quinta-feira, 24 de maio de 2018

PJMP: em tempo de Congresso


De 9 a 13 de julho próximo teremos a alegria - que é uma grande graça de Deus - de acolher na Paróquia Nossa Senhora da Terra (Arquidiocese de Goiânia) o 5º Congresso Nacional da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), com o tema “Águas e profecias: luzes no Meio Popular gerando vidas” e com o lema “Juventude e seu protagonismo, resistência e liberdade”.  
O 5º Congresso - com muita fé, ternura e resistência - faz a memória e celebra os 40 anos de caminhada da PJMP, que “nasceu em 1978 no Recife (PE), carregando na história do seu surgimento as sementes jogadas pela Juventude Operária Católica (JOC) destruída pela ditadura com o golpe civil-militar de 1964. Um acontecimento marcante do seu nascimento foi o Encontro realizado em 09 de julho de 1978, reunindo animadores dos grupos de jovens do Meio Popular do Recife, remanescentes da JOC”.
Em Puebla, “Dom Hélder Câmara apresentou a proposição, aprovada na Conferência, de uma Pastoral de Juventude por meio social” (http://www.pjmp.org/historia).
Queremos desenvolver “uma Pastoral de Juventude que leve em conta a realidade social dos jovens de nosso continente; atenda ao aprofundamento e crescimento da fé para a comunhão com Deus e os seres humanos; oriente a opção vocacional dos jovens; lhes ofereça elementos para se converterem em fatores de transformação e lhes proporcione canais eficazes para a participação ativa na Igreja e na transformação da sociedade” (Puebla, 1187).
    Hoje, infelizmente, muitas de nossas Igrejas esqueceram a dimensão profética do Evangelho e o ensinamento de Puebla; não querem enfrentar os reais desafios da juventude que são conflitivos (como, aliás, toda a sociedade é conflitiva); preferem uma Pastoral da Juventude genérica, alienada e que não incomoda ninguém. Jogam - por assim dizer - todos os jovens e todas as jovens num saco só, chamado “Setor Juventude”, acabando assim com as Pastorais da Juventude específicas.
    A PJMP é “a expressão viva do Evangelho de Cristo, o jovem de Nazaré encarnado no meio do povo, ao lado do povo, junto do povo. É espaço de acolhida, afeto e carinho. É a casa do diálogo, do respeito da diversidade de cor, raça, cultura e religião. Bebe da fonte da Teologia da Libertação, da luta dos mártires e dos Movimentos Sociais Populares”.  
Ela “tem como centro de sua missão o testemunho e as atitudes de Jesus Cristo, o libertador e transformador do meio em que vive, não o Cristo dos altares luxuosos, ou o Cristo das nuvens que se vinga, pune, exclui, se distancia do seu povo. O Cristo que a PJMP segue é um Cristo revolucionário, que não aceita as injustiças e não se cala diante das adversidades de seu tempo. A espiritualidade da PJMP é uma espiritualidade profética e missionária, de anúncio e denúncia” (http://www.pjmp.org/40-anos-de-pjmp-uma-reflexao-sobre-caminhada).
O Papa Francisco faz um caloroso pedido aos jovens: “Peço que vocês sejam revolucionários, que vão contra a corrente; peço que se rebelem, que se rebelem contra esta cultura do provisório que, no fundo, crê que vocês não são capazes de assumir responsabilidades, crê que vocês não são capazes de amar de verdade. Eu tenho confiança em vocês, jovens, e rezo por vocês. Tenham a coragem de ‘ir contra a corrente’. E tenham também a coragem de ser felizes!” (Jornada Mundial da Juventude. Rio de Janeiro, 28 de julho de 2013).
Sábado passado, dia 19 do mês corrente, das 16 às 19h, na Paróquia Nossa Senhora da Terra, realizamos uma “Roda de Conversa” sobre o tema e o lema do Congresso. Participaram jovens da PJMP e outras pessoas.
Logo em seguida, celebramos, num clima de muita fé e de muito compromisso com a vida, a Missa de Pentecostes, na qual - sob as luzes do Espírito Santo - lançamos oficialmente o Congresso.
Os e as jovens da PJMP e todos e todas que apoiamos e participamos ativamente de sua caminhada, no Brasil inteiro, estamos agora “em tempo de Congresso”.
Pedimos à Santíssima Trindade - a melhor Comunidade - que nos dê a graça de vivermos intensamente esse tempo, com muita dedicação e com muito amor, para que o Congresso seja realmente um novo Pentecostes e os jovens - em torno de mil, vindos de todos os cantos do Brasil - voltem para suas Comunidades como verdadeiros discípulos missionários e discípulas missionárias de Jesus de Nazaré, como profetas e profetisas da vida, anunciando com a palavra e, sobretudo, com o testemunho, sua Boa Notícia, que é a sociedade do Bem-viver e Bem-conviver, que é Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.
Construam conosco o 5° Congresso Nacional da PJMP e oremos juntos!
Oração do 5º Congresso Nacional da PJMP em:
 Endereço do Congresso: Paróquia Nossa Senhora da Terra. Av. do Povo, Q. 117, L. 17 e 18 - Jd. Curitiba III - 74480-800 - Goiânia - GO - Tel. (62) 3595-0442.
(Para aprofundar o tema e o lema do 5º Congresso e acompanhar as notícias a respeito do mesmo, acessem: www.pjmp.org)





<p><a href="http://www.pjmp.org/sites/default/files/13239068_1087290291317501_458796666994465341_n.jpg">Download Original</a></p>


http://www.pjmp.org/sites/default/files/styles/interna_post/public/noticias/5_congresso_da_pjmp.jpg?itok=Ua4CxrlE



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 23 de maio de 2018

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Medellín em gotas: 8ª- Processo de socialização


A respeito do processo de socialização - na Carta Encíclica “Mãe e Mestra” de 1961 - o Papa São João XXIII escreve: “A socialização é um dos aspectos característicos da nossa época. Consiste na multiplicação progressiva das relações dentro da convivência social, e comporta a associação de várias formas de vida e de atividade, e a criação de instituições jurídicas. O fato deve-se a multíplices causas históricas, como aos progressos científicos e técnicos, à maior eficiência produtiva e ao aumento do nível de vida” (59).
A socialização - continua a Carta - “é simultaneamente efeito e causa de uma crescente intervenção dos poderes públicos, mesmo nos domínios mais delicados, como os da saúde, da instrução e educação das novas gerações, da orientação profissional, dos métodos de recuperação e readaptação dos indivíduos de algum modo menos dotados. Mas é também fruto e expressão de uma tendência natural, quase irreprimível, dos seres humanos: tendência a associarem-se para fins que ultrapassam as capacidades e os meios de que podem dispor os indivíduos em particular. Esta tendência deu origem, sobretudo nestes últimos decênios, a grande variedade de grupos, movimentos, associações e instituições, com finalidades econômicas, culturais, sociais, desportivas, recreativas, profissionais e políticas, tanto nos diversos países como no plano mundial” (60).
A socialização assim entendida “torna possível satisfazer muitos direitos da pessoa humana, especialmente os chamados econômicos e sociais, por exemplo, o direito aos meios indispensáveis ao sustento, ao tratamento médico, a uma educação de base mais elevada, a uma formação profissional mais adequada, à habitação, ao trabalho, a um repouso conveniente e à recreação. Além disso, através da organização cada vez mais perfeita dos meios modernos da comunicação - imprensa, cinema, rádio e televisão (hoje podemos acrescentar: telefone celular, internet e redes sociais) - permite-se a todos de participar nos acontecimentos de caráter mundial” (61).
Para conseguir isso, “requer-se, porém, que as autoridades públicas se tenham formado, e realizem praticamente, uma concepção exata do bem comum; este compreende o conjunto das condições sociais que permitem e favorecem nos seres humanos o desenvolvimento integral da personalidade” (65).
O Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral “A Igreja no mundo de hoje”, refere-se também ao processo de socialização, afirmando: “Multiplicam-se sem cessar as relações do ser humano com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que a própria socialização introduz novas ligações, sem no entanto favorecer em todos os casos uma conveniente maturação das pessoas e relações verdadeiramente pessoais (‘personalização’)” (6).
A respeito do processo de socialização, a II Conferência Episcopal Latino-americana e Caribenha de Medellín - ainda no documento “Justiça” (o primeiro) - retoma (a partir da realidade Latino-americana e Caribenha) o ensinamento da Carta Encíclica “Mãe e Mestra” e da Constituição Pastoral “A Igreja no mundo de hoje”.
Afirma: “A socialização compreendida como processo sociocultural de personalização e de solidariedade crescente (reparem: personalização e solidariedade crescente), nos induz a pensar que todos os setores da sociedade, mas, nesse caso, principalmente o setor econômico-social, deverão superar, pela justiça e fraternidade (reparem novamente: pela justiça e fraternidade), os antagonismos, para se transformarem em agentes do desenvolvimento nacional e continental”.
E declara: “Sem esta unidade, a América Latina não conseguirá livrar-se do neocolonialismo a que está submetida, nem, em consequência, realizar-se com liberdade, com suas características próprias, no campo cultural, sociopolítico e econômico”.
A Conferência reconhece o papel fundamental do processo de socialização em curso na América Latina e no Caribe para a educação social, a conscientização, a transformação das estruturas e a prática da justiça. A Conferência “tem plena consciência de que o processo de socialização, desencadeado pelas técnicas e meios de comunicação social, faz destes um instrumento necessário e muito apto à educação social, à conscientização de acordo com a transformação de estruturas e à vigência da justiça”.
O processo de socialização abre caminhos concretos para que o projeto de vida do Evangelho - a Boa-Notícia de Jesus de Nazaré - aconteça cada vez mais na história do ser humano e do mundo. Esse projeto - que muitas vezes foi e continua sendo interpretado de maneira meramente espiritualista, individualista, intimista e a-histórica - é o mais revolucionário possível, é um projeto radicalmente humano. Nesse projeto, histórico e meta-histórico ao mesmo tempo (o Reino de Deus), todos e todas somos filhos e filhas do mesmo Pai-Mãe, irmãos e irmãs em Cristo, iguais em dignidade e valor e chamados/as a viver em Comunidade.
“Todos/as que abraçavam a fé (seguiam Jesus de Nazaré) eram unidos/as e colocavam em comum todas as coisas, vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos/as, conforme a necessidade de cada um/uma (reparem mais uma vez: conforme a necessidade de cada um/uma)” (At 2,44-45).
Não é esse o verdadeiro socialismo comunitário, o verdadeiro comunismo? Não está na hora de - os cristãos e cristãs que somos e nossas Igrejas - nos libertarmos totalmente das influências desumanas e antievangélicas do imperialismo, do feudalismo e do capitalismo, que absorvemos - às vezes de maneira inconsciente - na nossa maneira de viver e que, farisaicamente, tentamos justificar? Não está na hora de vencermos a tentação do poder hierárquico, inclusive eclesiástico, que sempre procuramos legitimar em nome de Deus? Não está na hora de exigirmos - na organização social de nossas Igrejas - mudanças profundas, não só conjunturais, mas também e sobretudo estruturais.
Enfim, não está na hora de voltarmos às fontes e - unidos/as a todas as pessoas de boa vontade, que lutam pela mesma causa - construirmos o projeto de vida do Evangelho, que na realidade é o Projeto Popular? O processo de socialização não nos deve levar a viver esse projeto de forma cada vez mais radical? Pensemos!


Resultado de imagem para Fotos da II Conferência Episcopal da América Latina e Caribe em Medellín, 1968

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Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 16 de maio de 2018

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Laura Cibelly: vítima da “pena de morte” na Saúde


Companheiros e companheiras de caminhada, que participam ativamente do Conselho Municipal de Saúde e dos Conselhos Locais de Saúde de Goiânia afirmam que a atual Secretária Municipal de Saúde, Fátima Mrué, está empenhada num trabalho sério que visa melhorar o SUS de Goiânia, defendendo a autonomia da Secretaria e não aceitando interferências políticas interesseiras. Pela confiabilidade das pessoas que dão o testemunho, acredito que seja verdade e - nesse trabalho - a Secretária, com sua equipe, merece todo nosso apoio.
É, porém, absolutamente necessário fazer - sem mais demora - a distinção entre a busca de melhoramento do SUS (que deve ser permanente) como sistema de atendimento diário à saúde da população - e os casos de emergência e urgência. Nesses casos, todas as discussões devem ser deixadas para depois e - tendo em mãos o parecer médico, dizendo que se trata de um caso de urgência urgentíssima - a única coisa que o Poder Público precisa fazer é atender imediatamente, mesmo que seja em hospitais privados e a pagamento.
A Secretaria Municipal de Saúde deve ter - em seu orçamento - uma verba reservada para esses casos. As obras podem esperar, mas a vida não espera. A salvação de uma vida em situação de emergência e urgência deve estar sempre em primeiro lugar. Não dá mais para tolerar - sem profunda indignação - a frieza com que se aceita a morte de tantas vítimas inocentes, inclusive crianças, come se fosse uma coisa normal.
Nos casos de emergência e urgência, a falta de atendimento ou a demora no atendimento é crime de omissão de socorro que, na prática (mesmo que não seja na teoria), legaliza e institucionaliza a “pena de morte”. O Poder Público - do ponto de vista não somente ético, mas também jurídico - é responsável por essa omissão e deve ser processado, julgado, condenado e obrigado a pagar uma indenização à família das vítimas.
Todos sabemos que as vítimas inocentes da “pena de morte” na Saúde, legalizada e institucionalizada, são sempre pessoas pobres, sobretudo crianças e idosos/as, Para os ricos nunca faltam vagas na UTI dos hospitais. Nunca se ouviu falar que um rico morreu por falta de vaga em UTI.
Um dos últimos casos, amplamente noticiado, é o de Laura Cibelly, que nasceu em 23 de abril último, na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, no Setor Vila Nova.
“Bebê morre após luta por UTI”. “A menina Laura Cibelly sofria de uma cardiopatia e precisava com urgência de um leito especializado. Vaga foi disponibilizada após ação da Defensoria Pública, mas ela não resistiu” (O Popular, 30/04/18, p. 15 - Manchete: título e subtítulo).
Laura peregrinou por vários hospitais de Goiânia e - mesmo diante do parecer dos médicos que “apontavam para a necessidade urgente de que ela fosse levada para uma UTI cardíaca, pois seu estado era gravíssimo” - só no dia 28 (em resposta a uma requisição feita no dia anterior), a família conseguiu uma liminar na Defensoria Pública “para que os bens da Prefeitura fossem bloqueados a fim de garantir que a cirurgia fosse realizada na rede privada, já que não havia profissionais aptos na rede pública”. No dia 29, “Laura conseguiu um leito no Instituto Goiano de Pediatria (Igope), no Parque Amazônia, onde faleceu” (Ib.). Infelizmente, era tarde demais!
Com muita dor no coração, pergunto: Precisava de tudo isso!? Não é cruel demais!? Não é uma injustiça que clama diante de Deus!? Não é uma vergonha para Goiânia!? Todos e todas sabemos que, se Laura fosse filha de ricos, estaria viva.
Manifesto a minha total solidariedade aos pais e familiares de Laura. Que Deus dê muita força para vocês, que sintam sempre a presença de Laura na vida de vocês e que ela - feliz na casa do Pai - interceda por vocês e por todos/as nós.
Termino fazendo um apelo aos advogados da Rede Nacional de Advogados Populares (Renap) de Goiás e do Brasil: de maneira organizada e como trabalho de voluntariado, coloquem-se à disposição dos parentes de Laura (e de outras pessoas que também perderam a vida pelo mesmo motivo) para processar o Poder Público pelo crime de omissão de socorro, exigindo uma indenização para a família das vítimas. Não vai trazer a Laura (e as outras pessoas) de volta, mas é o mínimo que pode ser feito. Quem sabe, com isso, o Poder Público tome consciência de suas responsabilidades!
Lutemos por um outro mundo possível e por um Projeto Social (sócio-econômico-político-ecológico-cultural) Popular, no qual todos os direitos e os direitos de todos/as sejam respeitados.

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 O Poder Público deve ser processado, julgado e condenado


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 09 de maio de 2018


sábado, 5 de maio de 2018

Medellín em gotas: 7ª- Situação de injustiça


             
No documento “Justiça” - que é o primeiro - a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Medellín começa afirmando que, além do texto preparatório da Conferência - que certamente não será o último - “existem muitos estudos sobre a situação do ser humano latino-americano”. E reconhece: “Em todos eles se descreve a miséria que marginaliza grandes grupos humanos em nossos povos. Essa miséria, como fato coletivo, se qualifica de injustiça que clama aos céus (reparem: injustiça que clama aos céus)”.
       No entanto - continua a Conferência - “o que talvez não se esclareceu suficientemente é que os esforços que foram feitos, em geral, não foram capazes de assegurar que a justiça seja respeitada e realizada em todos os setores das respectivas comunidades nacionais”.
Entre as situações de injustiça citadas, destaco: as famílias, que “muitas vezes, não encontram possibilidades concretas de educação para seus filhos”; a juventude que “reclama seu direito de entrar nas universidades ou em centros superiores de aperfeiçoamento intelectual ou técnico-profissional”; a mulher que “reivindica sua igualdade, de direito e de fato, com o homem”; e os camponeses (ou, todos os trabalhadores e trabalhadoras) que “pedem melhores condições de vida”.
A Conferência constata: “Não podemos ignorar o fenômeno desta quase frustração universal de legítimas aspirações, que cria o clima de angústia coletiva que já estamos vivendo”.
Declara ainda: “A falta de integração sociocultural, na maioria de nossos países deu origem a superposição de culturas. No campo econômico implantaram-se sistemas que encaram só as possibilidades dos setores com alto poder aquisitivo. Esta falta de adaptação ao que é próprio e às possibilidades de nossa população, origina, por sua vez, uma frequente instabilidade política e a consolidação de instituições puramente formais”.
Fazendo, pois, um juízo ético, afirma: “A tudo isto deve-se acrescentar a falta de solidariedade, que provoca no campo individual e social, verdadeiros pecados, cuja cristalização aparece evidente nas estruturas injustas (reparem: estruturas injustas) que caracterizam a situação da América Latina”.
Referindo-se à condição de injustiça, na qual vivem os trabalhadores e trabalhadoras, a Conferência “dirige-se a todos aqueles que, com o esforço diário, vão criando os bens e serviços que permitem a existência e o desenvolvimento da vida humana” e afirma: “Pensamos muito especialmente nos milhões de homens e mulheres latino-americanos, que constituem o setor camponês e operário. Eles, na sua maioria, sofrem, esperam e se esforçam por uma mudança que humanize e dignifique seu trabalho. Sem desconhecer a totalidade do significado humano do trabalho, aqui o consideramos como estrutura intermediária, enquanto constitui a função que dá origem à organização profissional no campo da produção”.
Com realismo, afirma: “Muitos de nossos trabalhadores/as, se bem que venham adquirindo consciência da necessidade de transformação (para uma economia verdadeiramente humana), experimentam, simultaneamente, uma situação de dependência ante os sistemas e instituições econômicas inumanas, situação que, para muitos deles, aproxima-se da escravidão não apenas física, mas também profissional, cultural, cívica e espiritual”.
Por fim, denuncia: “O sistema empresarial latino-americano e, devido a ele, a economia atual, corresponde a uma concepção errada sobre o direito de propriedade dos meios de produção e sobre a finalidade mesma da economia. A empresa, numa economia verdadeiramente humana, não se identifica com os donos do capital, porque é fundamentalmente uma comunidade de pessoas e unidade de trabalho (reparem: uma comunidade de pessoas e unidade de trabalho) que necessita de capital para a produção de bens. Uma pessoa ou um grupo de pessoas não pode ser propriedade de um indivíduo, de uma sociedade ou do Estado”. Que ideal bonito! A empresa como “comunidade de pessoas e unidade de trabalho” não é a utopia de todos os trabalhadores e trabalhadoras! Lutemos por ela!
A respeito do sistema liberal capitalista e do sistema marxista (o chamado “socialismo real”, que - mesmo tendo contribuído para uma maior igualdade e justiça social - foi, de fato, um capitalismo de estado), a Conferência afirma: “Ambos sistemas atentam contra a dignidade da pessoa humana; um porque tem como pressuposto a primazia do capital, seu poder e sua discriminatória utilização em função do lucro. O outro, embora ideologicamente defenda um humanismo, vislumbra melhor o homem coletivo e na prática se transforma numa concentração totalitária do poder do Estado”.
Infelizmente, esta situação de “injustiça que clama aos céus”, de que fala a Conferência, persiste ainda hoje e, de alguma forma, parece até que se agravou. Mesmo assim, não podemos perder a esperança, sobretudo os e as que somos cristãos e cristãs.
“Eu creio num Mundo Novo, pois Cristo ressuscitou! Eu vejo sua luz no povo, por isso alegre sou!”.







Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 02 de maio de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

1º de Maio: dia de resistência e luta

O 1º de Maio - como Dia Internacional do Trabalhador e da Trabalhadora - “surgiu em 1886, quando trabalhadores ame­ricanos da cidade de Chicago, no dia 1º de Maio, saíram às ruas para lutar por melhores salários, redu­ção da jornada de trabalho (de 13 para 8h diárias) e melhores condi­ções de trabalho. Os patrões, a eli­te política e a polícia reprimiram o movimento prendendo, ferindo e assassinando alguns trabalhadores”.
O movimento espalhou-se rapidamente. No ano seguinte, em 1887, “esse dia foi mar­cado por protestos e lutas em mui­tos países; em 1889, entidades de trabalhadores de diversas par­tes do mundo, reunidos em Paris (França), decidiram transformar o 1º de Maio no dia de homenagem aos trabalhadores de Chicago e de protesto e conscientização da luta dos trabalhadores por direitos so­ciais e trabalhistas, pelo direito à sua livre organização e por liber­dades democráticas”.
No Brasil, “o 1º de Maio passou a ser comemorado a partir de 1917 quando trabalhadores resolveram parar o trabalho para reivindicar direitos. Em 1924, por meio da pressão dos trabalhadores, o pre­sidente Artur Bernardes decretou feriado oficial”.
O que significa comemorar o 1º de Maio hoje? “Em todo o mundo, as contas da crise do capitalismo es­tão sendo jogadas nas costas dos trabalhadores: menos direitos tra­balhistas, salários e serviços pú­blicos; e mais jornada de trabalho, subemprego e desemprego”.
No Brasil, “desde o Golpe de Estado e a posse de Temer, realizados pelos patrões, políticos conservadores e imprensa, aumentaram os ataques aos direitos dos trabalhadores. Mais do que nunca é preciso que o 1º de Maio venha a ser um momento de resistência: forta­lecer os movimentos e lutas dos trabalhadores; construir a unidade dos trabalhadores do campo e da cidade; revogar a Reforma Tra­balhista e a Lei de Terceirização; exigir saúde, educação e transpor­te público de qualidade; e defen­der as liberdades democráticas!” (Fórum Goiano Contra as Reformas da Previdência e Trabalhista. Jornal da Classe Trabalhadora - Ano 2 - Número 4 - Abril de 2018)
Temos hoje no Brasil dois Projetos Sociais (sócio-econômico-político-ecológico-culturais). De um lado, o Projeto Capitalista Neoliberal: o projeto dominante, que - por ser um projeto estruturalmente iníquo e perverso - exclui, descarta e mata. De outro lado, o Projeto Popular: o projeto alternativo, que é necessariamente inclusivo, faz acontecer a sociedade do bem viver e é um projeto em construção.
O 1º de Maio - dia de resistência e luta - deve ser uma manifestação pública, que mostra a unidade dos trabalhadores e trabalhadoras na construção do Projeto Popular. Para fortalecer essa unidade, precisamos criar uma Frente Ampla Nacional Popular (uma Frente de Frentes), que saiba valorizar as diferenças, que seja capaz de incorporar (fazer suas) propostas vindas das diversas Frentes (Frente Brasil Popular, Frente Povo sem Medo, Frente de Esquerda e outras) e que consiga - através do diálogo - definir objetivos comuns.
Hoje, as propostas, que surgiram - e continuam surgindo - nos encontros das diversas Frentes Populares e que contribuíram - e continuam contribuindo - para dar passos concretos na construção do Projeto Popular, deveriam ser assumidas pela Frente Ampla Nacional Popular como suas bandeiras de luta. Entre elas, destaco duas.
Primeira: a necessidade de retomar, no Brasil inteiro, o Trabalho de Base nas Comunidades (sobretudo das periferias das grandes cidades e do meio rural), nos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, nos Partidos Políticos Populares e nos Movimentos Sociais Populares, utilizando a metodologia da Educação Popular Libertadora (Paulo Freire). O Trabalho de Base - mesmo que em determinadas situações conjunturais possa ser intensificado em forma de mutirões - deve ser continuo e permanente para que os/as militantes façam a experiência da troca de saberes e da vida compartilhada. Os militantes se formam na práxis: prática e teoria.
Segunda: a realização - em etapas locais, municipais, estaduais e nacional – do Congresso do Povo (proposta que surgiu na 2ª Conferência Nacional da Frente Brasil Popular - 9 e 10 de dezembro/17).
O Congresso do Povo - como processo - é um espaço para que o povo, livre e publicamente, possa se manifestar e dizer, alto e bom som, o que pensa e o que quer, em todas as situações sociais (sócio-econômico-político-ecológico-culturais), como - por exemplo - em tempo de eleições. O Congresso do Povo surge como uma necessidade do Trabalho de Base e, ao mesmo tempo, o fortalece.
            O Trabalho de Base e o Congresso do Povo completam-se mutuamente e são - sobretudo hoje - o caminho para fazer a experiência que outro mundo é possível, para lutar contra toda injustiça e violação dos Direitos Humanos do sistema vigente e para construir, com o povo e para o povo, o Projeto Popular.
            Os cristãos e cristãs, que acreditamos no Projeto de Jesus - o Reino de Deus na história - em nome de nossa cidadania e de nossa Fé, deveríamos estar sempre na linha de frente de todas as lutas por um mundo novo.
            Para aqueles e aquelas que acham que participar dos Movimentos Populares não tem nada a ver com a Fé cristã, lembro o convite do Papa Francisco.
“Soube que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (Discurso do Papa Francisco aos participantes do 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).



Venham todos e todas participar do 1º de Maio unificado, da resistência e da luta! Praça Universitária (Goiânia - GO), a partir das 14 horas! Conheça a programação do 1º de Maio em sua cidade!



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 25 de abril de 2018




A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos