sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A questão do salário mínimo: um espetáculo político deprimente

Nesses dias assistimos a um espetáculo político deprimente: a discussão sobre o salário mínimo por parte do governo e dos parlamentares.
            Antes de tudo, podemos constatar a maneira autoritária e desrespeitosa como o  governo conversou com os Sindicatos e as Centrais sindicais. O ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral), representante da presidenta Dilma na negociação, disse que não “levará em conta” os protestos. “Na questão do mínimo, nós entendemos que não há mais negociação. Vamos reafirmar os R$ 545”. “Se tivéssemos folga e uma situação fiscal tranquila, poderíamos ser mais generosos”. Que cinismo! O ministro sabe muito bem - embora finja de não saber - que um salário mínimo digno não é uma questão de generosidade do governo, mas é um direito dos trabalhadores.
            O próprio ex-presidente Lula - que, como ex-trabalhador, deveria conhecer a vida dos trabalhadores - saiu em defesa de Dilma e criticou o “oportunismo” dos Sindicatos na negociação pelo reajuste do salário mínimo (Cf. Folha de S. Paulo, 09/02/11, p. A4). Será que o “oportunismo” não é do governo? Será que o ex-presidente Lula, deslumbrado pelo poder, e o próprio partido, dito “dos Trabalhadores”, não precisam refrescar a memória sobre a vida sub-humana da grande maioria dos trabalhadores? Ou será que as “cataratas” impedem os parlamentares do PT e seus aliados de enxergar a realidade?
            Na discussão sobre o salário mínimo, os parlamentares debocham da inteligência do  povo. Em geral - com raras exceções - não têm nenhuma preocupação com a vida e as necessidades básicas dos trabalhadores e de suas famílias. O “é dando que se recebe”, ou, em outras palavras, o “toma lá e dá cá” é a questão central do debate. Trata-se de uma barganha que visa somente os interesses pessoais e de grupos.
            Há pelo menos quarenta anos que, nessa farsa toda, os parlamentares afirmam na imprensa, com desfaçatez e cinismo, que é preciso estabelecer uma meta de recuperação de salário mínimo, mas nada ou quase nada fazem. É sempre a mesma enrolação e a mesma enganação do povo, Só mudam os atores. Aqueles que, antes de chegar ao poder, defendiam, alto e bom som, um salário mínimo que atendesse às necessidades básicas dos trabalhadores (como, por exemplo, o Vicentinho, relator do projeto), agora defendem um salário mínimo de fome. É a total falta de vergonha e, sobretudo, a total falta de ética.
            Para comprovar o que estamos dizendo, basta citar algumas manchetes de jornal: “Partido (PMDB) cobra reconhecimento depois de exibir força na votação do mínimo”. “Governo retribui apoio do PMDB com cargos na Caixa”. “Recompensa aos aliados. Peemedebistas devem ganhar cargos após aprovação do mínimo no Congresso”.  “Partidos (PT, PMDB e até mesmo PDT) duelam por indicações na cúpula do BB”. E ainda: “Dilma esperava a votação do mínimo para definir nomeações”. “Com a aprovação do salário mínimo de R$ 545, os peemedebistas praticamente garantiram a nomeação do vice-presidente de Agronegócios. A sigla votou em peso com o governo. Já o PDT, que também queria o Agronegócios ou a vice-presidência do governo, não deve levar nada por enquanto. Nove de seus deputados votaram contra o mínimo” (Folha de S. Paulo, 18/02/11, p. A4). Ler isso na imprensa é realmente repugnante, dá vontade de vomitar. É uma pouca vergonha deslavada. Essa disputa por cargos - diga-se de passagem - não é certamente motivada pela abnegação e pelo desejo de servir ao bem comum, sobretudo aos mais pobres e necessitados.
            Não adianta o ministro Guido Mantega afirmar que o valor do salário mínimo não pode ser maior do que R$ 545 para “garantir o equilíbrio fiscal” do Orçamento Público. Por  que o ministro não teve a mesma preocupação na hora de votar, desavergonhada e acintosamente, o aumento salarial dos parlamentares e dos governantes? É muita cara de pau!
            Não adianta nada, também, os parlamentares usarem de sofismas e artifícios legais, fazendo todo tipo de malabarismos. A questão do salário mínimo é só uma questão de opção política, é só uma questão de priorizar os interesses dos trabalhadores (e não dos detentores do poder econômico, como os banqueiros que, em 2010, tiveram um lucro maior que nos anos anteriores).
            Por que não se cumpre simplesmente a Constituição Federal? Para que ela existe? Entre os direitos dos trabalhadores, a Constituição Federal enumera: “Salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim” (Art. 7, IV).
            Quando os pobres “desobedecem” à Constituição Federal (sobretudo no tocante à “lei da propriedade privada”) e às outras leis, são presos, processados e vão para a cadeia. Infelizmente, nós sabemos que a cadeia está cheia de pobres “desobedientes” (pequenas “desobediências”) e não de ricos “desobedientes” (grandes “desobediências”). Por que os governantes e os parlamentares, que “desobedecem” à Constituição Federal e às outras leis, não são também presos, processados e não vão para a cadeia? A Constituição Federal e as outras leis não existem para todos? Que descaramento!
            Só para citar um exemplo, vejam o absurdo! Ao mesmo tempo que o governo defende um salário mínimo de R$ 545, anuncia a injeção de R$ 10 bi de recursos da Caixa para o banco PanAmericano. Está muito clara a opção política do governo. Embora sabendo que a política do PSDB é igual ou pior à do PT, sou obrigado a concordar com o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), quando afirma: “O PT mostra que escolheu seus amigos e já pode até mudar de nome: Partido do Capital Financeiro” (Folha de S. Paulo, ib.)
            Em valores de dezembro/10, o salário mínimo necessário para garantir os direitos dos trabalhadores, estabelecidos na Constituição Federal, deveria ser de R$ 2.227,53 (DIEESE - Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos socioeconômicos).

            Por que os Sindicatos e as Centrais sindicais que - em conjunto com os Movimentos populares (como o MST, a UNE e outros) iniciaram a negociação defendendo o valor de R$ 580 para o salário mínimo (que mesmo assim continuaria sendo uma afronta à dignidade dos trabalhadores) - não se unem, não se organizam e não assumem uma posição mais combativa? Ou seja, uma posição de resistência e de tolerância zero a esse rolo compressor do Governo que - por ser criminosamente aliado ao poder econômico e covardemente submisso a seus interesses - suga o sangue dos trabalhadores, matando-os aos poucos? Por que não fazem uma greve geral por tempo indeterminado? Ou, num Governo, dito “popular”, as palavras “greve geral” são proibidas? Será que os Sindicatos e as Centrais sindicais se esqueceram que, depois de esgotadas todas as tentativas de diálogo, a greve geral é um direito sagrado dos trabalhadores? Lembrem-se do slogan, que outrora empolgou os Sindicatos e os Movimentos populares: “trabalhador unido, jamais será vencido”! É na união que se constrói o Poder popular.
Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 24/02/11, p. 5


Fr. Marcos Sassatelli, Frade Dominicano 
    Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Parque Oeste Industrial Fazendo a memória do “Sonho Real”

No dia 16 de fevereiro/11 completa 6 anos do despejo dos Moradores da Ocupação "Sonho Real" no Parque Oeste Industrial, na Região Sudoeste de Goiânia, Goiás. Pelas proporções e pelo requinte de desumanidade, trata-se da maior violação dos Direitos Humanos em toda a história de Goiânia, e de uma das maiores do Brasil e do mundo, em áreas urbanas. É um caso que não pode ser esquecido e nem pode ficar impune. 
            Fazendo a memória da Ocupação “Sonho Real”, queremos levantar duas questões, que precisam ser analisadas e aprofundadas.
A primeira é a constitucionalidade ou não da liminar de reintegração de posse da Juíza Substituta Dra. Grace Corrêa Pereira. A meu ver, essa liminar - além de ser eticamente irresponsável - é inconstitucional, por considerar a propriedade privada como um direito absoluto, ao qual tudo deve ser sacrificado, inclusive a vida. A Constituição Federal diz de maneira muito clara: "a propriedade atenderá a sua função social" (Art. 5, XXIII). A área da Ocupação "Sonho Real" - loteamento de 1957 - nunca cumpriu a função social e podia ser desapropriada "por interesse social" (Art. 5, XXIV).
Do ponto de vista ético, as Autoridades e os Militares que cumpriram a liminar, podiam, em nome da "objeção de consciência", praticar a "desobediência civil", mas - por falta de discernimento e de maturidade humana - não o fizeram.
A segunda questão é a maneira como foi cumprida a liminar de reintegração de posse. Mesmo admitindo a hipótese que a liminar fosse constitucional  e  prescindindo de argumentos baseados na Ética e na Justiça (que não são somente argumentos legais), a maneira como foi realizado o despejo - as duas Operações "Inquietação" e "Triunfo" - é totalmente inconstitucional e ilegal, até para um leigo em assuntos jurídicos. Basta o bom senso.
Como escrevi no artigo “A verdade vos libertará”: “Se em nossa sociedade existisse um mínimo de justiça, os responsáveis por esse crime - que são o governador Marconi Perillo, o secretário de Segurança Pública Jônathas Silva e o comandante da Polícia Militar Coronel Marciano Basílio de Queiroz da época (com a omissão do Poder Municipal e a conivência do Judiciário), e que até hoje estão impunes - deveriam ser processados, condenados e impedidos de se candidatarem a qualquer cargo público” (Diário da Manhã, 30/01/10).
Queremos agora fazer a memória dos principais fatos:
De 6 a 15 de fevereiro de 2005, de 0 às 6h, a Polícia Militar do Estado de Goiás começou a ação de reintegração de posse, realizando a chamada "Operação Inquietação", que foram dez dias de tortura física e psicológica coletiva. Cercou a área com viaturas, impediu a entrada e a saída de pessoas e cortou o fornecimento de energia elétrica. Com as sirenes ligadas, com o barulho de disparos de armas de fogo, com a explosão de bombas de efeito moral, gás de pimenta e lacrimogêneo, a Polícia Militar promoveu o terror entre os Moradores da Ocupação. Nenhuma lei permite uma Operação noturna criminosa como essa. Até hoje, temos crianças traumatizadas.
No dia 16 de fevereiro de 2005, a Polícia Militar do Estado de Goiás realizou uma verdadeira Operação Militar de Guerra, cinicamente chamada "Operação Triunfo". Numa hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14.000 pessoas foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta e sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana. A Operação Militar produziu 2 vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número dos mortos e feridos seja bem maior). Esses crimes continuam até hoje impunes.
Nessa Operação Militar criminosa, ilegal e imoral, todos os Direitos Humanos fundamentais foram gravemente violados: o Direito à Vida, o Direito à Moradia, o Direito ao Trabalho, o Direito à Saúde, o Direito à Alimentação e à Água, os Direitos da Criança e do Adolescente, os Direitos da Mulher, os Direitos dos Idosos e os Direitos das Pessoas com necessidades especiais.
Depois do despejo forçado e violento, e depois de passar uma noite acampadas na Catedral de Goiânia (onde aconteceu também o velório de Vagner e Pedro num clima de muita indignação e sofrimento), cerca de mil famílias (aproximadamente 2.500 pessoas), que não tinham para onde ir, ficaram alojadas nos Ginásios de Esportes dos Bairros Novo Horizonte e Capuava (por mais de três meses) e, em seguida, no Acampamento do Grajaú (por mais de três anos) como verdadeiros refugiados de guerra. Nesse período, diversas pessoas - sobretudo crianças e idosos - morreram em consequência das condições subumanas de vida, vítimas do descaso do  Poder Público do Estado de Goiás e da Prefeitura de Goiânia. Quem vai pagar por isso?
No dia 24 de fevereiro/05, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República criou uma Comissão Especial com o objetivo de apurar as violações aos Direitos Humanos na Operação de reintegração de posse, realizada por Policiais Militares no Parque Oeste Industrial em Goiânia, Estado de Goiás, no dia 16 de fevereiro do mesmo ano (Cf. Resolução N. 1, no DOU - Seção 2, de 24/02/05)
A Comissão analisou os três requisitos necessários para a “federalização” dos crimes contra os Direitos Humanos; primeiro: que haja grave violação dos Direitos Humanos; segundo: que o fato praticado seja passível de sujeitar a União à responsabilidade internacional, por obrigações anteriormente assumidas em tratados e em plena vigência no país; terceiro e último: que exista algum comprometimento institucional viciado, que afete a estrutura e as relações independentes dos órgãos públicos estatais, ocasionando a necessidade de ruptura no pacto federativo para se restaurar a normalidade institucional e assegurar a proteção dos Direitos Humanos.
A Comissão reconheceu a existência do primeiro e do segundo requisitos, mas não reconheceu a existência do terceiro. Portanto, no dia 10 de abril/06, o relator da Comissão, Procurador da República Cláudio Drewes José de Siqueira - apoiado em seu parecer pelos demais membros da Comissão - conclui: “Sugiro o não deslocamento da competência para Justiça Federal do caso Parque Oeste Industrial, no que se refere a apuração e ao julgamento dos crimes ocorridos na desocupação, por não restarem preenchidos todos os requisitos constitucionalmente exigidos, recomendando, no entanto, pela continuidade da observação pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana dos trabalhos da Justiça Estadual” (Cf. Relatório da Comissão Especial).
No dia 21 de março/09, o Procurador da República, Procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Ailton Benedito de Souza retomou o parecer da Comissão Especial da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e, no artigo "O Parque Oeste e a lei", escreveu: "Ambos os Ministérios Públicos (MPF e MPE) terminaram integrando uma Comissão Especial cujos trabalhos encerraram-se, no ano de 2006, na conclusão de que não havia necessidade de "federalizar" a persecução dos culpados pelos fatos criminosos relativos ao caso Parque Oeste Industrial. Concluiu-se que estava ausente um pressuposto objetivo do IDC (Incidente de Deslocamento de Competência para a Justiça Federal), ou seja, não havia omissão, leniência, excessiva demora, conluio ou conivência dos órgãos do Estado de Goiás para inviabilizar persecução criminal dos responsáveis".
Nem passa pela cabeça do Procurador da República que o crime, nesse caso, possa ter sido praticado pelo Poder Executivo do Estado de Goiás, com a conivência do Poder Judiciário e a omissão da Prefeitura de Goiânia. Por isso, ele termina dizendo: "Nenhum fato ou circunstância sobreveio que possa justificar, atualmente, o deslocamento da competência do caso Parque Oeste Industrial para a Justiça Federal" (O Popular, 21/03/09, p. 7).
Questionamos as premissas, que logicamente levaram a Comissão Especial da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, integrada pelos Ministérios Públicos (MPF e MPE), e o Procurador da República citado, às conclusões acima referidas. As premissas não correspondem à verdade dos fatos.
Sabemos que os Militares - que, por ordem superior, cumpriram a liminar de despejo - têm sua parcela de responsabilidade pessoal. Não se trata, porém, de investigar e julgar (como querem a Comissão Especial e o Promotor da República Ailton Benedito) só os possíveis abusos ou excessos de alguns Militares, praticados na execução das Operações "Inquietação" e "Triunfo". Trata-se, sobretudo, de investigar e julgar as próprias Operações “Inquietação” e “Triunfo” como Operações criminosas, enquanto tais. Independentemente dos abusos ou excessos cometidos por alguns Militares, essas Operações são um crime planejado. O despejo de 14.000 pessoas numa hora e 45 minutos é uma violência e uma iniquidade humana premeditada.
Além de ser um dos piores crimes já praticados contra os Direitos Humanos e a Ética no Brasil e no mundo, as Operações "Inquietação" e "Triunfo", são também um crime que não só fere a Constituição e as Leis brasileiras, mas também as Leis internacionais.
É justamente esse crime que deve ser “federalizado”. Não se pode – como quer a Justiça Estadual - ficar só na investigação e julgamento dos abusos ou excessos cometidos por alguns Militares. Ficar só nisso, significa fugir do verdadeiro problema, significa escamotear a verdade e procurar um bode expiatório. Como quem praticou o crime em questão foi o Poder Executivo do Estado de Goiás com a conivência do Poder Judiciário e a omissão do Poder Público Municipal, pela lógica, esses Poderes não têm as mínimas condições de investigar e julgar a si próprios. E é por isso que se justifica a "federalização" do caso.
Infelizmente, os crimes praticados pelo Poder Público, em conluio com aqueles que detêm o Poder Econômico, nunca são seriamente investigados e julgados, a não ser nas Instâncias internacionais da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da OEA. Por isso, recorreu-se à Conte Internacional dos Direitos Humanos da OEA.
Pretende-se também realizar um Tribunal Popular para julgar e condenar, no banco dos réus, o Poder Público, Estadual e Municipal. Pretende-se ainda fazer uma Campanha para que  ninguém compre lotes na área - até hoje sem nenhuma função social - da ex-Ocupação "Sonho Real", e para que a área, com base na Constituição Federal, seja declarada de "utilidade pública" e desapropriada (Art. 5, XXIV). Como já foi dito em 2009 num Ato Público, trata-se de uma área impregnada de sangue inocente; uma área que, no sentimento religioso do Povo, é "amaldiçoada" por Deus e só será "libertada" da maldição divina se for utilizada para o bem comum, e em benefício dos Pobres e Excluídos da sociedade. Lembrem os responsáveis por essa violação dos Direitos Humanos, praticada com requinte de crueldade, que Deus é justo. Aguardem!

Pretende-se, enfim, lutar para que a posição equivocada da Comissão Especial da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República seja revista e o crime bárbaro do Parque Oeste Industrial, em Goiânia, praticado pelo Estado de Goiás, seja “federalizado”. Os que defendemos e promovemos os Direitos Humanos e a Ética, não desistimos. A esperança de um mundo novo, onde haja igualdade e justiça para todos, nunca morre. Jesus Cristo, cuja prática os verdadeiros cristãos seguem, sempre esteve ao lado dos injustiçados, dos empobrecidos e dos excluídos.
                                        Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 16/02/11, p. 2


   Fr. Marcos Sassatelli, Frade Dominicano 
    Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Lula: um ex-operário deslumbrado pelo poder

Lula, ex-operário e ex-sindicalista, tornou-se presidente da República por dois mandatos, de 2003 a 2010, e ficou totalmente deslumbrado pelo poder. Hoje ele é ex-presidente.
            Alguns fatos de sua vida são significativos e paradigmáticos. Na campanha eleitoral, de 2002, que o levou à presidência da República, Lula demonstrou de maneira clara que, dessa vez (depois de outras tentativas fracassadas) queria ganhar as eleições a qualquer custo e com qualquer meio. Por isso, na prática (mesmo que não seja na teoria) ele renegou a história do PT, sua própria história como co-fundador do PT e fez todo tipo de alianças, inclusive com a estrema direita, cuja ação política o PT - quando ainda se preocupava com a coerência ideológico-ética - sempre rechaçou de maneira firme e decidida.
            Em outras palavras, para ganhar as eleições, Lula deixou a ética de lado, se vendeu e se comprometeu com os interesses do sistema financeiro internacional. Caso contrário, ele não teria ganhado as eleições, porque não  existiam - e continuam ainda não existindo - as condições históricas objetivas necessárias para um projeto social alternativo.
            Pessoalmente concordo com aqueles que, à época, diziam: “no momento histórico atual nós precisávamos mais de um verdadeiro líder popular do que de um presidente da República”.
            De fato, o governo Lula, em seus dois mandatos, criou - é verdade - diversos programas sociais que melhoraram a situação de miséria e de sofrimento do nosso povo (pelo menos enquanto os programas existem). Do ponto de vista estrutural, porém, não só não mudou nada, mas - como afirmam diversos cientistas sociais - “consolidou o  capitalismo”.
            Como exemplos concretos basta lembrar o lucro dos banqueiros, que foi maior no governo Lula do que nos governos anteriores; o apoio dado ás multinacionais, ao agro-hidronegócio e aos grandes projetos rurais em detrimento da agricultura familiar e do meio ambiente; a não realização da reforma agrária e a falta de apoio a projetos que tinham como meta a soberania alimentar.       
            Além disso, com seus programas sociais (que o tornaram um governo “populista” e não “popular”), o governo Lula cooptou os movimentos sociais e os sindicatos ou centrais sindicais, enfraqueceu (e quase acabou) a organização popular e surgiu, por assim dizer, o “neopeleguismo”.
            A meu ver, teria sido muito melhor não ganhar por enquanto as eleições presidenciais, avançar na organização popular e criar, a médio e longo prazos, as condições objetivas necessárias para fazer acontecer um modelo de sociedade alternativo. Não se supera o sistema econômico capitalista neoliberal, que é um “sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA, 385), consolidando-o. É uma questão de lógica.
            Em sua política econômica, o governo Lula (tudo indica que o governo Dilma fará a mesma coisa) agiu sempre como se o capitalismo neoliberal fosse o “fim da história” (o modelo de vida ideal). Precisava só reformá-lo, modernizá-lo e “humanizá-lo”.
            Além disso - por ter ficado totalmente deslumbrado pelo poder - Lula ficou também totalmente fascinado pelo estilo de vida da burguesia e da classe alta. Podemos citar fatos que - em si e dentro de um contexto maior - não têm muita importância, mas que são reveladores da mentalidade e da ideologia subjacente. Eis alguns exemplos:
            O modo sofisticado de vestir de Lula, com sua coleção de ternos, e da primeira dama Marisa. Quanta mudança! Dizem ex-companheiros que, quando sindicalista, era muito difícil fazer o Lula vestir um terno com gravata. Vale o ditado: “quem nunca comeu melado quando come, se lambuza”.
            O aerolula. Por que será que um ex-operário presidente, conhecedor das condições de vida do  povo, não podia - embora com toda segurança - viajar nos aviões de linha? Qual o problema? Não seria um testemunho de vida muito bonito?
            Os encontros de Lula com os ex-companheiros. Às vezes ele se emocionava e até chorava, mas como alguém que se acha vencedor e tem pena dos outros. Parecia querer dizer: “Eu venci, subi na vida e estou com dó de vocês que ainda são uns pobres coitados”! Os encontros não eram de “com-paixão”, ou seja, não eram encontros dos que sofrem e lutam juntos num clima de partilha, de fraternidade e de igualdade.
            O passaporte diplomático de cinco filhos (Marcos Cláudio, Lurian Cordeiro, Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio) e três netos de Lula. Será que, nos últimos dias do seu governo, Lula não tinha outras coisas mais importantes com as quais se ocupar? Ainda teve tempo para pensar numa falcatrua dessas? Isso mostra quais são os verdadeiros interesses do ex-operário presidente no fim de seu segundo mandato (Cf. Folha de S. Paulo, 24/01/11, p. A4).
            As férias do ex-presidente Lula e família. Será que o Lula, depois de deixar a presidência no início de janeiro/11, precisava passar dez dias de férias no Forte dos Andradas, no Guarujá (litoral de são Paulo) às custas do dinheiro público? Por que tanta ostentação e tanto luxo? Não é isso significativo?
            A “bolsa Lula”. “O PT decidiu pagar um salário mensal de R$ 13 mil a Lula, que no próximo dia dez receberá novamente o título simbólico de 'presidente de honra' do partido. O contracheque será equivalente ao do presidente de fato do PT, José Eduardo Dutra. O novo salário de Lula se soma às duas aposentadorias que ele recebe, uma de anistiado político, outra por invalidez devido à perda do dedo” (Ib., 27/01/11, p. A4). Será que o ex-operário ex-presidente se esqueceu de como vivem seus ex-companheiros? Não poderia renunciar a certos privilégios que levam a um estilo de vida burguês (típico da classe alta) e viver uma vida mais simples? Talvez, por estar totalmente deslumbrado pelo poder e gostar tanto dele, não seja mais capaz de saborear as coisas simples, que dão o verdadeiro sentido à vida e fazem a gente ser feliz.
            A segurança de Lula. Como ex-presidente, Lula tem direito a dois carros de luxo, gasolina à vontade e oito funcionários a sua disposição (dois motoristas, quatro seguranças e dois assessores). Por que tanta mordomia? Não é um pontapé na cara dos pobres? O ex-operário ex-presidente não poderia renunciar a esta mordomia em solidariedade a seus ex-companheiros? Por que existe tanto despudor, tanta injustiça e tanta falta de ética em nossa sociedade? Os ex-presidentes custam ao país aproximadamente R$ 3 milhões por ano. Que vergonha!
            Lembremos: não é o cargo (mesmo que seja o cargo de presidente) que dá dignidade à pessoa humana, mas é a pessoa humana que dá dignidade ao cargo. A dignidade está na pessoa e não no cargo.            

            Nas relações e na convivência humana precisa acontecer uma verdadeira revolução e cabe a nós fazê-la acontecer.
                         Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 07/02/11, p. 18



Fr. Marcos Sassatelli, Frade Dominicano 
    Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
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Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos