sábado, 25 de fevereiro de 2012

Tempo da Quaresma

"Para que toda a humanidade
se abra à esperança de um MUNDO NOVO"
(Oração Eucarística VI-D)

            O Tempo da Quaresma começa na 4ª Feira de Cinzas e se estende até a Celebração da Ceia do Senhor na 5ª Feira Santa. É o tempo de preparação para a Celebração da Páscoa. “Tanto na liturgia quanto na catequese litúrgica esclareça-se melhor a dupla índole do tempo quaresmal que, principalmente pela lembrança ou preparação do Batismo e pela penitência, fazendo os fiéis ouvirem com mais frequência a palavra de Deus e entregarem-se à oração, os dispõe à celebração do mistério pascal” (Concílio Vaticano II. A Sagrada Liturgia - SC, 109).
            O Tempo da Quaresma é um convite permanente à conversão, que é um processo contínuo de mudança de vida. Nesse processo, vivenciamos também “tempos fortes” de conversão, que são “tempos fortes” de graça de Deus. Eles brotam da ação do Espírito Santo e provocam transformações profundas, que levam as pessoas a reorientar a vida, a mudar de direção, a deixar de caminhar numa estrada para andar numa outra e a aderir radicalmente ao projeto de Deus - ao Reino de Deus - que satisfaz plenamente as aspirações do ser humano. “O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam na Boa Notícia (no Evangelho)” (Mc 1, 15).
Em outras palavras, o processo de conversão é o próprio processo de aperfeiçoamento do ser humano como vir-a-ser, como ser de busca permanente dentro do projeto de Deus, que é o seu Reino. “Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5, 48). Esse processo de aperfeiçoamento é histórico, mas aberto ao metahistórico (ao transcendente), ou seja, à plenitude da perfeição (da santidade, da salvação) e da vida, que é o Reino de Deus definitivo.
            O processo de conversão envolve, pois, o ser humano todo e todos os seres humanos, em todas as dimensões: pessoais (corpórea, biopsíquica,  espiritual), sociais (socioeconômica, sociopolítica, socioecológica, sociocultural) e cósmica.
            “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora. E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo. Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? Mas se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8, 22-25).
            Na medida em que a conversão acontece, ela liberta de tudo aquilo que impede a vida: dos pecados pessoais, do pecado social ou estrutural e do pecado do mundo (o Antirreino de Deus). O pecado do mundo inclui o pecado social ou estrutural e os pecados pessoais, mas é mais do que a soma do pecado social ou estrutural e dos pecados pessoais. O pecado social (socioeconômico, sociopolítico, socioecológico, sociocultural) ou estrutural inclui os pecados pessoais, mas é mais do que a soma dos pecados pessoais. “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).
A Igreja, diz o Documento de Aparecida (DA), depois de constatar que "muitas das estruturas atuais geram pobreza" (501) e falar por isso de “um sistema econômico iníquo” (385), denuncia as “situações de pecado" (95), as “estruturas de pecado” (92, 532), as “estruturas de morte" (112). A Igreja quer colaborar "com outros organismos ou instituições para organizar estruturas mais justas nos âmbitos nacionais e internacionais".
Afirma que "é urgente criar estruturas que consolidem uma ordem social, econômica e política na qual não haja iniquidade e onde haja possibilidades para todos" (384). Os cristãos e as cristãs devem contribuir "para a transformação das realidades e para a criação de estruturas justas segundo os critérios do Evangelho" (210).
Podemos, portanto, afirmar que a conversão - como processo contínuo de mudança de vida - passa necessariamente pela conversão das pessoas (conversão pessoal), pela conversão da sociedade ou das estruturas (conversão social ou estrutural) e pela conversão do mundo (conversão cósmica).
            Enfim, “cantar a Quaresma é cantar a dor que se sente pelo pecado do mundo, que, em todos os tempos e de tantas maneiras, crucifica os filhos de Deus e prolonga, assim, a Paixão de Cristo (CNBB. Guia Litúrgico-Pastoral. Edições CNBB, 2ª Edição, 2007, p. 86). Tudo isso, porém, com a certeza da ressurreição, com a certeza da vitória. “Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos Salvarás!” (Canto pascal).

A Campanha da Fraternidade de cada ano explicita o compromisso dos cristãos e cristãs na vivência concreta da Quaresma. O tema da Campanha da Fraternidade 2012 é: “Fraternidade e Saúde Pública” e o lema: “Que a Saúde se difunda sobre a Terra” (cf. Eclo 38, 8). Com a Campanha da Fraternidade 2012, a Igreja deseja SENSIBILIZAR a todos e a todas “sobre a dura realidade de irmãos e irmãs que não têm acesso à assistência da Saúde Pública condizente com suas necessidades e dignidade”; REFLETIR sobre essa realidade, “que clama por ações transformadoras” e MOBILIZAR “por melhoria no Sistema Público de Saúde”. “A conversão pede que as estruturas de morte sejam transformadas” (Texto-Base, p. 9 e 12). Que todos e todas vivamos intensamente a Quaresma e a Campanha da Fraternidade!
 Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 24/02/12, p. 04

22/02/12



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sete anos do “Sonho Real”:

Sete anos do “Sonho Real”:
até quando a impunidade?

“Apesar da lei, do poder e das sentenças dos juízes, eu creio na Justiça”
(Geraldo Neiva, Juiz de Direito - www.gerivaldoneiva.com - 23/01/12)

Dia 16 de fevereiro de 2005. Sete anos se passaram. O “Sonho Real”, que - em outras palavras - é a Utopia do “Bem-Viver”, continua vivo. “Fazendo a memória”, ou seja, tornando presente o que aconteceu na Ocupação “Sonho Real”, queremos fortalecer a esperança de que um dia tamanha barbárie nunca mais irá acontecer.
Infelizmente, como prova o recente despejo (22/01/12) da Ocupação Pinheirinho em São José dos Campos - SP (muito parecido com o despejo da Ocupação “Sonho Real”), esse dia ainda não chegou. Precisamos apressar esse dia. Que a união dos pequenos e de todos os que lutam por um mundo novo “apresse o dia por nós esperado: de irmãos libertados de toda injustiça, de todo pecado” (Campanha da Fraternidade 1987 - Refrão do Canto de Comunhão).
Relembremos os principais fatos do despejo da Ocupação “Sonho Real. De 6 a 15 de fevereiro de 2005, de 0 às 6h, a Polícia Militar do Estado de Goiás começou a ação de reintegração de posse, realizando a chamada "Operação Inquietação", que foram dez dias de tortura física e psicológica coletiva. Cercou a área com viaturas, impediu a entrada e a saída de pessoas e cortou o fornecimento de energia elétrica. Com as sirenes ligadas, com o barulho de disparos de armas de fogo, com a explosão de bombas de efeito moral, gás de pimenta e lacrimogêneo, a Polícia Militar promoveu o terror entre os Moradores da Ocupação. Nenhuma lei permite uma Operação noturna criminosa como essa. Até hoje, temos crianças traumatizadas.
No dia 16 de fevereiro de 2005, a Polícia Militar do Estado de Goiás realizou uma verdadeira Operação Militar de Guerra, cinicamente chamada "Operação Triunfo". Numa hora e quarenta e cinco minutos, cerca de 14.000 pessoas foram despejadas de suas moradias de maneira violenta, truculenta e sem nenhum respeito pela dignidade da pessoa humana. A Operação Militar produziu 2 vítimas fatais (Pedro e Vagner), 16 feridos à bala, tornando-se um desses paraplégico (Marcelo Henrique) e 800 pessoas detidas (suspeita-se com razão que o número dos mortos e feridos seja bem maior). Esses crimes continuam até hoje impunes.
Nessa Operação Militar criminosa, ilegal e imoral, todos os Direitos Humanos fundamentais foram gravemente violados: o Direito à Vida, o Direito à Moradia, o Direito ao Trabalho, o Direito à Saúde, o Direito à Alimentação e à Água, os Direitos da Criança e do Adolescente, os Direitos da Mulher, os Direitos dos Idosos e os Direitos das Pessoas com necessidades especiais.
Depois do despejo forçado e violento, e depois de passar uma noite acampadas na Catedral de Goiânia (onde aconteceu também o velório de Vagner e Pedro num clima de muita indignação e sofrimento), cerca de mil famílias (aproximadamente 2.500 pessoas), que não tinham para onde ir, ficaram alojadas nos Ginásios de Esportes dos Bairros Novo Horizonte e Capuava (por mais de três meses) e, em seguida, no Acampamento do Grajaú (por mais de três anos) como verdadeiros refugiados de guerra. Nesse período, diversas pessoas - sobretudo crianças e idosos - morreram em consequência das condições subumanas de vida, vítimas do descaso do Poder Público do Estado de Goiás e da Prefeitura de Goiânia.
No dia 24 de fevereiro/05 - oito dias depois da Operação “Triunfo” - a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República criou uma Comissão Especial com o objetivo de apurar as violações aos Direitos Humanos na Operação de reintegração de posse, realizada por Policiais Militares no Parque Oeste Industrial em Goiânia, Estado de Goiás, no dia 16 de fevereiro do mesmo ano (Cf. Resolução N. 1, DOU - Seção 2, 24/02/05).
A Comissão analisou os três requisitos que a Emenda Constitucional, N. 45, considera necessários para a “federalização” (Incidente de Deslocamento de Competência para a Justiça Federal - IDC) dos crimes contra os Direitos Humanos: primeiro: que haja grave violação dos Direitos Humanos; segundo: que o fato praticado seja passível de sujeitar a União à responsabilidade internacional, por obrigações anteriormente assumidas em tratados e em plena vigência no país; terceiro e último: que exista algum comprometimento institucional viciado, que afete a estrutura e as relações independentes dos órgãos públicos estatais, ocasionando a necessidade de ruptura no pacto federativo para se restaurar a normalidade institucional e assegurar a proteção dos Direitos Humanos.
A Comissão reconheceu a existência do primeiro e do segundo requisitos, mas não reconheceu a existência do terceiro. Portanto, no dia 10 de abril/06, o relator da Comissão, Procurador da República Cláudio Drewes José de Siqueira - apoiado em seu parecer pelos demais membros da Comissão - conclui: “Sugiro o não deslocamento da competência para Justiça Federal do caso Parque Oeste Industrial, no que se refere à apuração e ao julgamento dos crimes ocorridos na desocupação, por não restarem preenchidos todos os requisitos constitucionalmente exigidos, recomendando, no entanto, pela continuidade da observação pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana dos trabalhos da Justiça Estadual” (Cf. Relatório da Comissão Especial).
O parecer da Comissão foi (e ainda continua sendo) uma grande decepção para todos os que lutam pela Justiça e pelos Direitos Humanos. Como pode a Comissão dizer que não existe “comprometimento institucional viciado, que afete a estrutura e as relações independentes dos órgãos públicos estatais” (terceiro requisito), se foram justamente os “órgãos públicos estatais” que praticaram o crime? Independentemente da constitucionalidade ou não da liminar de reintegração de posse da Juíza Substituta Dra. Grace Corrêa Pereira (esse é outro assunto que poderia ser discutido), a maneira como a liminar foi cumprida (as cínicas Operações “Inquietação” e “Triunfo”) foi claramente inconstitucional, antiética e criminosa. Não é possível que os membros da Comissão Especial não tenham enxergado isso. Até um cego enxergaria. Vale o ditado: não existe pior cego de quem não quer enxergar.
Diante de fatos tão evidentes, o não reconhecimento por parte da Comissão Especial do terceiro requisito - exigido pela Emenda Constitucional, N. 45, para a “federalização” das investigações - dá a impressão de um conluio entre o Estado e a Comissão e levanta suspeitas (dúvidas e interrogações) a respeito da lisura do procedimento investigativo da mesma.
Se foi a Justiça Estadual que autorizou essas Operações criminosas (a liminar poderia ter sido cumprida de outro jeito e depois de preparar um lugar digno para os moradores), é evidente que ela não tem as mínimas condições para investigar e julgar a si mesma e o Governo do Estado de Goiás. É uma questão de lógica.
No caso do despejo da Ocupação “Sonho Real”, trata-se, antes de tudo, de investigar e julgar as próprias Operações “Inquietação” e “Triunfo” como Operações criminosas, enquanto tais. Independentemente dos abusos ou excessos cometidos por alguns Militares (que também devem ser investigados e julgados), essas Operações são um crime planejado e legalmente autorizado pela Justiça - melhor seria dizer - (in)Justiça) Estadual. O despejo de 14.000 pessoas numa hora e 45 minutos (sem saber para onde levar essas pessoas) é uma violência e uma iniquidade humana premeditada, claramente inconstitucional e antiética
Portanto, nesse caso, o criminoso é o Estado de Goiás, com a conivência do Judiciário e da Prefeitura de Goiânia. Quem deve responder por ele é o então Governador do Estado de Goiás, Marconi Perillo e seus auxiliares imediatos, o Secretário da Secretaria de Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás, Jônathas Silva e o Comandante Geral da Polícia Militar do mesmo Estado, Cel. Marciano Basílio de Queiroz. São eles que - como já disse em outros escritos - devem ser processados e julgados. Ora, pela lógica, se o criminoso é o Estado de Goiás, ele não vai investigar a si mesmo. Cai, assim, por terra o parecer da Comissão Especial a respeito do terceiro requisito, acima mencionado.
A mesma coisa pode ser dita do recente despejo da Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos - SP.
Enfim, a meu ver (falo como alguém que - afetiva e efetivamente solidário com os Sem-Teto - experienciou e viveu de perto o bárbaro despejo de Goiânia), a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República - presidida atualmente pela Ministra, Professora Maria do Rosário Nunes - tem a obrigação constitucional e, sobretudo, ética de “federalizar” esses dois crimes bárbaros: o do Parque Oeste Industrial em Goiânia - GO e o do Pinheirinho em S. José dos Campos - SP.
São crimes que clamam por justiça diante de Deus. Um outro mundo é possível e urgente. Lutemos para que ele aconteça. A esperança nunca morre.

Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 16/02/12, p. 04
http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120216&p=20

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra
E-mail: mpsassatelli@uol.com.br


http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=64434


http://www.mtst.org/index.php/noticias/203-quem-ganhou-com-o-massacre-do-pinheirinho.html

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Moradores de rua, comentando o relatório da visita à "Casa da Acolhida Cidadã"

Moradores de rua
Comentando o Relatório da Visita
à “Casa da Acolhida Cidadã”

No dia 28 de dezembro de 2011, uma Comissão - formada por Eduardo Mota, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), Elias Vaz, Vereador Presidente da Comissão da Criança e do Adolescente da Câmera Municipal de Goiânia (articuladores) e mais cinco pessoas representantes de cinco Instituições fizeram uma visita à “Casa da Acolhida Cidadã”, na Avenida Minas Gerais, esquina com a Senador Jaime, número 839, Setor Campinas. A visita foi motivada “por denúncias de acolhidos e populares, e ainda por dados coletados em loco no dia 19/12/2011”. Teve como objetivo “verificar as condições de atendimento da Unidade “Casa da Acolhida Cidadã”, bem como aferir dados apresentados em denúncias”.
Segundo a Comissão, no momento da visita à Unidade foi constatada a presença dos seguintes profissionais: 2 Educadores Sociais, 2 Técnicas Sociais (1 Pedagoga e 1 Psicóloga) e 1 Técnico em Enfermagem. Os profissionais informaram à Comissão visitante que, naquela noite, estavam presentes na Unidade 182 acolhidos: 98 na Ala de Solteiros, 74 (sendo 29 mulheres) na Ala de Famílias, 23 Crianças e Adolescentes, e 10 Idosos
A partir da escuta dos acolhidos e dos profissionais da Unidade, e da própria constatação em loco, a Comissão - em seu Relatório - identificou diversas inadequações e irregularidades. Cito as principais.
A respeito da Estrutura física: “A maioria dos banheiros está danificada e em más condições de uso. (...) Na ala que abriga as famílias, há um único banheiro que é usado indistintamente por homens, mulheres e crianças. A quantidade de camas nos quartos é insuficiente, (...) sendo vários lençóis em más condições de conservação e uso. A ausência de berços na ala de família dificulta a acomodação de bebês e crianças menores. (...) Na cozinha não há tela de proteção nas janelas, o que facilita a entrada de insetos no recinto. (...) Há apenas um elevador para os cerca de 180 abrigados e funcionários (...). Há reduzida acessibilidade, agravada pelo fato de que idosos e deficientes físicos com dificuldades motoras estão alojados no segundo andar. O mau cheiro nos banheiros, quartos e corredores é insuportável. Há também muito mofo e infiltrações além de portas fora de condições de uso. Foram identificadas varias tomadas e bocais de lâmpadas com fiação exposta e ao alcance de crianças”.
A respeito da Alimentação: “Foram encontrados vários alimentos vencidos e outros com data de vencimento próxima, além de verduras em mau estado de conservação e dispostas em local inadequado. (...) A alimentação servida é de baixa qualidade nutricional, com rotineira ausência de carne e quantidade insuficiente de alimentos. (...) As mães relataram que a quantidade de leite servida às crianças, em especial no horário noturno, é insuficiente para a alimentação adequada das crianças, já tendo sido por vezes necessária a adição de água para completar o volume de leite das mamadeiras”.
A respeito das condições de Higiene e Saúde: “(...) Chama atenção o fato de que a água utilizada nos galões disponíveis para consumo é retirada diretamente das torneiras sem filtragem. Há apenas um bebedouro e dois copos plásticos por andar para utilização de todos os moradores. (...) A casa acolhe pessoas doentes com várias patologias, soro positivo, tuberculose e outras doenças contagiosas. (...) Não foi possível identificar, mesmo nos quartos ‘reservados à enfermagem’, os cuidados de higiene necessários ao atendimento desse público. Percebemos quartos e lençóis sujos e sem a devida atenção sanitária. Foram encontrados idosos com dificuldade de locomoção e incontinência urinária sem que houvesse um acompanhamento diferenciado dos mesmos ou pelo menos o uso de fraldas geriátricas”.
A respeito da Equipe Técnica e de Educadores: “O número de profissionais encontrados na Unidade durante a visita é insuficiente para garantir a adequada atenção ao quantitativo de pessoas acolhidas. (...) Os relatos feitos pelos usuários evidenciaram a ausência de proposta pedagógica para o atendimento. Não foi percebida a construção de Plano Individual de Atendimento (PIA), instrumental de extrema importância para o acompanhamento de uma população com este grau de fragilidade”.
Considerando, pois, as denúncias de acolhidos e populares, os relatos de profissionais, o direito à segurança alimentar e nutricional como o próprio direito à vida (cf. Relatório Brasileiro para a Cúpula Mundial da Alimentação, Roma, novembro 1996) e as condições observadas em loco, a Comissão - em seu parecer final - afirma:
“Entendemos como inadmissível que pessoas sob a proteção do Município, passem pelo tipo de desassistência identificada na visita realizada por este colegiado.
Solicitamos da Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS) ações imediatas no atendimento as demandas de alimentação, higiene e segurança, (...) bem como a apresentação de proposta de completa estruturação dos serviços prestados pela ‘Casa da Acolhida Cidadã’.  
(...) Indignados em face das afrontas e desrespeito aos Direitos Humanos de crianças, adolescentes, homens e mulheres cometidas pela SEMAS, esta Comissão vem (...) DENUNCIAR os fatos aos órgãos e instâncias competentes” (Relatório da Visita à Casa da Acolhida Cidadã, 4 de janeiro de 2012).
Infelizmente, por tudo o que a Comissão relata, os moradores de rua (crianças, adolescentes, adultos, idosos) não são tratados como pessoas humanas, mas como “lixo humano descartável” e a “Casa da Acolhida Cidadã” (repugna-me chamá-la de “Cidadã”) tornou-se um “depósito de lixo humano descartável”. É realmente um espetáculo deprimente, uma violência permanente e uma imoralidade pública.
O que falta é a implantação de políticas públicas de qualidade - “humanas” e, ao mesmo tempo, eficientes - em benefício dos moradores de rua, excluídos e rejeitados pela nossa sociedade hipócrita. Isso não parece ser prioridade para os nossos governantes.
Diante dessa situação degradante e antiética, que viola todos os direitos humanos, as Igrejas, os Movimentos Sociais Populares, os Sindicatos autênticos de Trabalhadores/as e todos/as os que acreditam num “outro mundo possível”, precisam se unir e lutar juntos. Para os/as que - como Jesus de Nazaré - fizeram a opção pelos empobrecidos e oprimidos, a esperança já é certeza de vitória. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18, 20).

P.S.: Leia também a Nota de esclarecimento: “Operação Salus”: um lembrete e uma pergunta,
DM - Opinião Pública, 09/02/12, p. 7: http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120209&p=23

                Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 10/02/12, p. 02


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra









"Operação Salus": Um lembrete e uma pergunta

“Operação Salus”: um lembrete e uma pergunta

Sem querer polemizar - pois a liberdade de expressão e um valor da democracia - depois de ler o artigo “Operação Salus - Resposta ao frei Marcos Sassatelli” do tenente-coronel Anésio Barbosa da Cruz Junior, publicado no Diário da Manhã, dia 6 deste mês de fevereiro/12, p. 6 (como reação ao meu artigo “Moradores de Rua - Comentando a Nota de Repúdio à Operação Salus”, publicado no mesmo Jornal - Caderno “Opinião Pública”, dia 4 de fevereiro/12, p.2), torna-se necessário esclarecer a opinião pública por meio de um lembrete e de uma pergunta:
  1. Lembrete: A “Nota de Repúdio à Operação Salus” foi assinada pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente - CMDCA, em conjunto com 22 Entidades, com as quais eu sou solidário. Algumas dessas Entidades são de reconhecimento público e notório, como: o próprio CMDCA; a Comissão da Criança e do Adolescente da Câmara Municipal de Goiânia; o Forum Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente - FDCA-GO; a Rede de Educação Cidadã - RECID-GO; e a Pontifícia Universidade Católica - PUC-GO (entre outras). No Artigo, eu apresentei o conteúdo da Nota e fiz alguns comentários.
  2. Pergunta: Será que todas essas Entidades e todos os seus membros confundem “alhos com bugalhos”, padecem de “desconhecimento inescusável”, acreditam que “o assunto é malhar a polícia” e têm “uma vista embaçada por preconceitos”? (Artigo do tenente-coronel). A resposta cabe à sociedade.
È só isso o que eu tinha a dizer.
                              
                           Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 09/02/12, p. 07
                             http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120209&p=23

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
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Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

Moradores de rua, comentando a nota de repúdio à Operação Salus

Moradores de rua
Comentando a Nota de Repúdio à “Operação Salus”

A Constituição Federal lembra que o Estado Democrático é “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias” (Preâmbulo).

No dia 10 de janeiro/12, a Polícia Militar de Goiás - em parceria com a Guarda Municipal de Goiânia e a Secretária Municipal de Assistência Social (SEMAS) - realizou em Goiânia a “Operação Salus” (Salvação), que foi comandada pelo Coronel Edson Costa Araujo, Comandante da Polícia Militar, supervisionada pelo Dr. João Furtado de Mendonça Neto, Secretário da Secretaria de Segurança Pública e Justiça (SSPJ-GO), com a aquiescência do Dr. Marconi F. Perillo Junior, Governador do Estado de Goiás.
A “Operação Salus”, com 35 viaturas, 2 ônibus e 150 homens fortemente armados, retirou - segundo a própria Polícia Militar - aproximadamente 110 pessoas das ruas de Goiânia, moradores de rua e/ou usuários de drogas (fazendo referência à cidade de São Paulo, falou-se de combate à “cracolândia”, instalada em Goiânia) - e foram levados ao Centro de Triagem da PM para serem cadastrados e identificados.
Os responsáveis pela “Operação Salus”, com ufania e até usando o nome de Deus em vão, falam que ela foi um sucesso, mas a realidade é outra.
Em pleno século XXI, deparamo-nos ainda com situações, cenas e comportamentos repressivos, inspirados numa “ideologia nazista”, que são uma violação permanente dos direitos humanos fundamentais e revelam o atraso cultural e ético de nossa sociedade.
No dia 16 de janeiro/12, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) tornou pública a Nota de Repúdio à “Operação Salus”, assinada por Eduardo de Carvalho Mota, Conselheiro Presidente do CMDCA, em conjunto com representantes de 22 Instituições, Redes e Fóruns.
(Vejam a íntegra da Nota e o nome das Entidades que assinam a Nota em conjunto com o CMDCA: www.cmdca.go.gov.br/noticia.php?co_seq_noticia=88). Em cache
A Nota expressa o sentimento de indignação do CMDCA e demais Entidades. Lembra que a Constituição Federal - intitulada de Constituição Cidadã - “objetiva a democratização das relações na sociedade brasileira, baseada nos princípios da dignidade humana e do respeito aos direitos fundamentais de todas as pessoas” e denuncia que estes princípios foram desrespeitados na “Operação Salus”.
Em seguida a Nota diz: “A cidade de Goiânia e o Brasil vêm, ao longo dos anos, repetidamente vivenciando situações como estas. O que se ganhou com isso? Nada! Recurso público desperdiçado, mal aplicado e não houve mudança no cenário. As pessoas continuam em situação de vulnerabilidade e para esconder ou melhorar a imagem de “incompetentes” dos poderes constituídos, pensa-se em ações de repressão à tão sobrepujada e desesperançada população. O que presenciamos são casos de limpeza étnica, faxina social, racismo ambiental, evidentes no fato de tratar os desfavorecidos como bandidos ou qualquer outra adjetivação”.
Continua ainda a Nota: “A simples “remoção” de crianças, adolescentes, mulheres, adultos e idosos em situação de rua, por meio da discriminatória “Operação Salus”, certamente não resolverá os graves problemas sociais em foco, cuja solução somente virá com a implantação de políticas públicas eficientes, ainda longe de serem contempladas no Município de Goiânia e nos demais Municípios de Goiás. A precariedade e a ineficiência das políticas públicas municipais de atendimento a crianças, adolescentes, mulheres, adultos e idosos em situação de rua vem sendo constatada há tempos, situação que se agravou após a extinção da Sociedade Cidadão 2000 e a retirada de mais de 30 milhões de reais da política de assistência social nos últimos anos. Situações que motivaram a mobilização de toda a Rede de Atendimento, cobrando e sugerindo providências, conforme documento já enviado aos mesmos, datado de abril de 2010 e aprovado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA)”.
A Nota constata, pois, uma realidade, que demonstra o descaso do Poder Público Municipal: “O número insuficiente de profissionais capacitados para atendimento e a falta de uma política pedagógica, a ausência de locais apropriados para acolhimento dessa população a exemplo da Casa da Acolhida Cidadã, fato amplamente divulgado pela mídia, bem como a desestruturação dos Conselhos Tutelares são alguns dos fatores que retratam a ineficiência das políticas públicas na área do atendimento a crianças, adolescentes, mulheres, adultos e idosos em situação de rua, o que leva a mobilizar outros setores da sociedade (Segurança Pública, empresários, etc.) na busca de soluções que reduzam a presença desta população nas ruas, através de ações não tipicamente vinculadas às suas atividades”.
A Nota recomenda à Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás e à Polícia Militar que - como pede a Constituição Federal - pensem a Política de Segurança Pública não de forma isolada, mas de forma articulada com vários segmentos do Estado, e afirma: “É papel da Assistência Social e não da Segurança Pública cuidar da população em situação de vulnerabilidade. A população de rua vive em situação de vulnerabilidade e tem seus direitos mais básicos violados; não deve ser a polícia mais um ente violador. A Segurança Pública do Estado de Goiás deve se preocupar em seguir a Constituição Federal, garantir efetivamente a segurança do cidadão - fundamentada nos direitos humanos essenciais da pessoa, onde a liberdade é um princípio e não a exceção - e deixar de criminalizar as diferenças sociais, políticas, econômicas e culturais”.
Enfim, a Nota conclui afirmando: “Faz-se urgente, por parte da Secretária Municipal de Assistência Social (SEMAS), a implementação de uma política municipal eficaz no atendimento a crianças, adolescentes, mulheres, adultos e idosos em situação de rua”.
A cidade de Goiânia - como diz a Secretária da SEMAS Célia Valadão - “é uma metrópole rica, que cresce rápido e atrai muita gente de outras cidades e Estados” (O Popular, 22/01/12, p. 2), mas, infelizmente, ela é também uma das cidades mais desiguais (falou-se até, da mais desigual) do Brasil, da América Latina e do mundo. É uma das cidades com maior concentração ou pior distribuição de renda. Aqui está a iniquidade estrutural ou a injustiça estrutural (pecado social) goianiense.
“Do ponto de vista ético, moral, social e econômico, não há nada mais insustentável, danoso, antiético, vergonhoso e degradante em uma sociedade do que a desigualdade. Ela está na origem de todos os problemas que afetam a qualidade de vida da população” (Oded Grajew. Cidade desigual. Folha de S. Paulo, 29/01/12, p. A3).
Por que o Poder Público Municipal de Goiânia não começa a exigir uma maior distribuição de renda, cobrando impostos sobre as grandes fortunas (acumuladas com a exploração dos trabalhadores/as) e a implementar políticas públicas, com medidas e programas socioeducativos que sejam realmente “humanos” e, ao mesmo tempo, eficientes, em benefício dos moradores de rua? É isso o que todos/as nós esperamos.

     Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 04/02/12, p. 02


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra

Saúde Pública

Saúde Pública:
uma situação de violência permanente

Deparamo-nos, hoje, com situações sociais, que são estruturalmente imorais, revelam - como já disse outras vezes - a iniquidade do sistema capitalista neoliberal, violam todos os direitos humanos fundamentais e clamam por justiça.
Uma dessas situações é o caos em que se encontra a Saúde Pública. Os governantes fazem muitos discursos bonitos e prometem mil maravilhas, mas, na realidade, não muda nada e a Saúde Pública continua sendo uma violência permanente contra a vida do povo.
Vejam algumas manchetes da imprensa, que falam por si mesmas e deixam a todos os que têm um mínimo de sensibilidade humana profundamente indignados.
No mês de outubro/11: “Saúde. Médicos apontam falha no Hugo. Falta material básico, como luvas e fios para sutura, no maior Hospital de Urgências da Região Centro-Oeste” (O Popular, 28/10/11, p. 5). “Câncer. Goiás na berlinda do SUS. Relatório TCU aponta que 45,9% dos pacientes não conseguem tratamento na rede pública” (Ib., 30/10/11, p. 7).
No mês de novembro/11: “A saúde fraturada. A Saúde Pública de Goiás vive sua pior crise, com debandada de médicos e desabastecimento” (Ib., 09/11/11, 1ª página). “Crise no velho sistema de saúde. Família de líder comunitário do Setor Real Conquista aciona Ministério Público para conseguir vaga em UTI. Crise no Ciams do Novo Horizonte reflete a situação global do caos na saúde que, atualmente, ocorre em Goiânia” (Diário da Manhã, Força Livre, 12/11/11, p. 1).
No mês de dezembro/11: “Crise na saúde. Agora foi a vez do Hemocentro. Unidade dispensou doadores ontem (16 de dezembro) por falta de tubos para coletar sangue” (O Popular, 17/12/11, 1ª página). “Crise na saúde. O Popular acompanha atendimento em Hospitais públicos no fim de semana. Um plantão de problemas” (Ib., 19/12/11, 1ª página). “Crise no atendimento. Famílias das vítimas atribuem mortes a descaso no atendimento” (Ib., 29/12/11, p. 4), como falta de ambulâncias e equipamentos estragados.
No mês corrente de janeiro de 2012: “Saúde. Plantão no Huapa acaba na polícia”. “Bombeiros denunciaram ontem de madrugada (1º de janeiro) um médico do Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia (Huapa), que teria se recusado a atender uma vítima de acidente de trânsito levado à unidade por eles. È o segundo caso de negligência no atendimento no Huapa em menos de uma semana. Desta vez, segundo a denúncia, o médico estava dormindo” (Ib., 02/01/12, 1ª página).
“Materno Infantil fecha 6 vagas (das 16 vagas pediátricas e neonatais existentes) na UTI”. “O Hospital Materno Infantil (HMI), referência no atendimento de casos graves de gestantes, recém-nascidos e crianças, reduziu o número de vagas nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) por causa do escasso número de médicos. Além disso, cirurgias foram adiadas e o sistema de classificação de risco dos pacientes suspenso, devido à falta de profissionais” (Ib., 06/01/12, 1ª página). “Materno Infantil. Crise derruba diretor. (...) O governo estadual mandou afastar do comando da unidade o médico Cezar Gonçalves Gomes e colocou em seu lugar o neurocirurgião Francisco Dias Azeredo Bastos, diretor clínico do Hospital Santa Mônica e que estava também lotado no Hugo” (Ib., 07/01/12, 1ª página).
“Goiânia tem mais usuários do SUS do que habitantes”. “Cerca de 1,8 milhão de cartões do Sistema Único de Saúde (SUS) foram emitidos em Goiânia, que tem 1,2 milhão de habitantes. Excesso é resultado de um contingente de moradores do interior do Estado que viaja para a capital em busca de atendimento, que é negligenciado para eles em suas cidades de origem” (Ib., 09/01/12, 1ª página). Isso mostra que a situação da Saúde Pública no interior do Estado é pior do que a de Goiânia. “Crise na saúde. Cresce fila por cirurgias eletivas”. “Só para internações de emergência (reparem: de emergência) são mais de 200 pacientes à espera. Diretor credita o fato ao aumento da demanda e à perda na prestação de serviços” (Ib., 10/01/12, p. 5).
Infelizmente, em nível nacional, a situação da Saúde Pública não é muito diferente da do Estado de Goiás.
Diante de tudo isso, pergunto: Quem vai responder judicialmente por essa situação de violência permanente contra a vida do povo, que clama por justiça diante de Deus?
A Constituição Federal afirma: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (Art. 196). No caso, pois, de crianças e adolescentes, o direito à saúde deve ser assegurado com “absoluta prioridade” (Art. 227)
Por que será que o Poder Público não cumpre a Constituição Federal? Não é isso um crime? Os responsáveis não devem ser processados, julgados e punidos como criminosos? Para justificar o descaso com a Saúde Pública, os governantes inventam muitas desculpas (a mais comum é a questão da burocracia), mas o que realmente falta é só uma coisa: vontade política.
Se os governantes e os políticos - no exercício de seu mandato - fossem obrigados por lei a utilizar os serviços da Saúde Pública, tenho certeza que a situação mudaria imediatamente. Por que não fazer a experiência?
Concordo - embora com algumas ressalvas - com a análise que, há poucos dias, o médico Marcelo Caixeta fez da crise na Saúde Pública, mas discordo da proposta que ele - e outros também - apresentam como sendo a solução para a crise. “Organizações Sociais - diz o médico - são a melhor solução para a crise na saúde” (Diário da Manhã, OpiniãoPública, 09/01/12, p. 3). A meu ver, a chamada terceirização da Saúde Pública, via Organizações Sociais (OSs), é uma forma disfarçada de privatização. O governo - que tem outros interesses prioritários - pretende lavar as mãos e se eximir de suas responsabilidades em relação à saúde. Na sociedade, os serviços essenciais, como é o caso da saúde, devem ser públicos. Não podemos permitir que empresas privadas - mesmo tendo o nome bonito de “Organizações Sociais” - se enriqueçam, às custas do sofrimento do povo.
Graças a Deus, na vida pública, temos ainda muitas pessoas honestas, que, com abnegação e amor, dedicam sua vida e trabalho à busca do bem comum, que é o bem de todos/as, principalmente dos mais necessitados/as. O que os governos precisam fazer é banir da vida pública a barganha política do “toma lá dá cá” - que é uma prática interesseira e totalmente antiética - e aproveitar as pessoas honestas para cargos de responsabilidade, sobretudo na administração da Saúde Pública, disponibilizando os recursos materiais necessários para o bom desempenho de suas funções.
O próprio médico Marcelo Caixeta, em seu escrito, reconhece que, na Saúde Pública, “problemas de manutenção e gerenciamento poderiam ser resolvidos se os governos quisessem” e que - mesmo fazendo duras críticas aos servidores públicos - “há muitas e honrosas exceções” (Ib.).
A Campanha da Fraternidade 2012 tem como tema “Fraternidade e Saúde Pública” e como lema “Que a saúde se difunda sobre a terra” (Cf. Eclo 38,8). Ela “deseja sensibilizar a todos/as sobre a dura realidade de irmãos e irmãs que não têm acesso à assistência de Saúde Pública condizente com suas necessidades e dignidade. É uma realidade que clama por ações transformadoras. A conversão pede que as estruturas de morte sejam transformadas” (Texto-Base, p. 9). A vida em primeiro lugar!



Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 27/01/12, p. 06


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra



Tempo Comum

Tempo Comum
“Quem diz que está com Jesus,
deve comportar-se como Ele se comportou” (1Jo 2, 6)

O Tempo Comum é o mais extenso do Ano Litúrgico e se compõe de duas partes. A primeira parte começa no dia seguinte à celebração da festa do Batismo do Senhor e se estende até a terça-feira antes do início da Quaresma. A segunda parte começa na segunda-feira depois do domingo de Pentecostes e termina antes das Primeiras Vésperas do 1º domingo do Advento (Cf. Normas sobre o Ano Litúrgico e o Calendário – NALC, 44).
No Ano Litúrgico, o Tempo Comum “nos possibilita desfrutar de aspectos da vida e da missão de Jesus e seus discípulos, que não são contemplados nos Tempos do Natal e da Páscoa. Cada domingo do Tempo Comum tem o sabor de ‘Páscoa semanal’” (CNBB. Guia Litúrgico Pastoral. 2ª edição. Edições CNBB, Brasília, p. 88).
“A tônica dos 33 (ou 34) domingos do Tempo Comum é dada pela leitura contínua do Evangelho. Cada texto do Evangelho proclamado nos coloca no seguimento de Jesus Cristo, desde o chamamento dos discípulos até os ensinamentos a respeito do fim dos tempos. Neste Tempo, temos também as festas do Senhor e a comemoração das testemunhas do mistério pascal (Maria, Apóstolos e Evangelistas, demais Santos e Santas)” (Ib., p. 13).
Ora, se o Tempo Comum “nos coloca no seguimento de Jesus”, podemos perguntar-nos: o que significa ser seguidores e seguidoras de Jesus hoje, no mundo em que vivemos?
A meu ver, ser seguidores e seguidoras de Jesus (discípulos missionários e discípulas missionárias), significa:
1.    Conhecer experiencialmente o Projeto de Deus a respeito do Ser humano e do Mundo, que é o Reino de Deus;
2.    Aderir vivencial e conscientemente a esse Projeto;
3.    Comprometer-se com ele, fazendo-o acontecer na história, que é um processo contínuo, dinâmico, contraditório e aberto à transcendência, ou seja, à plenitude do Reino de Deus, à plenitude da vida e da felicidade.
“Vendo Jesus que ia passando, João Batista apontou: ‘Eis aí o Cordeiro de Deus’. Ouvindo essas palavras os dois discípulos (que estavam com João Batista) seguiram a Jesus. Jesus virou-se para trás e, vendo que o seguiam, perguntou: ‘O que é que vocês estão procurando?’ Eles disseram: ‘Mestre, onde moras?’ Jesus respondeu: ‘Venham, e vocês verão’. Então eles foram e viram onde Jesus morava. E começaram a viver com Ele naquele mesmo dia” (Jo 1, 36-39). O compromisso de seguir Jesus brota sempre do testemunho de alguém (nesse caso de João Batista) e da experiência do encontro com o próprio Jesus.
Comprometer-se, pois, com o Projeto de Deus, fazendo-o acontecer na história, significa:
3.1.        Inserir-se na realidade, isto é, estar "por dentro", ter uma “consciência crítica”.
"Como Cristo, por sua Encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos Seres humanos com quem conviveu; assim também deve a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja - AG, 10).
3.2.        Interpretar a realidade e os acontecimentos à luz do Evangelho e, ao mesmo tempo, o Evangelho à luz da realidade e dos acontecimentos.
"Para desempenhar sua missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre os significados da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (Concílio Vaticano II, A Igreja no mundo de hoje - GS, 4)..
“Como discípulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os 'sinais dos tempos' à luz do Espírito Santos, para nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e 'para que a tenham em  plenitude' (Jo 10,10)" (Documento de Aparecida - DA, 33).
3.3.        Transformar a realidade, fazendo acontecer o Ser humano Novo e o Mundo Novo.
"Testemunhamos o nascimento de um novo humanismo (acrescentamos hoje: e de um novo naturalismo) no qual o Ser humano se define, em primeiro lugar, por sua responsabilidade perante os seus irmãos e a história (acrescentamos hoje: e toda a natureza)” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 55).
Enfim - para os seguidores e seguidoras de Jesus - transformar a realidade, fazendo acontecer o Ser humano Novo e o Mundo Novo, significa:
3.3.1.   Anunciar aos Seres humanos de hoje o Evangelho com todas as suas exigências concretas, sem adaptá-lo aos interesses dos grupos ou classes sociais mais poderosas, mesmo que isso não agrade aos "grandes" do mundo.
“Rogo a você (Timóteo), diante de Deus e de Jesus Cristo (...), proclame a Palavra, insista no tempo oportuno e inoportuno, advertindo, reprovando e aconselhando com toda paciência e doutrina. (...) Faça o trabalho de um anunciador do Evangelho, realize plenamente o seu ministério” (2Tm 4, 1-2.5).
3.3.2.   Fazer a opção pelos Empobrecidos, Oprimidos e Excluídos, para - a partir deles e junto com eles - participar do processo de libertação do Ser humano todo, de todos os Seres humanos e de toda a Natureza, segundo o Projeto de Deus, que é o seu Reino.
"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4, 18-19).
Em síntese, “o seguimento de Jesus tem duas dimensões fundamentais intrinsecamente relacionadas: a dimensão cristológica: ser e viver como Jesus e a dimensão pneumatológica: o Espírito que atualiza Jesus na história. Consequentemente, o seguimento só pode ser concretizado levando-se em conta dois fatores determinantes: a memória viva de Jesus de Nazaré e as situações históricas em que se vive. Jesus deve ser prosseguido, atualizado e não imitado mecanicamente”.
“O Espírito é a memória e a imaginação de Jesus: memória que faz voltar sempre a Jesus de Nazaré; imaginação que nos leva a perguntar constantemente, o que diria e faria Jesus hoje. A vida de Jesus foi toda ela perpassada pelo Espírito. Consequentemente, o seguimento é o lugar privilegiado da manifestação do Espírito” (Ivanise Bombonatto. Seguimento de Jesus. Uma abordagem a partir da Cristologia de Jon Sobrino - www.teologia-assuncao.com.br).          
O método usado “ver, julgar, agir” (ou, em outras palavras, “analisar, interpretar, libertar”) "nos permite articular, de modo sistemático, a perspectiva cristã de ver a realidade; a assunção de critérios que provêm da fé e da razão para seu discernimento e valorização com sentido crítico; e, em consequência, a projeção do agir como discípulos missionários de Jesus Cristo” (Documento de Aparecida - DA, 19).
Que no Tempo Comum - os cristãos e as cristãs - vivamos plenamente a espiritualidade do seguimento de Jesus, que é uma espiritualidade radicalmente humana. “Não se encontra nada verdadeiramente humano que não ressoe no coração dos discípulos e discípulas de Jesus” (Concílio Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 1).

Nunca te canses do Reino                           Vidas pelas vidas,
Nunca te canses de falar do Reino              Vidas pelo Reino, Vidas pelo Reino.
Nunca te canses de fazer o Reino                Todas as nossas Vidas,
Nunca te canses de ‘semear’ o Reino          Como a sua Vida como a Vida Dele.
Nunca te canses de acolher o Reino           Ó Mártir Jesus!
Nunca te canses de esperar o Reino           (Mantra)
(Dom Pedro Casaldáliga)
Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 14/01/12, p. 08


Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Prof. de Filosofia da UFG (aposentado)
Prof. na Pós-Graduação em Direitos Humanos
(Comissão Dominicana Justiça e Paz do Brasil / PUC-GO)
Vigário Episcopal do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia
Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Terra


A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos