sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Tempo do Advento

“Já que é vosso dom tudo o que somos,
para vós se oriente também todo o nosso viver”
(Oração das Laudes, Sábado da II Semana do Tempo Comum)

O Advento é um tempo litúrgico de renovada esperança e de alegre espera da vinda de Jesus. “Possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os seres humanos, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos” (Normas sobre o Ano Litúrgico e o Calendário - NALC, N. 39). 
O Tempo litúrgico do Advento é formado por quatro semanas Nas duas primeiras semanas somos convidados a vigiar, esperando a vinda gloriosa do Salvador.  Nas últimas duas semanas, lembrando a espera dos profetas e de Maria, somos convidados a nos preparar para celebrar - fazer a memória, tornar presente - em nossa vida e em nossa história o nascimento de Jesus em Belém.
Um símbolo que pode nos ajudar a entender e viver o sentido do Advento é a Coroa do Advento, que é feita de um círculo de galhos sempre verdes, simbolizando o amor infinito de Deus para com todos os povos. As quatro velas, acesas e colocadas no círculo - uma a cada semana do Advento - nos lembram a luz de Deus que vem ao mundo para iluminar nossa existência e nossa história.
Na abertura do Advento escutamos a antífona: “Anunciai a todos os povos: Deus vem, nosso Salvador” (I Vésperas do 1º domingo do Advento), que ressoa durante todo o Ano Litúrgico. A Liturgia “convida a renovar seu anúncio a todos os povos e o resume em duas palavras: ‘Deus vem’. Esta expressão tão sintética contém uma força de sugestão sempre nova. Detenhamo-nos um momento a refletir: não usa o passado - Deus veio -, nem o futuro - Deus virá -, mas o presente: ‘Deus vem’. Se prestarmos atenção, trata-se de um presente contínuo, ou seja, de uma ação que sempre acontece: está acontecendo, acontece agora e acontecerá mais uma vez. Em qualquer momento, ‘Deus vem’. O verbo ‘vir’ apresenta-se como um verbo ‘teológico’, inclusive ‘teologal’, porque diz algo que tem a ver com a natureza própria de Deus. Anunciar que ‘Deus vem’ significa, portanto, anunciar simplesmente o próprio Deus, através de uma de suas marcas essenciais e significativas: é o ‘Deus-que-vem’” (Bento XVI. Meditação sobre o Advento, 10/12/2006 - www.cnbbco.org.br).
O Advento é um tempo forte de espiritualidade. E a espiritualidade é, antes de tudo, uma espiritualidade humana. É o jeito de ser e de viver do ser humano, enquanto ser espiritual. Ela envolve o ser humano todo, em todas as suas dimensões e relações: pessoais, sociais, econômicas, políticas, culturais e ecológicas. Ela perpassa, impregna e absorve a totalidade do ser humano, a totalidade de sua existência no mundo.
Para os que somos cristãos, a espiritualidade humana - à luz da fé - torna-se espiritualidade cristã (do seguimento de Jesus de Nazaré). Não pode, porém, ser espiritualidade cristã se não for primeiro (no sentido lógico e não cronológico) espiritualidade humana. A espiritualidade cristã é uma espiritualidade radicalmente humana. Precisamos os cristãos ser especialistas em humanidade. Não temos o direito de sermos indiferentes e omissos diante dos desafios que o mundo de hoje nos apresenta como apelos de Deus, mas devemos estar sempre na linha de frente em todas as lutas que visam tornar a sociedade e o mundo mais humanos.
 “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos seres humanos de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 1).
“Eu vim - diz Jesus - para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo.16, 4). Somos os cristãos “discípulos missionários de Jesus Cristo, para que nele todos os povos tenham vida” (Tema da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe - CELAM).
A espiritualidade cristã é uma espiritualidade pascal: cristológica, pneumatológica e trinitária (comunitária, eclesial). Brota da vivência, sempre mais profunda e sempre mais envolvente, do Ano Litúrgico, que inicia com o Advento e tem como centro a Páscoa (passagem da morte para a vida: vida nova em Cristo, vida segundo o Espírito). A Liturgia é a celebração do mistério pascal na vida e a celebração da vida no mistério pascal. "A celebração litúrgica repercute na vida e a vida é celebrada. Celebração e vida estão intimamente ligadas. Como seguidores de Jesus Cristo progressivamente nos tornamos uma coisa só com ele. É um processo (…) que atinge todo o universo e que se dá concretamente no cotidiano da nossa história. Cristo, embora tenha passado pela morte, venceu-a. Nós também venceremos. Acreditemos na vida" (Ir. Veronice Fernandes, pddm - www.cnbbsul1.org.br - 25/03/08).
Na celebração do mistério pascal na vida e da vida no mistério pascal, “trata-se da recriação de nosso eu, adquirindo a forma de Jesus Cristo ressuscitado, segundo o Espírito de Deus. É processo lento e sofrido, e ao mesmo tempo alegre e esperançoso, que deverá durar até a nossa morte. Perfazendo seu próprio caminho pascal, cada pessoa está ao mesmo tempo participando e colaborando na Páscoa de todo o tecido social, de toda a realidade cósmica (Cf. Rm 8, 18-25)) até à plena comunhão, quando Deus será tudo em todos (Cf. 1Cor 15, 28)" (Ione Buyst. Viver o mistério pascal de Jesus Cristo ao longo do Ano Litúrgico: um caminho espiritual. Semana de Liturgia, São Paulo, outubro de 2002).

O Advento nos leva a uma mudança de vida e nos prepara para celebrar e viver o Natal de Jesus à luz de sua Páscoa, que é também a nossa Páscoa, a Páscoa de toda a humanidade, a Páscoa do mundo inteiro.
                      Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 24/11/11, p. 3  

                                
Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fazendo a memória do 6º Interreclesial das CEBs

No dia 31 de julho deste ano de 2011 escrevi um Artigo com o título: 25
Anos do 6º Encontro Interreclesial das CEBs. No Artigo fiz um histórico dos 12 Interreclesiais das CEBs, já acontecidos no Brasil, e uma referência ao 13º Interreclesial, que está sendo preparado e acontecerá, de 07 a 11 de janeiro de 2014, em Crato (CE), com o tema: “Justiça e Profecia a Serviço da Vida. CEBs, Romeiras do Reino no Campo e na Cidade”.
No mesmo Artigo apresentei também uma síntese do conteúdo teológico-pastoral do 6º Interreclesial e dei a sugestão de realizar uma Romaria ao Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade - GO, fazendo a memória dos 25 anos do 6º Interreclesial (Leia o Artigo em: Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 31/07/11, p. 6, ou em: www.adital.com.br - 01/08/11).
Depois de diversos encontros com pessoas e Comunidades interessadas, o Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia decidiu promover a Romaria - que já tinha sido sugerida no Artigo - no dia 27 deste mês de novembro/11.
Portanto, convida para participarem desta Romaria todas as Comunidades do Vicariato e estende o convite às outras Comunidades da Arquidiocese de Goiânia, do Regional Centro-Oeste da CNBB e do Brasil todo. O 6º Interreclesial marcou a caminhada das CEBs no país inteiro.
Retomo agora algo daquilo que escrevi no Artigo acima citado, a respeito do 6º Interreclesial. Aconteceu há 25 anos, do dia 21 a 25 de julho de 1986, em Trindade - GO (depois de um ano, um mês e 20 dias da Páscoa definitiva do grande Pastor-Profeta Dom Fernando Gomes dos Santos, arcebispo de Goiânia) e teve como tema: “CEBs, Povo de Deus em Busca da Terra Prometida”.
O Encontro contou com 1.647 participantes, dentre os quais 742 representantes das bases, 203 agentes de pastoral, 30 assessores, 51 bispos, 16 representantes de Igrejas evangélicas, 10 representantes dos povos indígenas, e observadores nacionais e estrangeiros.
“O 6º Interreclesial significou uma virada decisiva na vida dos Interreclesiais. (...) Os Encontros Interreclesiais das CEBs passam, em Trindade, por uma transformação de sua natureza. (...) Em razão da proporção dos participantes, bem mais acentuada com respeito aos Encontros anteriores, não havia condições plausíveis para um estudo mais aprofundado sobre os temas propostos. Num evento de quase duas mil pessoas não se podia mais, evidentemente, privilegiar o momento reflexivo. A dimensão celebrativa passa a ocupar lugar de centralidade, o que não significa ausência da dimensão reflexiva, que permanecerá em cena. A novidade é que  a  partir  de  então  os tempos fortes dos Interreclesiais serão ocupados por grandes e vibrantes celebrações de fé. As celebrações do Interreclesial de Trindade foram extremamente criativas, com destaque para a presença de símbolos gestados na ampla e profunda experiência de enraizamento popular das Comunidades” (Os Interreclesiais das CEBs: Identidade em construção! Persp. Real. 29 (1997) 155-187).
Diversas vezes, durante o Encontro, foi proclamado, alto e bom som, que “a Santíssima Trindade é a melhor Comunidade”.
Em sintonia com o tema central, outros grandes temas - ligados à caminhada das CEBs - marcaram o 6º Interreclesial: CEBs e seu estatuto eclesiológico (identidade e missão, fé e política, espiritualidade libertadora e Bíblia, hierarquia e ministérios); CEBs e política partidária; CEBs e projeto político popular; CEBs e sindicalismo; CEBs e movimentos populares; CEBs e lutas específicas (mulheres, negros e índios); CEBs e luta pela terra (terra de Deus, terra de irmãos): CEBs e reforma agrária (projetos do governo); CEBs e moradia (solo urbano); CEBs e questão latino-americana; CEBs e ecumenismo; e outros.
Com a Romaria do dia 27 deste mês de novembro/11, primeiro domingo do Advento, queremos fazer a memória, ou seja, tornar presente hoje tudo o que o 6º Interreclesial significou e ainda significa para a caminhada das CEBs no Brasil.
Nos encontraremos no trevo da entrada de Trindade, a partir das 9:00h. Acolheremos as Comunidades com muito canto, alegria e festa. Partilharemos fraternalmente um lanche comunitário. Faremos uma caminhada penitencial até o Santuário, com cantos de perdão e reconciliação. Entraremos no Santuário do Divino Pai Eterno, louvando, glorificando e agradecendo a Deus pelo reencontro fraterno, pelo perdão recebido e pela vida das nossas Comunidades. Celebraremos a Palavra e a Eucaristia com muita fé. Renovaremos o nosso compromisso de discípulos/as missionários/as de Jesus. Seremos, enfim, enviados/as para continuar a missão de Jesus no mundo de hoje.

Venham! Participem! Será um tempo forte de graça de Deus. Será uma manhã de muita alegria, de muita paz, de muita espiritualidade e de muito compromisso.
Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 17/11/11, p. 6



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

domingo, 13 de novembro de 2011

Um clamor pela vida

          Há poucos dias escrevi um Artigo com o título “Um descaso inadmissível e injustificável” sobre a situação caótica em que se encontram as Unidades de Saúde Pública e, em especial, o Hospital de Urgências de Goiânia (Ugo) (Cf. Diário da Manhã, Opinião Pública, 04/11/11, p. 7; www.adital.com.br - 04/11/11). 
            Depois de publicado o Artigo, apareceram outras reportagens sobre o mesmo assunto: o descalabro com a Saúde Pública e as medidas que o governo diz estar tomando, em caráter emergencial, para solucionar o problema. Uma reportagem anuncia: “Socorro à Saúde”. “Força-tarefa para a Saúde”. Governo de Goiás traça metas para sanar crise nos hospitais públicos.  Marconi ordena atuação imediata para solução” (Diário da Manhã, 05/11/11, manchete 1ª página e p, 2; cf. também p. 3).
            Uma outra reportagem também anuncia: “Pacotão da Saúde”. “Governador Marconi Perillo denuncia burocracia que entrava procedimentos licitatórios. Ele cria força-tarefa para solucionar impasse no setor. Empresa vai cuidar da central de laudos e manutenção dos aparelhos de hospitais. Dilma anuncia R$ 3,6 milhões anuais destinados ao Hugo” (Ib. 09/11/11, manchete 1ª página; cf. também p. 2).
Num outro órgão de imprensa, uma reportagem fala do desligamento em massa de centenas de servidores lotados nos maiores hospitais públicos do Estado e reconhece que isso levou a Secretaria Estadual de Saúde (SES) a anunciar a contratação de 365 profissionais para o setor: 225 médicos, aprovados em concurso realizado no ano passado e mais 135 profissionais, que deverão ser contratados em caráter emergencial. Parece que o governo está começando a perceber a gravidade do problema. Deus queira que seja verdade! Até agora falou-se muito, mas não se fez quase nada.
É preciso não só buscar paliativos, mas mudar a concepção de Saúde Pública e reestruturá-la de maneira global, valorizando os profissionais da saúde, dando condições dignas de trabalho e tratando com respeito os usuários do SUS.
A mesma reportagem fala também do pedido de demissão do médico Boaventura Braz de Queiroz, diretor-geral do Hospital de Doenças Tropicais (HDT) por divergências - diz ele - com a atual Superintendência de Controle e Avaliação Técnica (Scats) a respeito da metodologia de trabalho (Cf. O Popular, 08/11/11, p.9).
Enfim, uma nova reportagem do mesmo órgão de imprensa escreve: “A Saúde fraturada”. “A Saúde Pública de Goiás vive sua pior crise, com debandada de médicos e desabastecimento. Governador culpa burocracia e enfatiza necessidade de terceirizar gestão de hospitais” (Ib. 09/11/11, manchete 1ª página; cf. também p. 3-4).
A reportagem, porém, que mais me chocou foi a respeito do Hospital de Doenças Tropicais (HDT). É realmente uma calamidade pública que clama aos céus! É um crime contra a vida do povo! Será que os nossos governantes não percebem isso? Será que não entendem que os problemas da Saúde Pública devem ser considerados “prioridade absoluta” e resolvidos em caráter de urgência urgentíssima?
Vejam só que tragédia! A reportagem afirma: “Médicos denunciam falhas no HDT”. “Falta de materiais básicos, como gaze, agulha e antibiótico, é um dos problemas denunciados por profissionais do HDT. O hospital público apresenta falta de leito. Paciente, que precisa de isolamento, é internado até em corredor” (O Popular, 07/11/11, manchete 1ª página).
Depois do destaque da primeira página, a reportagem descreve detalhadamente a situação e diz: “A falta de materiais, medicamentos e de condições de trabalho para que os profissionais de saúde prestem bom atendimento provoca uma situação de estresse e risco no Hospital de Doenças Tropicais (HDT), referência no Estado para o tratamento de doenças infecto-contagiosas. Por falta de leitos, pacientes que precisam de isolamento, com doenças altamente contagiosas, como tuberculose, catapora e meningite, ficam internados em leitos comuns e corredores” (Ib. p. 5).
Uma médica do HDT, que pediu para não ser identificada, afirma: “Além disso, as condições de trabalho, especialmente dos médicos, são extremamente precárias, comprometendo a qualidade do atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS)”. “Essas condições - continua a médica - expõem os profissionais de saúde e os próprios pacientes” (Ib.).
Outro problema é a falta de médicos diante da enorme demanda de atendimentos de emergência. Sempre segundo a médica, foram feitas várias reclamações para a Secretaria Estadual de Saúde (SES), mas nenhuma providência foi tomada (Cf. Ib.).
O Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego) recebeu também muitas reclamações de profissionais que trabalham no HDT. Leonardo Reis, presidente do Sindicato define a situação do hospital como “gravíssima” e diz: “É uma situação extremamente desconfortável e ameaçadora, é preciso destinar mais recursos para a saúde” (Ib.). O médico manifesta ainda sua preocupação com o processo de transferência da gestão dos principais hospitais estaduais para Organizações Sociais (OS) e afirma: “A terceirização é uma forma especial de privatização” (Ib.). O sindicato dos servidores da Saúde (Sindsaúde) também se manifestou contrário à terceirização ou privatização dos hospitais públicos.
Por que será que os nossos governantes, antes de tomar decisões na área da saúde, não consultam os médicos, os outros profissionais e as lideranças do povo? Talvez, não tenham ainda percebido que a época do autoritarismo já acabou! Senhor governador, a culpa da situação de descaso em que se encontra a Saúde Pública não é da burocracia (um problema que pode ser solucionado), mas da falta de vontade política.
Diante de tudo isso, pergunto: quem vai responder judicialmente pela situação criminosa em que se encontra a Saúde Pública? O Ministério Público Estadual - embora tenha determinado a suspensão dos processos para contratação de Organizações Sociais (que considero positivo) - é ainda muito omisso e não toma as providências que seriam necessárias a respeito da questão da Saúde Pública.   
Tenho certeza que a situação da Saúde Pública mudaria rapidamente se os que ocupam cargos públicos no Executivo, no Legislativo e no Judiciário fossem obrigados por lei - eles/elas e seus familiares - a usarem, durante o exercício do mandato, o Sistema Único de Saúde (SUS). Quem sabe os nossos congressistas se sensibilizem com o sofrimento do povo, apresentem um projeto de lei a esse respeito e o aprovem em caráter de urgência? Mereceriam, pelo menos nesse caso, o nosso aplauso. A esperança nunca morre!


              Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 12/11/11, p. 5



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sábado, 5 de novembro de 2011

Um descaso inadmissível e injustificável

Parece pesadelo! Vejam só que situação deprimente! “Falta até água e luvas no Hugo (manchete). No maior hospital de urgências do Centro-Oeste, os médicos sofrem com falta de luvas cirúrgicas, fios para sutura e até água para lavar as mãos. E a lista de problema do Hugo é maior, conforme admite o governo, que culpa a burocracia. Pior para os pacientes”.
            Nas fotos da reportagem - imagens captadas por celular de médico - aparecem: corredor lotado com pacientes, 4 elevadores quebrados, aparelho de ar condicionado queimado usado como ninho por uma coruja, sala de internação lotada, pia com só uma torneira funcionando, sujeira e falta de material de limpeza. Médico afirma “que problemas podem comprometer resultado das cirurgias” (O Popular, 28/10/11, 1ª página).
            Toda essa situação de descalabro foi denunciada várias vezes. “Denúncias por parte de médicos do Hospital de Urgência de Goiânia (Hugo) são frequentes e se repetem há quase duas décadas. Há 14 anos, o neurocirurgião Paulo Roberto Taveira chegou a abandonar um plantão para se dirigir à polícia, onde deu queixa contra a instituição hospitalar por omissão de socorro. Ele tinha o intuito de se resguardar, uma vez que os pacientes vinham morrendo pela falta de condições de atendimento”. Entra governo, sai governo e a situação continua a mesma ou pior.
Realmente, não dá para acreditar! Trata-se de um descaso do Poder Público inadmissível e injustificável! Quem vai responder judicialmente por essa situação criminosa e pelas mortes acontecidas ou que poderão acontecer em consequência dessa mesma situação?
Se os nossos governantes fossem obrigados a levar seus filhos e familiares doentes para serem atendidos e tratados no Hugo, tenho certeza que encontrariam imediatamente uma saída legal para resolver a situação. Infelizmente, os pobres - em nosso sistema capitalista neoliberal - não têm valor nenhum. São material descartável.
            É inadmissível que em pleno século XXI sejamos obrigados a assistir a um espetáculo tão degradante, tão cruel e tão desumano, que grita por justiça diante de Deus. A situação do Hugo - além de ser inadmissível - é também injustificável. Não adianta inventar desculpas, como o entrave da burocracia. O povo não é bobo! Quantas vezes o governo dispensou a licitação pública, em casos considerados (mesmo que às vezes não fossem) de urgência e emergência. Será que existe algo mais urgente e mais emergencial que a saúde pública e a vida dos pobres? 
            O entrave da burocracia não está sendo usado como argumento para, de forma sutil, justificar a terceirização (leia-se: privatização) da Saúde Pública?  “Na avaliação da Secretaria Estadual de Saúde (SES), a burocracia é o grande entrave para a boa administração de Unidades Públicas como o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). De acordo com a superintendente de Gerenciamento das Unidades Assistenciais de Saúde da SES, Lázara Maria Mundim, há processos - para manutenção e aquisição de material - que chegam a demorar até 530 dias para serem concluídos”. Que absurdo! Que irresponsabilidade! Mais uma vez, não dá para acreditar!
Segundo o secretário estadual da saúde, Antônio Faleiros “a solução para a série de problemas enfrentados pelas Unidades Públicas de Saúde (Hospital Geral de Goiânia - HGG, Materno Infantil, Hospital de Doenças Tropicais - HDT, Hospital de Urgências de Goiânia - Hugo e Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia - Huapa) está no repasse da administração às Organizações Sociais (OS)”. Diz ele: “Não há dúvidas de que, com a administração por meio de OS, a solução e a resposta serão imediatas” (Ib., p. 5). Senhor secretário, será que é realmente esta a solução? Não seria melhor que o Poder Público cumprisse a Constituição Federal, que reza: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (Art. 196).
            É só uma questão de vontade política e de priorizar aquilo que realmente é prioritário: a vida, sobretudo, dos empobrecidos, oprimidos e excluídos do nosso “sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA, 385). Precisamos urgentemente de uma Saúde Pública de qualidade para todos/as e não de “terceirizar” ou “privatizar” a Saúde Pública, enriquecendo, com o dinheiro do povo, empresas particulares, que dizem ser Organizações Sociais (OS) e nem sempre (ou quase nunca) são aquilo que dizem ser. Está na hora de o Poder Público assumir sua responsabilidade em relação à Saúde e não de “lavar as mãos”   
                     Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 04/11/11, p. 7

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
                                                                                                                                                                    E-mail: mpsassatelli@uol.com.br        
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos