobres, marginalizadas e oprimidas - tem acontecido que, além das palavras de estímulo, recebam, alguma vez, o sacramento da Penitência, sem que ninguém saiba ou perceba. Transforma-se, assim, em lugar privilegiado de reconciliação e de perdão" (REB, março de 1985).
Quando, por causa de sua tomada de posição clara, destemida e firme em defesa do povo, o acusavam de ser contra o Governo, Dom Fernando dizia: “eu sou a favor do povo; quando o Governo estiver a favor do povo, eu estarei com ele, quando estiver contra o povo, eu estarei contra ele".
Dom Fernando nunca foi um homem bajulador e oportunista, como é bastante comum acontecer, mesmo em ambientes de igreja. Por ser sempre um homem reto, coerente e franco, ele não conseguia entender e não tolerava, de forma alguma, a traição, que na realidade é um comportamento covarde e mesquinho. Percebendo que uma pessoa, em quem ele tinha confiado, o traia, sofria calado, mas perdia completamente a confiança. Quando, porém, confiava em alguém, sua confiança era total e irrestrita.
Como tive a graça de conviver com Dom Fernando e ser, pela afinidade que tínhamos, pessoa da sua confiança, quando alguém o procurava para tratar de um assunto que podia ser resolvido no Secretariado da Pastoral Arquidiocesana (SPAR), o ouvi diversas vezes dizer: "isso é com Frei Marcos". Dom Fernando - sobretudo depois do Concílio Vaticano II - era um homem que acreditava na "Igreja dos Pobres" e vivia a comunhão e participação, numa Igreja toda ela ministerial. Por isso, partilhava com os Padres, as Religiosas e os Agentes pastorais leigos/as a responsabilidade do pastoreio.
Embora tenha consciência que não é mérito meu, mas dom de Deus, honra-me muito o reconhecimento de Dom Fernando a respeito do SPAR, no depoimento já citado: "O SPAR tem sido o grande centro de convergência e de irradiação de tudo o que se passa na Arquidiocese no campo pastoral. Dotado de sede própria, que integra o conjunto Catedral-Cúria Metropolitana-SPAR, no centro da cidade, constitui o ponto mais dinâmico da Arquidiocese. Hoje o SPAR conta com o coordenador da Pastoral, Frei Marcos Sassatelli, que é também vigário geral, e com uma extraordinária equipe de sacerdotes, religiosas e leigos competentes, de rara dedicação e eficiência. No SPAR, funcionam oito Comissões que dinamizam as atividades fundamentais, referentes às prioridades do Plano Pastoral, elaborado em Assembleia Arquidiocesana e constantemente estudado nas reuniões e encontros. O SPAR produz, também, grande número de boletins e impressos, que são divulgados nas paróquias da Arquidiocese, principalmente nas comunidades da periferia, e que são encomendados por outras Igrejas particulares do Brasil afora. Grande é também o número de cursos ministrados nas comunidades da capital e do interior" (REB, ib.).
Como todo ser humano, Dom Fernando tinha também suas limitações e seus defeitos, mas era um homem de uma só palavra, um homem íntegro, um homem "sem violência e sem medo". Com inabalável fidelidade, amava muito a Mãe Igreja, mesmo, às vezes, sofrendo profunda e silenciosamente por causa das incompreensões de irmãos da própria Igreja.
No seu Testamento, Dom Fernando confessa: "Não obstante as minhas deficiências, fraquezas e falhas, sempre me consagrei com tudo o que sou e com tudo o de que dispus, à Santa Igreja e ao sagrado ministério" (O Testamento de Dom Fernando. Revista da Arquidiocese. Goiânia, ano 28, n. 6/7, junho/julho 1985, p. 356).
Dom Fernando, como "pastor-profeta dos nossos tempos" e como "defensor e advogado do Povo" (capa da REB de março de 1985), era também implacável na denúncia e na luta contra as injustiças sociais. Era respeitado e temido pelos poderosos, sobretudo nos tempos difíceis da ditadura civil e militar. Só para citar um exemplo, foi a coragem de Dom Fernando que impediu a expulsão de Dom Pedro Casaldáliga do Brasil.
Dom Fernando, como homem "fiel à Palavra de Deus e fiel aos apelos da realidade", viveu intensamente os ensinamentos do Concílio Vaticano II.
"Como Cristo, por sua Encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja - AG, 10).
"Para desempenhar sua missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre os significados da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (Concílio Vaticano II, A Igreja no mundo de hoje - GS, 4).
À época (e retomo agora) terminava o meu testemunho dizendo: Que a memória do legado do primeiro arcebispo da Arquidiocese de Goiânia, Dom Fernando Gomes dos Santos, no centenário do seu nascimento e nos 25 anos de sua Páscoa definitiva (hoje, já são 32 anos), sirva-nos de estímulo para que sejamos, sempre mais, uma Igreja evangélica, uma Igreja pobre e uma Igreja comprometida com a Boa Notícia do Reino de Deus no mundo de hoje (Cf.Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 23/12/10, p. 17. Veja também:
http://freimarcos.blogspot.com.br/2010/12/dom-fernando-pastor-profeta.html). 




 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de junho de 2017

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos