quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Esclarecimentos à opinião pública

 A apelação do advogado João Francisco, em seu escrito “O Frei Marcos e os lanches do TJ-GO” (Diário da Manhã, OpiniãoPública, 26/12/11, p. 2) - a respeito dos meus três artigos “Os lanches do TJ-GO”, “Para além dos lanches do TJ-GO” e “Mais suspeitas de corrupção” - é maldosa e propositalmente desonesta. Para restabelecer a verdade, tornam-se necessários alguns esclarecimentos à opinião pública.
1.            Qualquer cidadão, independentemente de sua formação intelectual (faz parte de seu currículo de cidadão) tem o direito e até o dever de participar ativamente da vida pública e denunciar as suspeitas de corrupção. Graças a Deus, a época do coronelismo rural ou urbano já acabou.
2.                Eu, na qualidade de cidadão, nos artigos citados não denuncio, como diz o advogado, “desvio de verbas públicas e corrupção no TJ-GO”, mas levanto suspeitas de desvio de verbas públicas e corrupção no TJ-GO, o que é bem diferente. Eu não estou - como diz ainda o advogado - “exercendo o papel de representante do Ministério Público”, tanto é verdade que afirmo de maneira muito clara que o Ministério Público tem a obrigação de exigir uma investigação séria a respeito das suspeitas de corrupção levantadas.
3.        Eu recebi mensagens de apreço não só de funcionários, como continua dizendo o advogado (embora os funcionários mereçam todo nosso respeito e gratidão), mas também de advogados que, como os funcionários, por razões de trabalho conhecem a situação por dentro e vivem o problema na própria pele.
4.            Como o advogado João Francisco parece querer desqualificar - com uma certa ironia embutida nas suas palavras - a minha formação teológica deturpando a verdade, tenho a esclarecer o seguinte: Além da formação teológica em nível de doutorado, eu tenho também uma formação humanista (filosófica e sociológica), em nível de doutorado. Em outras palavras (embora isso não tenha nenhuma relevância, pelo menos no nosso caso), além de doutor em Teologia Moral (ou Ética teológica) pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção-SP, sou também doutor em Filosofia pela USP, uma das Universidades públicas mais bem conceituadas da América Latina e do mundo. E sou ainda professor aposentado de Filosofia da UFG, que também é uma Universidade pública.
5.              Por vocação e opção de vida (missão e não profissão), eu sou Religioso dominicano e Padre (não sou “vigário especial do Vaticano”, palavras que o advogado inventou e não existem nos meus dados biográficos - o advogado precisa estar mais atento na leitura), e exerço o meu ministério (serviço) na Arquidiocese de Goiânia.
6.            Os “graves problemas” que o advogado levanta, para tentar me desmoralizar, não me dizem respeito. Estou convencido que cada um de nós (religioso ou não) - seja na sociedade em geral, seja na Igreja ou em qualquer outra Instituição - é eticamente responsável pelas suas opções, pelas suas atitudes e pelos seus atos.
 A bem da verdade, é isso o que eu tinha a esclarecer. “A verdade vos libertará” (Jo 8, 32). De minha parte, dou o caso por encerrado. Fiz o que em consciência tinha a obrigação de fazer. Diante das suspeitas levantadas, cabe agora - como já disse - ao Ministério Público não ser omisso e exigir uma investigação séria, dando assim uma satisfação à sociedade.

Termino com as sábias palavras de André Garcia, um dos muitos funcionários do TJ-GO: “Numa democracia de verdade, que nosso país não tem, uma matéria de jornal dessas (o artigo “Os lanches do TJ-GO”) causaria uma investigação séria por parte dos órgãos competentes, e não uma retaliação sob a forma de ‘cala a boca’ do órgão acusado. É justa a pretensão do cidadão que desconfiou do preço que o TJ paga pelos seus lanches. É o TJ que tem que provar que fez a coisa certa, e não o cidadão. Nós, do povo, temos a obrigação de fazer como esse cidadão, fiscalizar e denunciar abusos desses órgãos” (avestruzgarcia.blogspot.com/2011/12/lanches-do-tjgo. html - 19/12/2011).
            Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 28/12/11, p. 07


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
 Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
                                                                                                                                                              E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Tempo do Natal

               O tempo litúrgico do Natal inicia com as primeiras vésperas da solenidade do Natal do Senhor e - incluindo a solenidade da Epifania do Senhor (dos Santos Reis) - vai até a festa do Batismo do Senhor. È um “tempo forte” de graça de Deus e, portanto, de espiritualidade humana e cristã
            No Natal do Senhor fazemos a memória, ou seja, tornamos presente hoje o nascimento de Jesus Cristo, celebramos a “troca de dons entre o céu e a terra” e pedimos que, já neste mundo, possamos “participar da divindade daquele que uniu ao Pai a nossa humanidade” (Missa da Noite de Natal. Oração sobre as Oferendas).
            Na Epifania do Senhor, fazemos a memória e celebramos a manifestação de Jesus Cristo, Filho de Deus, “luz para iluminar todos os povos no caminho da salvação” (Prefácio da Epifania do Senhor), que é o caminho da felicidade, que é o caminho da perfeição humana (da plena realização humana) dentro do plano de Deus, que é, em outras palavras, o caminho da busca do verdadeiro sentido da vida humana e de todas as formas de vida. 
            Durante o tempo litúrgico do Natal, “cantamos, com a euforia dos profetas e evangelistas de todos os tempos, o mistério da encarnação (Natal) e da manifestação (Epifania) do Verbo (Palavra) de Deus, do Príncipe da Paz, do Emanuel (Deus conosco). Os pobres ao nos ouvirem, acorrerão pressurosos até o presépio. A Boa Notícia é sobretudo para eles, embora seja de alegria para todos os povos” (Diretório da Liturgia. Canto e Música na Liturgia. Cantar o Natal do Senhor).
“Para os que habitavam nas sombras da morte (nas trevas), uma luz resplandeceu. Fizestes crescer a alegria e aumentaste a felicidade. Todos se regozijam em tua presença” (Is 9, 1-2). “Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2, 2).
            Terminando, pois, o tempo litúrgico do Natal, na festa do Batismo do Senhor fazemos a memória e celebramos a consagração de Jesus Cristo para a missão, revivemos e renovamos a nossa consagração batismal, e somos confirmados na missão de ser luz das nações e anunciadores da Boa Notícia do Reino.
            Perguntemo-nos agora: Como aconteceu o Natal de Jesus? Em que contexto social ele se deu? Enquanto Maria e José estavam em Belém para o recenseamento, “completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria" (ou, "dentro de casa”) (Lc 2, 6-7).
Os primeiros que receberam a Boa Notícia do nascimento de Jesus foram os pastores. "Eu anuncio a vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura" (Lc 2, 10-12). Os pastores foram às pressas se encontrar com Maria e José, e o recém-nascido. Voltaram louvando e glorificando a Deus, e tornaram-se os primeiros anunciadores da Boa Notícia do nascimento de Jesus.
Os pastores eram pessoas "odiadas por não respeitar as propriedades alheias, invadindo-as com seus rebanhos e cobrando preços exorbitantes pelos produtos. Um pastor - segundo o Talmud babilônico - não podia ser eleito ao cargo de juiz ou testemunha nos tribunais, por causa da má fama e do desrespeito à propriedade" (Pe. José Bortolini, Roteiros homiléticos. Paulus, 2006, p. 3 - Missa da noite de Natal). Os pastores não eram, portanto, "pessoas de bem".
Jesus, diríamos hoje, nasceu como "sem-teto" e anunciou a Boa Notícia do seu nascimento aos "sem-terra" (os pastores). Nasceu rejeitado e excluído. "Veio para a sua casa, mas os seus não o receberam" (Jo 1, 11). O Filho de Deus, o Salvador do mundo, não só se encarnou, assumindo a nossa natureza e a nossa condição humana na história, mas tornou-se solidário - afetiva e efetivamente - com todos aqueles/as que no mundo não têm voz e não têm vez, com todos aqueles/as que não "cabem" nas casas das nossas cidades: os empobrecidos, os oprimidos, os excluídos, os indesejados, os rejeitados e os descartados da nossa sociedade. Jesus se identificou totalmente com eles/elas, tornando-se um deles/delas.
É verdade que Jesus veio para todos/as, mas o caminho que Ele escolheu, para anunciar ao mundo a Boa Notícia do Reino de Deus, não foi o caminho dos poderosos (dos Herodes de ontem ou de hoje), mas o caminho dos pobres, que é um caminho alternativo (Cf. o meu Artigo: Jesus o “sem teto” de Belém. Em: www.adital.com.br - 10/01/11). E nós, os cristãos e as cristãs, será que escolhemos o caminho de Jesus?
Perguntemo-nos ainda: O que o Natal de Jesus representa para nós hoje? Um dia, "enquanto ia andando, alguém no caminho disse a Jesus: 'Eu te seguirei para onde quer que fores', mas Jesus lhe respondeu: 'As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça'” (Lc 9, 57-58). E, num outro encontro com os discípulos, Jesus acrescentou: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16, 24).
Será que nós, os cristãos e as cristãs, queremos realmente seguir Jesus”, procurando “discernir os 'sinais dos tempos' à luz do Espírito Santo” e nos colocando a serviço do Reino de Deus, a partir dos pobres? (Documento de Aparecida - DA, 33). “O seguimento de Jesus é fruto de uma fascinação que responde ao desejo de realização humana, ao desejo de vida plena. O discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como o mestre que o conduz e o acompanha” (DA, 277). “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10-10).

“Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens e às mulheres por ele amados e amadas” (Lc 2, 14).
            Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 26/12/11, p. 06
                            

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
                                                                                                                                                     E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mais suspeitas de corrupção

               A sujeira escondida debaixo dos tapetes começa a aparecer. No caso dos lanches do TJ-GO, a cada dia que passa, aumentam as suspeitas de corrupção (superfaturamento, desvio de verbas públicas). O e-mail que Mildred Joana Avelar Freire - servidora da Comarca de Rio Verde - enviou ao Diário da Manhã e que foi publicado no Caderno OpiniãoPublica do mesmo Jornal (13/12/11, p. 3), é uma prova concreta de que as minhas suspeitas de corrupção tinham razão de ser.
            Mildred Joana, em seu e-mail, afirma que, com estranheza, leu o meu artigo “Os lanches do TJ-GO” e viu a foto, que o Jornal utilizou para ilustrar o conteúdo do mesmo. Ela diz que - durante 11 anos de trabalho - só em raras oportunidades (como, por exemplo, posse de juízes, eventos especiais, confraternização de fim de ano) viu lanches como o da foto.
            Mildred Joana afirma também que, com maior perplexidade ainda, leu o artigo “A verdadeira face dos lanches do TJ” do diretor financeiro do TJ-GO, Euzébio Ribeiro. De fato, em resposta ao meu artigo, ele informa que “os investimentos mencionados referem-se a despesas gerais de fornecimento de lanches e/ou refeições envolvendo cerca de 400 magistrados e 7.100 servidores/colaboradores, alocados nas diversas Comarcas do Estado de Goiás”.
            O meu e-mail - continua Mildred Joana - “tem a finalidade de esclarecer que nós, servidores da Comarca de Rio Verde, não devemos estar contemplados entre estes ‘7.100 servidores/colaboradores’, pois aqui não é servido lanche aos servidores. Pelo contrário, quem sente fome aqui é compelido a comprar seu subsídio na lanchonete existente no prédio do Fórum, com o dinheiro proveniente dos seus proventos, ou trazer de casa”. Insiste dizendo: “Repito, não são servidos lanches aos funcionários desta Comarca”.
            Através de pesquisa, a servidora de Rio Verde constatou depois que apenas nas Comarcas de Goiânia, Anápolis, Alto Paraíso e Caldas Novas serve-se somente pão aos servidores. Nas Comarcas de Jataí, Luziânia, Itumbiara, Trindade, Goianápolis, Rialma e Formosa, a situação é a mesma de Rio Verde.
            O diretor do Sindicato dos Servidores e Serventuários da Justiça do Estado de Goiás (Sindjustiça), Fábio Pereira de Queiroz, cobrou do diretor financeiro do TJ uma explicação e ele - sempre segundo a servidora de Rio Verde - “garantiu que as verbas são destinadas às Comarcas (Fundo Rotativo), após solicitadas pelo Juiz diretor do Fórum - e que não sabe explicar o motivo de a finalidade não estar sendo alcançada... Ou seja, a verba existe, mas a maioria dos servidores das Comarcas passa fome durante o expediente por falta de lanche do TJ - só comem aquilo que podem (quando podem) comprar!!!!”.
            Pergunto: Será que o pão servido - de 1º de janeiro a 1º de novembro de 2011 - aos funcionários de 4 Comarcas (Goiânia, Anápolis, Alto Paraíso e Caldas Novas), mesmo incluindo algumas festas em ocasiões especiais, custou R$ 519,9 mil? Mas que pão caro é esse! O que os leitores acham? Não dá para suspeitar? O Ministério Público - que tem a obrigação de exigir uma investigação séria a esse respeito - está com a palavra. A sociedade cobra uma explicação e espera que - se forem constatados atos de corrupção - os responsáveis sejam processados, julgados e punidos.
            André Garcia, que se define um dos muitos funcionários do TJ e que diz ter acompanhado de perto a repercussão do caso dos lanches, critica com veemência a gritante desigualdade de tratamento entre os juízes e desembargadores, de um lado, e aqueles que ele chama de “funcionários inferiores”, do outro lado.
Depois conclui: “Com o salário que juízes e desembargadores ganham, tão alto que é considerado o teto do funcionalismo público, não deveriam ter direito a mais nenhuma regalia. Deveriam ir trabalhar com o próprio carro, pagar a própria gasolina, pagar estacionamento, viajar a serviço com seu próprio dinheiro, lanchar e almoçar por conta própria, não ter direito a assessores (que são os que realmente trabalham), trabalhar umas 10 horas por dia sem intervalo e comer o pão que o diabo amassou. Isso seria justiça real” (avestruzgarcia.blogspot.com/2011/12/lanches-do-tjgo.html).
E é essa “justiça real” que todos/as almejamos e que queremos fazer acontecer no Brasil e no mundo de hoje.

                                                 Diário da Manhã, Goiânia, 22/12/11, p. 13


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
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                                                                                                                                                                      E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

domingo, 18 de dezembro de 2011

Para além dos lanches do TJ-GO

        Diante das repercussões que o meu artigo “Os lanches do TJ-GO” - publicado no Diário da Manhã, dia 8 do corrente mês de dezembro - teve na imprensa, pensei em retomar o assunto.
Como dominicano, confrade e discípulo do grande filósofo e teólogo São Tomás de Aquino, inicio o meu escrito, fazendo “o estado da questão” (“status quaestionis”) a respeito das repercussões do artigo citado, que tanta celeuma suscitou.   Em seguida, levanto alguns problemas muito graves, que - embora ligados - vão “além dos lanches do TJ-GO”. E para fazer isso, recorro a depoimentos de pessoas que, por razões profissionais, estão por dentro desses problemas e os vivem diariamente. De acordo com o ditado popular, “contra fatos não há argumentos”.
            Quanto ao estado da questão, lembro antes de tudo que no dia 9 desse mês, um dia após a publicação do meu artigo e no mesmo Jornal (p. 4), Eusébio Ribeiro da Costa, diretor-financeiro do TJ-GO, escreveu um artigo com o título “A verdadeira face dos lanches do TJ” com o objetivo - segundo ele - de “restabelecer a verdade” sobre os “equivocados comentários”, dizendo que se trata de “levianas, inverídicas e caluniosas afirmações” e que o autor fez uma “leitura distorcida” e “não buscou a verdade”. Infelizmente, o artigo é um longo elenco de afirmações sem provas, que visa desmoralizar o autor e enganar a opinião pública. Graças a Deus, o efeito foi justamente o contrário.
É bom que se diga que os dados do último artigo não são meus, mas foram tirados da coluna “Direito & Justiça” do Jornal O Popular. Como autor do artigo eu só fiz algumas reflexões e levantei algumas suspeitas (sem afirmar nada), a partir desses dados. O TJ-GO, portanto, deveria contestar os dados do Jornal O Popular, apresentando outros dados com as respectivas provas e documentos. Ele, de má fé, preferiu despejar sua ira em cima da minha pessoa, escolhendo o alvo errado. O TJ-GO deveria saber que a mentira não se torna verdade, fazendo uma série de afirmações agressivas e desrespeitosas.
No mesmo dia 9 e no mesmo Jornal Diário da Manhã (p. 1 do Caderno “Opinião Pública”), Paulo Ernane Moreira Barros, Juiz Federal da 15ª Vara de Goiânia, escreveu outro artigo com o título “Crítica imprudente” no qual procura desqualificar o meu artigo, dizendo que foi escrito “de forma jocosa e sensacionalista”, sem conhecimento de causa e com imprudência. Mais uma vez, trata-se de afirmações sem provas.
Sempre no mesmo dia 9, o site do TJ-GO (www.tjgo.jus.br) divulgou “Nota Oficial”, incorporando na íntegra o artigo do diretor-financeiro do TJ.
Dois dias depois, também no Diário da Manhã (p. 7 do Caderno “Opinião Pública”), Ari Queiroz, Juiz de Direito e Professor da PUC-GO, publicou mais um artigo com o título “Agora implicam até com nosso lanche”, no qual tenta mais uma vez, de maneira cínica e irônica, desqualificar o meu artigo, dizendo que o autor deveria “procurar saber a verdade” antes de “falar besteiras” e “pensar melhor antes de agir como ventríloquo”. Senhor juiz, só um pequeno reparo. No meu entender, ventríloquo não é quem, por honestidade intelectual, cita integralmente e entre aspas uma fonte de dados, mas quem, por falta de caráter, se presta a ser um mero repetidor de afirmações absurdas e ridículas.
Levanto agora alguns problemas muito graves, que vão “além dos lanches do TJ-GO”. Devido ao espaço reduzido de um artigo, cito (não como ventríloquo, mas com plena consciência) parte de alguns depoimentos que recebi pela internet (omitindo os nomes, por motivos óbvios), parabenizando pelo artigo e dizendo que tudo o que nele está escrito é a pura verdade.
Primeiro depoimento: “Esses dias fui até a presidência do TJ-GO, fiquei indignado com tanto de carrinhos que entravam e saiam dos gabinetes, levando lanches e mais lanches de tudo quanto era tipo de guloseimas para as pessoas que trabalham naquele órgão (...). De repente, entra o presidente e seu chefe de gabinete, que nem olharam ao redor para pelo menos cumprimentar as pessoas que os aguardavam e ainda não nos receberam dizendo que teria que ter hora marcada. Pareciam uns reis e um simples humano como eu sai e fui embora. Um absurdo o que essas pessoas fazem. Acham que são deus. Quem paga a conta? Quem tá ganhando com tudo isso? Parabéns pelo seu artigo” (Um cidadão).
Segundo depoimento: “O texto (o artigo ‘Os lanches do TJ-GO’) é tão real que dias atrás, mais precisamente, 01/12/11, estive em Montes Claros de Goiás para participar de uma audiência - semana de conciliação - teria uma audiência que estava marcada para as 14h30, todavia a mesma somente veio a ocorrer às 18h30. E foi assim, devido ao tratamento desrespeitoso, por que não, desumano que é dado a população por parte deste Tribunal. Estavam ali centenas de pessoas, a maioria teve que aguardar por mais de cinco horas do lado externo do Forum, debaixo de muito sol, outra hora, de chuva, para aguardar por sua audiência de conciliação. E mais, sem que a eles fosse fornecido nenhum lanche. Por outro lado, juízes, conciliadores, promotores, servidores estavam no ar condicionado desfrutando de um belo lanche. E o mais revoltante ainda é entrar no site do TJ e ver uma foto do presidente do TJ, onde informa que no dia de hoje (09/12/11), o mesmo encontra-se naquela cidade inaugurando o Fórum daquela Comarca, como se tudo fosse mil maravilhas. Tudo no intuito de aparecer na mídia, todavia, não divulga o caos que foi naquela cidade quando da realização da conciliação. Prova do que estou falando são as pessoas que lá estavam presentes” (Um advogado).
Terceiro depoimento: “Na condição de servidor do TJ-GO, venho por meio deste trazer ao senhor o meu profundo apoio no tocante ao seu artigo. Nenhuma inverdade foi dita, embora o Tribunal, mais uma vez, em sua página, via assessoria de imprensa, tente distorcer a verdade, criando enes justificativas para o injustificável. Posso garantir ao senhor que nos corredores daquela casa, dita de justiça, a prática de atos que ofendem à questão da igualdade é quase que rotineira. A questão do lanche, é só a ponta de um iceberg, que aponta para um sem número de outras injustiças praticadas pelos nossos ‘doutores’. Permita-me, trazer elementos que talvez lhe sirvam (...): Para os juízes - 5 a 6 frutas (diariamente) + salgadinhos (3 ou 4 tipos) + sucos, coalhada...tudo isso diariamente. Para os servidores - pão e margarina (às vezes, só pão). Tentam descaracterizar o seu artigo afirmando que o total gasto é devido à alimentação de quase 8000 servidores. Balela! O grosso dessa maracutaia está no privilégio que é dado aos nossos nobres e digníssimos doutores. É ali que o dinheiro vai embora! E o pior é que todo mundo sabe disso (inclusive o Ministério Público) e nada é feito!!!” (Um servidor do TJ-GO).
Quarto depoimento: “Sou do Acre e morei em Minaçu-GO  mais de 12 anos (até 2009). Durante esses 12 anos, ingressei com mais de 1.500 ações - individuais e coletivas - contra os grupos Furnas e Cem/Tractebel, responsáveis pela construção das Usinas Hidrelétricas de Serra da Mesa e Cana Brava, que atingiram cerca de 11 municípios no norte de Goiás. Contando com a leniência/dolosa das autoridades federais e sobretudo estaduais (MP e Judiciário de Minaçu), cerca de 5.000 famílias (aproximadamente 1.500 posseiros),  deixaram de receber suas indenizações e re-assentamentos, num calote - dado pelas 2 empresas - de algo próximo a 300 milhões de reais. No CMI (Centro de Mídia Independente), publiquei, por diversas vezes, tais atrocidades, mas nunca consegui sensibilizar as autoridades de Goiás/Federal  para esse descaso. Todos os Processos, desde 2000, estão parados ou engavetados, inclusive com o apoio do TJ-GO (assumo isso publicamente)”.
E também: “Outra história escabrosa. Na calada da noite o governador de Goiás Marconi Perilo, juntamente com uma corja de ladrões, venderam - sem licitação - para o corrupto grupo Sama/Eternit (sede em Minaçu-GO), uma área de terra pública de Goiás - denominada de Vila de Sama - com 1.400 lotes de 1.000 m2, com infra-estrutura de uma cidade, avaliada em R$. 50.000.000,00, pela bagatela de R$. 190.000,00 (preço de um carro). Ingressei em 2006 com uma Ação Popular na Comarca de Minaçu-GO e, pasmem, desde aquela data, o processo está parado. Nessa mesma ação (...), há também uma denúncia feita  pelo Ministério Público Federal contra autoridades de Goias e Sama/Eternit, provando que num período de 07 anos, a partir  de 2001, eles criaram uma empresa fantasma e conseguiram sonegar de imposto (cefem/amianto), a quantia de R$. 13.000.000,00. Toda a quadrilha está processada pela Justiça Federal de Goiânia, mas nenhum Jornal toca no assunto. Até uma desembargadora do TJ-GO vinha vendendo sentença para o governador Marconi Perilo, e nada ocorreu até hoje”.
E ainda: “É com relação aos crimes ambientais. Furnas, ao construir Serra da Mesa, tinha a obrigação, além de indenizar os posseiros - 1.500 - coisa que não fez - e reassentar os não-proprietários, inundou cerca de 178.000 mil hectares de mata, sem fazer o processo de desmatamento e retirada da madeira do lago, para fins de comercialização. É muito roubo/crime/danos, etc. acobertados pelas  autoridades de Goiás e  ninguém, mas ninguém mesmo, tem coragem de falar sobre o assunto, a não ser eu. (...) Até cemitério - com 300 cadáveres, foi inundado por Furnas e Cem/Tractebel, quando tinham a obrigação de retirá-los e sepultá-los em outra localidade, dentro dos princípios da dignidade. Nada disso foi feito” (Um advogado).
Muitos outros depoimentos, sobre muitos outros fatos, poderiam ser lembrados, como por exemplo, a cínica e iníqua “Operação Triunfo” (precedida da também cínica e iníqua “Operação Inquietação) da Ocupação “Sonho Real” no Parque Oeste Industrial, em 2005, que foi a pior barbárie praticada em toda a história de Goiânia, com o apoio e a conivência criminosa do TJ-GO. Lembrem-se os responsáveis dessa barbárie e de outras semelhantes que a justiça de Deus tarda, mas não falha.
Por enquanto, penso que não precisa dizer mais nada. Realmente os problemas levantados são muito graves e vão “além dos lanches do TJ-GO”, que - como diz um dos depoimentos - são só “a ponta de um iceberg”.

“Viva a esperança! Viva a esperança!” (Pedro Casaldáliga. Refrão do Canto “Trovas do Cristo Libertador”).
              Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 17/12/11, p. 3

                                                                                                                                                     Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos (Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
                                                                                                                                                      E-mail: mpsassatelli@uol.com.br

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Os lanches do TJ-GO

Pasmem! “Em 10 meses, TJ gasta meio milhão em lanches” (O Popular, 15/11/11, Manchete, 1ª página). Deire Assis, na coluna “Direito & Justiça”, afirma: “A relação dos pagamentos realizados pelo Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO) entre 1º de janeiro e 1º de novembro de 2011, conforme relatório da Diretoria Financeira e Divisão de Execução Orçamentária e Financeira do órgão disponível no Portal da Transparência no site da instituição na internet mostram que o Judiciário gastou no período mais de meio milhão com o custeio de despesas com lanches: R$ 519,9 mil”.
            A colunista continua dizendo: “Seis empresas constam como fornecedoras de despesas classificadas como ‘serviços de buffet’ e ‘fornecimento de lanches’. A maior despesa desta natureza (R$ 165,3 mil) ocorreu em fevereiro com fornecimento de lanches a magistrados e ao movimento de conciliação” (Ib. p, 8).
            Que afronta aos trabalhadores/as, que ganham o salário mínimo! Que desrespeito acintoso para com todos aqueles/as que - por causa da iniquidade de nossa sociedade hipócrita - sobrevivem dos restos de comida dos lixões!
            Por que tanta mordomia e tanto desperdício do dinheiro público? Que Tribunal de Justiça é esse? Quem vai investigar se o valor dos lanches foi ou não superfaturado e se alguém se aproveitou ou não do dinheiro público para seus interesses pessoais? Quem vai devolver aos cofres públicos o dinheiro gasto indevidamente? O TJ-GO deve - se é que tem - uma explicação à sociedade.
            Seria oportuno e certamente muito saudável que o TJ-GO, antes de usar irresponsável e inescrupulosamente o dinheiro público - que é dinheiro do povo - com suntuosos e requintados lanches ou com superfaturamento dos mesmos, lembrasse a situação de miséria em que vivem muitos de nossos irmãos e irmãs no mundo e no Brasil.
No mundo, “cerca de 100 milhões de pessoas estão sem teto; 1 bilhão de analfabetos; 1,1 bilhão de pessoas vivem na pobreza, destas, 630 milhões são extremamente pobres, com renda per capta anual bem menor que 275 dólares; 1,5 bilhão de pessoas sem água potável; 1 bilhão de pessoas passando fome; 150 milhões de crianças subnutridas com menos de 5 anos (uma para cada três no mundo); 12,9 milhões de crianças morrem a cada ano antes dos seus 5 anos de vida” (www.webciencia.com - acessado em 05/11/11).
No Brasil - que é o quinto país do mundo em extensão territorial, ocupando metade da área do continente sul-americano - nós temos “uma questão estrutural ao longo de séculos: sempre se produziu uma desigualdade econômica e social muito grande, e que continua. Vem diminuindo pouco. Márcio Pochmann, presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), afirma que 10% ainda concentram um percentual de 70% da riqueza nacional, sendo que os 90% mais pobres têm acesso a apenas 25% a 30% da renda nacional. Na opinião dele, se a gente considerar as famílias donas de conglomerados econômicos, cinco mil famílias detêm mais ou menos 45% da renda brasileira, o que é uma concentração absurda. Em 2003, nós estávamos entre os quatro ou cinco piores países do mundo em distribuição de renda. Hoje estamos entre os 15, 20 países com a pior distribuição de renda do mundo. (...) No início dos anos 2000 tínhamos no Brasil em torno de 50 milhões de pessoas que, ou passavam fome diariamente, ou não tinham alimento suficiente regularmente. Hoje, diminuiu mais ou menos pela metade, mas temos ainda em torno de 16 milhões de pessoas que estão na extrema pobreza (...)” (Selvino Heck. A fome é uma criação humana. Entrevista, julho/11. Em www.pucrs.br).  
Os programas sociais - chamados programas de distribuição de renda - do Poder Público, sobretudo do Governo Federal, melhoram (pelo menos enquanto existem) a situação de miséria e fome do povo, amenizando seu sofrimento, mas não resolvem o problema na raiz. As causas da fome e da desigualdade socioeconômica são de caráter estrutural e são a consequência de um sistema econômico perverso, desumano e antiético.
De fato, a fome no Brasil continua gritante. Trata-se de “uma tragédia a conta-gotas, dispersa, silenciosa, escondida nos rincões e nas periferias. Tão escondida que o Brasil que come não enxerga o Brasil faminto e aí a fome vira só número, estatística, como se o número não trouxesse junto com ele, dramas, histórias, nomes. Na inversão do ciclo da vida, proeza é criança viva, bebê recém enterrado, acontecimento banal. No Brasil, a cada cinco minutos, morre uma criança. A maioria de doenças da fome. Cerca de 280 a 290 por dia. É o que corresponderia, de acordo com o Unicef, a dois Boeings 737 de crianças mortas por dia”.
Segundo o médico Flávio Valente - voluntário em campanhas contra a desnutrição e a fome - “existem, pelo menos, 36 milhões de brasileiros que nunca sabem quando terão a próxima refeição”. Sempre segundo o médico, há hoje na sociedade um comportamento que é comum e do qual todos nós somos responsáveis: “a aceitação (...) de que crianças ainda morram de fome no nosso país e que isso seja considerado natural” (Jussara Faustino. Fome no Brasil. Em: www.coladaweb.com.br – 25/11/11).
Enfim, “do ponto de vista estrutural, a fome é resultado do tipo de sociedade que temos: uma sociedade capitalista que concentra renda, exclui as pessoas, não permite que haja igualdade e uma melhor distribuição de renda. Então a razão estrutural é esta: uma sociedade que visa ao lucro, e o lucro acontece junto com o acúmulo de riqueza e de renda. Além disso, nós vivemos 20, 30 anos de neoliberalismo. O neoliberalismo significa: ‘Quem pode mais, chora menos’. Mas não se trata apenas da política econômica e social, é também uma política cultural, de valores, que influencia na maneira como as pessoas agem em relação umas às outras. Precisamos fazer um trabalho longo de reconstrução de valores de solidariedade” (Selvino Heck. A fome é uma criação humana. Ib.).
Terminando, quero dizer: Se o TJ-GO meditasse sobre essa realidade iníqua, perversa e desumana, os lanches seriam certamente mais frugais e - quem sabe - não haveria superfaturamento ou desvio de dinheiro público.

Uma outra sociedade é possível! Lutemos para que ela aconteça.
                Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 08/12/11, p. 2



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma manifestação do Espírito de Deus

“Para que todos os seres humanos vejam a razão da nossa esperança”
(Liturgia das Horas, Laudes, 1ª Semana do Advento, Segunda feira)

No dia 27 deste mês de novembro/11, uma Romaria ao Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade - GO “fez a memória” dos 25 anos do 6º Interreclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), acontecido nessa mesma cidade, do dia 21 a 25 de julho de 1986, com o tema “CEBs, Povo de Deus em Busca da Terra Prometida”. A Romaria foi promovida pelo Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia, mas teve também a participação de Comunidades do Vicariato Leste, do Vicariato de Aparecida, de outras Comunidades da Arquidiocese e de alguns representantes de outros lugares do Brasil.
Ao todo, participaram da Romaria, com muita vibração e fé, mais de mil pessoas. Estiveram também presentes e concelebraram Dom Tomás Balduino, Bispo Emérito da cidade de Goiás, Pe. Antônio Donizete Guimarães, Vigário Episcopal do Vicariato Leste, Pe. Alaor, Pároco da Paróquia S. Rita de Cássia do Parque S. Rita, Pe. Sidney, Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Esperança do Jardim Nova Esperança, Frei José Fernandes, da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, o que escreve este artigo, Frei Marcos, Vigário Episcopal do Vicariato Oeste, Pe. Paim, Vigário Episcopal do Vicariato de Trindade (na primeira parte da Romaria), que fez uso da palavra, dando as boas-vindas, e mais algum Padre no meio do Povo.
A Romaria, mesmo tendo sido programada num tempo relativamente breve, teve uma ampla divulgação na Internet, pelo blog do Regional Centro-Oeste da CNBB, pelo site da Adital (Notícias da América Latina e Caribe), pelo site da Casa da Juventude (Caju) e diversos outros sites. Destacamos também o apoio recebido da Equipe de Crato - CE, que está preparando - com muito entusiasmo e dedicação - o 13º  Interreclesial das CEBs, com o tema “Justiça e Profecia a Serviço da Vida” e o lema “CEBs, Romeiras Do Reino no Campo e na Cidade”. O 13º Interreclesial acontecerá na cidade de Crato - CE, do dia 07 a 11 de janeiro de 2014.
            Enfim, agradecemos a todos/as, que, de uma forma ou de outra, se disponibilizaram para ajudar na divulgação, na preparação e na coordenação da Romaria. Queremos manifestar um agradecimento especial a Equipe de Crato - CE, que elaborou - por iniciativa própria e com muita criatividade artística - um data-show, com diversos slides, fazendo o histórico dos Interreclesiais e destacando - inclusive com o Cartaz da nossa Romaria - o 6º Interreclesial. O texto usado pela Equipe foi o meu Artigo “25 anos do 6º Encontro Interreclesial das CEBs”, publicado no Diário da Manhã de Goiânia, no dia 31 de julho/11 e no site da Adital, no dia 01 de agosto/11. O data show sobre as CEBs será certamente muito útil para Encontros de formação, sobretudo de Animadores.
            O 1º Interreclesial das CEBs, acontecido em Vitória - ES, de 06 a 08 de janeiro/75, tinha como tema “Uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus”.
            A vida das CEBs e a história dos Interreclesiais são a prova concreta que o tema do 1º Interreclesial se tornou - e se torna cada vez mais - realidade. De fato, as CEBs são uma Igreja que nasce do Povo (sobretudo do Povo empobrecido, oprimido e excluído) pelo Espírito de Deus.
            A Romaria do dia 27 deste mês de novembro/11, primeiro domingo do Advento, foi uma grande Celebração, que começou às 9h. O primeiro momento dessa Romaria-Celebração foi a Acolhida festiva das Comunidades (no trevo de entrada de Trindade) e o Lanche comunitário, num clima de partilha e muita alegria. O segundo momento foi a Caminhada penitencial rumo ao Santuário Novo, com três paradas para pedidos de perdão. O terceiro momento - já entrando no Santuário Novo - foi o Louvor à Santíssima Trindade, a melhor Comunidade. O quarto momento foi a Celebração da Palavra (recebida com cantos e danças), iniciando com a Memória do 6º Interreclesial. O quinto momento foi a Celebração da Eucaristia (com cantos e danças na procissão do Ofertório). O sexto e último momento foi a Renovação do Compromisso e do Envio. A Romaria-Celebração terminou por volta das 13h e 30m, com muitas pessoas cantando e dançando, num clima de fé e espírito fraterno.
             As Comunidades, e todos/as que participamos da Romaria-Celebração tivemos a graça de fazer a experiência de “uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus”.
            Estamos convencidos que ninguém pode deter a força do Espírito de Deus, nem os Herodes, os Fariseus e os Sinédrios de ontem; nem os Herodes, os Fariseus e os Sinédrios de hoje, que aparecem quando e onde menos  esperamos.
            Uma Romaria-Celebração, como a do dia 27 deste mês de novembro/11, renovou - em todos/as que participamos - o entusiasmo, a fé e a esperança “num outro mundo possível” e “numa outra Igreja possível”: a “Igreja dos Pobres” (João XXIII), a “Igreja Povo de Deus” (Concílio Vaticano II).
Foi justamente às vésperas do Concílio Vaticano II, na Mensagem do dia 11 de setembro/62, que João XXIII afirmou: “A Igreja se apresenta como é e como quer ser: a Igreja de todos e particularmente a ‘Igreja dos Pobres’” (Mensagem de João XXIII. Citada por: Oscar Beozzo. Medellín: Inspiração e raízes. Em: www.servicioskoinonia.org - 27/09/98).
No final da primeira sessão do Concílio Vaticano II, retomando o propósito de João XXIII, o cardeal Giacomo Lercaro, em sua intervenção, declarou com toda força evangélica: "Esta é a hora dos Pobres, dos milhões de Pobres que estão por toda a terra, esta é a hora do mistério da Igreja, mãe dos Pobres, é a hora do mistério de Cristo sobretudo no Pobre". Por conseguinte, "a mais profunda exigência do nosso tempo, incluindo nossa grande esperança de promover a unidade de todos os cristãos, não seria satisfeita, seria ao contrário frustrada, se o problema da evangelização dos Pobres do nosso tempo, fosse tratado no Concílio, como um tema que se junta aos outros". Com efeito, "não se trata de um tema qualquer, mas num certo sentido do único tema de todo o Vaticano II" (Giacomo Lercaro. Discurso: Per la forza dello Spirito Santo. Citado por Oscar Beozzo, Ib.).
            Dom Helder Câmara dizia que devemos agir como o Cristo, que, pertencendo a todos, se identificou com os Pobres, os Oprimidos e com todos aqueles que sofrem.
Termino, lembrando que a atualidade das CEBs foi oficialmente reafirmada pelo Documento de Aparecida, da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, e pelo Documento “Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs”, da 48ª Assembleia Geral da CNBB de 2010. Na Mensagem os bispos, retomando as palavras do Doc. 25 de 1982, declaram: “As Comunidades Eclesiais de Base constituem, em nosso país, uma realidade que expressa um dos traços mais dinâmicos da vida da Igreja”.


                  Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 01/12/11, p. 2



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Tempo do Advento

“Já que é vosso dom tudo o que somos,
para vós se oriente também todo o nosso viver”
(Oração das Laudes, Sábado da II Semana do Tempo Comum)

O Advento é um tempo litúrgico de renovada esperança e de alegre espera da vinda de Jesus. “Possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os seres humanos, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos” (Normas sobre o Ano Litúrgico e o Calendário - NALC, N. 39). 
O Tempo litúrgico do Advento é formado por quatro semanas Nas duas primeiras semanas somos convidados a vigiar, esperando a vinda gloriosa do Salvador.  Nas últimas duas semanas, lembrando a espera dos profetas e de Maria, somos convidados a nos preparar para celebrar - fazer a memória, tornar presente - em nossa vida e em nossa história o nascimento de Jesus em Belém.
Um símbolo que pode nos ajudar a entender e viver o sentido do Advento é a Coroa do Advento, que é feita de um círculo de galhos sempre verdes, simbolizando o amor infinito de Deus para com todos os povos. As quatro velas, acesas e colocadas no círculo - uma a cada semana do Advento - nos lembram a luz de Deus que vem ao mundo para iluminar nossa existência e nossa história.
Na abertura do Advento escutamos a antífona: “Anunciai a todos os povos: Deus vem, nosso Salvador” (I Vésperas do 1º domingo do Advento), que ressoa durante todo o Ano Litúrgico. A Liturgia “convida a renovar seu anúncio a todos os povos e o resume em duas palavras: ‘Deus vem’. Esta expressão tão sintética contém uma força de sugestão sempre nova. Detenhamo-nos um momento a refletir: não usa o passado - Deus veio -, nem o futuro - Deus virá -, mas o presente: ‘Deus vem’. Se prestarmos atenção, trata-se de um presente contínuo, ou seja, de uma ação que sempre acontece: está acontecendo, acontece agora e acontecerá mais uma vez. Em qualquer momento, ‘Deus vem’. O verbo ‘vir’ apresenta-se como um verbo ‘teológico’, inclusive ‘teologal’, porque diz algo que tem a ver com a natureza própria de Deus. Anunciar que ‘Deus vem’ significa, portanto, anunciar simplesmente o próprio Deus, através de uma de suas marcas essenciais e significativas: é o ‘Deus-que-vem’” (Bento XVI. Meditação sobre o Advento, 10/12/2006 - www.cnbbco.org.br).
O Advento é um tempo forte de espiritualidade. E a espiritualidade é, antes de tudo, uma espiritualidade humana. É o jeito de ser e de viver do ser humano, enquanto ser espiritual. Ela envolve o ser humano todo, em todas as suas dimensões e relações: pessoais, sociais, econômicas, políticas, culturais e ecológicas. Ela perpassa, impregna e absorve a totalidade do ser humano, a totalidade de sua existência no mundo.
Para os que somos cristãos, a espiritualidade humana - à luz da fé - torna-se espiritualidade cristã (do seguimento de Jesus de Nazaré). Não pode, porém, ser espiritualidade cristã se não for primeiro (no sentido lógico e não cronológico) espiritualidade humana. A espiritualidade cristã é uma espiritualidade radicalmente humana. Precisamos os cristãos ser especialistas em humanidade. Não temos o direito de sermos indiferentes e omissos diante dos desafios que o mundo de hoje nos apresenta como apelos de Deus, mas devemos estar sempre na linha de frente em todas as lutas que visam tornar a sociedade e o mundo mais humanos.
 “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 1).
“Eu vim - diz Jesus - para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo.16, 4). Somos os cristãos “discípulos missionários de Jesus Cristo, para que nele todos os povos tenham vida” (Tema da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe - CELAM).
A espiritualidade cristã é uma espiritualidade pascal: cristológica, pneumatológica e trinitária (comunitária, eclesial). Brota da vivência, sempre mais profunda e sempre mais envolvente, do Ano Litúrgico, que inicia com o Advento e tem como centro a Páscoa (passagem da morte para a vida: vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito). A Liturgia é a celebração do mistério pascal na vida e a celebração da vida no mistério pascal. "A celebração litúrgica repercute na vida e a vida é celebrada. Celebração e vida estão intimamente ligadas. Como seguidores de Jesus Cristo progressivamente nos tornamos uma coisa só com ele. É um processo (…) que atinge todo o universo e que se dá concretamente no cotidiano da nossa história. Cristo, embora tenha passado pela morte, venceu-a. Nós também venceremos. Acreditemos na vida" (Ir. Veronice Fernandes, pddm - www.cnbbsul1.org.br - 25/03/08).
Na celebração do mistério pascal na vida e da vida no mistério pascal, “trata-se da recriação de nosso eu, adquirindo a forma de Jesus Cristo ressuscitado, segundo o Espírito de Deus. É processo lento e sofrido, e ao mesmo tempo alegre e esperançoso, que deverá durar até a nossa morte. Perfazendo seu próprio caminho pascal, cada pessoa está ao mesmo tempo participando e colaborando na Páscoa de todo o tecido social, de toda a realidade cósmica (Cf. Rm 8, 18-25)) até à plena comunhão, quando Deus será tudo em todos (Cf. 1Cor 15, 28)" (Ione Buyst. Viver o mistério pascal de Jesus Cristo ao longo do Ano Litúrgico: um caminho espiritual. Semana de Liturgia, São Paulo, outubro de 2002).

O Advento nos leva a uma mudança de vida e nos prepara para celebrar e viver o Natal de Jesus à luz de sua Páscoa, que é também a nossa Páscoa, a Páscoa de toda a humanidade, a Páscoa do mundo inteiro.
                      Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 24/11/11, p. 3  

                                
Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos