sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Eldorado Parque: memória permanente da barbárie

“Ai daquele que constrói uma cidade com sangue, e funda uma capital na injustiça!” (Hab 2,12) “Novas ‘cidades’ na Grande Goiânia”. No dia 5 de fevereiro deste ano foi noticiado: “A Grande Goiânia vai receber, ainda este ano, seis grandes empreendimentos imobiliários, a maioria voltada para classe média com preços a partir de R$ 150 mil, que vão movimentar a economia com mais de R$ 3 bilhões”. A reportagem continua dizendo: “Serão mais de 20 mil novas unidades habitacionais, entre apartamentos e casas, que abrigarão cerca de 80 mil moradores. Os empreendimentos vão ocupar os vazios urbanos do Parque Oeste Industrial, Goiânia 2, antiga Fazenda Gameleira, Goiânia Golf Clube, Jardim Cerrado e também bairro Monserrat, em Aparecida de Goiânia” (O Popular, 05/02/12, p. 3). Infelizmente, na “estrutura econômica atual que está exclusivamente a serviço do mercado total, apátrida, homicida de pessoas e genocida de povos” (Pedro Casaldáliga. A outra economia. Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013, p. 10), os critérios que norteiam esses empreendimentos (na sua aprovação pelo Poder Público e na sua execução pelos empresários do setor) não são certamente os do Bem Viver, do Bem Conviver e do respeito ao direito de moradia dos pobres, mas os da ganância, da especulação imobiliária e do maior lucro possível, custe o que custar. Nessa lógica capitalista neoliberal - estruturalmente iníqua - de exploração dos trabalhadores, imaginemos qual não será o lucro dos empresários do mercado imobiliário. Nos empreendimentos imobiliários, não há nenhuma preocupação com os impactos negativos que eles geram na cidade - como, por exemplo, no trânsito - em função do adensamento populacional em poucas áreas. Segundo especialistas na área, “a expansão acelerada de condomínios residenciais em Goiânia e Aparecida de Goiânia deve sufocar ainda mais a mobilidade nas duas cidades, sobretudo por serem construídos sem um prévio estudo de impacto de trânsito”. No início de fevereiro deste ano, Miguel Tiago, então presidente da Agência Municipal de Trânsito (AMT), afirmou: “A AMT precisa ser ouvida, principalmente antes da construção de grandes empreendimentos, mas isso não está sendo feito” (O Popular, Ib.). Alem dessas considerações e reflexões - de caráter humano e ético - que valem para todo empreendimento imobiliário, no caso do Eldorado Parque tornam-se necessárias outras considerações e reflexões. Em primeiro lugar, afirmo: o Eldorado Parque - se for realmente concretizado - será a memória permanente da maior barbárie praticada em toda a história de Goiânia, em fevereiro de 2005, pelo Poder Público Estadual, com a anuência do Poder Público Municipal e do Judiciário, e com o consentimento, declarado ou silencioso, das “pessoas de bem”, que são os fariseus de hoje. A barbárie da Operação de despejo de quase 14 mil pessoas, em menos de duas horas, cinicamente chamada “Operação Triunfo” (depois da “Operação Inquietação”, que durou 10 dias) foi de um requinte de crueldade tal, que pode ser considerada uma verdadeira operação de guerra nazista. Mesmo que os detentores do poder econômico e do poder político (covardemente submisso aos interesses do poder econômico) queiram esconder essa barbárie debaixo do tapete, ela nunca será esquecida. A área da Ocupação “Sonho Real”, no Parque Oeste Industrial, tornou-se uma “terra santa” encharcada de sangue inocente. Para reparar - ao menos parcialmente - a injustiça cometida, essa “terra santa” deveria ser declarada de utilidade pública, desapropriada por interesse social e transformada numa área verde bem cuidada, denominada Parque dos Trabalhadores, com a construção do Memorial da Luta pela Moradia, como advertência permanente a todos os gananciosos e opressores do povo. Na ótica dos “coronéis urbanos” de Goiânia (os donos das grandes imobiliárias), aquela área era “subutilizada”. Que descaramento! Para esses coronéis do capitalismo neoliberal, os pobres não contam, são material descartável e devem ser encurralados nas beiradas mais distantes da cidade, para não torná-la feia. À época da “Operação Triunfo”, num documento da Agência Goiana de Habitação S/A (AGEHAB), estava escrito, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que aquela área era “imprópria” para habitação popular. Que desrespeito para com o povo! Segundo a imprensa noticiou, “o empreendimento será construído pelo consórcio de empresas composto pela Brasil Brokers Tropical Imóveis, Construtora Moreira Ortence, Engel Engenharia e Dinâmica Engenharia”. Na área da Ocupação “Sonho Real” do Parque Oeste Industrial serão erguidas - dizem - 50 torres de edifícios residenciais, com 17 pavimentos cada. “Os empresários - afirma a imprensa - adquiriram o terreno da antiga proprietária, a dona de casa Anália Severina Ferreira e seus três filhos, Antônio Severino de Aguiar, Dalva Severina de Aguiar e Neuza Severina de Aguiar. O valor do negócio não foi divulgado, mas a avaliação de mercado feita nas vésperas do conflito era de R$ 38 milhões” (Ib.). Tenho certeza que esse dinheiro e esse empreendimento imobiliário (com lançamento previsto para outubro deste ano) serão amaldiçoados por Deus. Pergunto: alguém gostaria de morar num empreendimento imobiliário amaldiçoado por Deus? A justiça dos homens pode falhar, mas a justiça de Deus, mesmo que tarde, nunca falha. Os responsáveis - diretos ou indiretos - da barbárie do Parque Oeste Industrial, praticada há mais de sete anos e que ainda continua impune, aguardem! Aos/às que defendem e promovem a justiça e os direitos humanos - principalmente o direito à moradia digna para todos/as - faço um apelo: protestem e boicotem a compra dos apartamentos do Eldorado Parque. Ninguém poderá ser feliz, sabendo que o empreendimento imobiliário é fruto de um passado iníquo. “Ai daquele que constrói a sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito” (Jr 22,13). “Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaços e sejam os únicos a habitarem no meio do país” (Is 5,8). E ainda: “Parem de trazer ofertas inúteis. O incenso é coisa nojenta para mim. (...) Não suporto injustiça e solenidade. (...) Eu detesto suas festas. Para mim se tornaram um peso que eu não suporto mais. Quando vocês erguem para mim as mãos, eu desvio o meu olhar; ainda que multipliquem as orações, eu não escutarei. As mãos de vocês estão cheias de sangue” (Is 1,13-15). Como podemos ver, Deus toma o partido dos injustiçados, se faz solidário com eles e diz que tem nojo de atos religiosos, que visam legitimar um comportamento injusto e hipócrita. Jesus de Nazaré, nas maldições, retoma o ensinamento dos Profetas e denuncia: “Ai de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação! Ai de vocês, que agora têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês, que agora riem, porque vão ficar aflitos e irão chorar! Ai de vocês, se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas” (Lc 6,20-26). Esses textos da Palavra de Deus - que são uma advertência aos gananciosos e opressores dos pobres - nos fortalecem e nos ajudam a continuar a luta por uma outra economia, por uma outra política, por uma outra sociedade e por um outro mundo. Participe! Assine o Abaixo-assinado “Federalização já!” e, antes, leia o artigo “Sete anos do ‘Sonho Real’: até quando a impunidade?”, que serve de fundamentação ao Abaixo-assinado (http://peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N21783). http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120919&p=24 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=70559 http://minutonoticias.com.br/eldorado-parque-memoria-permanente-da-barbarie http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=7636:social190912&catid=71:social&Itemid=180 http://www.brasildefato.com.br/node/10653 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A outra economia Lançamento do Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013

O Livro-Agenda Latino-americana-Mundial - desde a sua 1ª edição em 1992 - é “sinal de comunhão continental e mundial entre as pessoas e comunidades que vibram e se comprometem com as Grandes Causas da Pátria Grande, como resposta aos desafios da Pátria Maior. Um anuário da esperança dos pobres do mundo, a partir da perspectiva latino-americana” (Livro-Agenda 2013, p. 3). O Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013 aborda o tema da “outra economia”, para ir criando a “outra mundialidade”. O Livro-Agenda 2012 nos perguntava “que humanidade queremos e podemos ser, que vida podemos e queremos viver, que convivência almejamos”. O Livro-Agenda 2013 “aterrissa no campo de batalha da economia, onde se decidem a vontade e a possibilidade de viver e conviver toda a Humanidade com verdadeira dignidade humana”. Quando falamos da “outra economia” não falamos simplesmente de reformas econômicas, mas de uma economia “radicalmente alternativa” à capitalista neoliberal. A “outra economia” que sonhamos “não pode ser somente econômica. Há de ser integral, ecológica, intercultural, a serviço do Bem-Viver e do Bem-Conviver, na construção da plenitude humana, desmontando a estrutura econômica atual que está exclusivamente a serviço do mercado total, apátrida, homicida de pessoas, genocida de povos. Sonhamos com uma mudança sistêmica que atenda às necessidades e aspirações de toda a Família Humana reunida na casa comum (oikós). ‘Oikós-nomia’ é ‘a administração da casa’ que tem como lei a fraternidade/sororidade”. À luz da fé, a “outra economia” é “uma verdadeira espiritualidade: de compaixão solidária com todos os caídos à beira do caminho; de indignação profética frente a todos os ídolos da mentira e da morte; de convivência amorosa com todos os seres”. Trata-se - em linguagem bíblico-teológica - da economia do Reino, que é “obsessão de Jesus de Nazaré, revolução total das estruturas pessoais e sociais, utopia necessária, obrigatória, porque é a proposta do próprio Deus da Vida, Pai-Mãe da Família Humana” (Pedro Casaldáliga. Livro-Agenda 2013. A outra economia, p. 10-11). Por ocasião do lançamento do Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013 em Goiânia, será outorgado, pela PUC-GO, o título de Doutor Honoris Causa a Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de S. Felix do Araguaia e um dos grandes profetas do nosso tempo. Será feita também uma homenagem especial ao Pe. Francisco Cavazzuti pelos 25 anos do atentado que sofreu em 27 de agosto de 1987 e que o deixou totalmente cego. Juntos/as celebraremos, ainda, a nossa gratidão a tantos/as irmãos/ãs, companheiros/as de caminhada, que dedicaram e dedicam suas vidas à causa dos/as excluídos/as em nossas comunidades e movimentos populares, como é o caso de Dom José Rodrigues de Souza (bispo emérito de Juazeiro - BA), cuja Páscoa definitiva aconteceu nesse último domingo. Faremos, enfim, a memória das Vítimas do acidente do Césio 137, que completará 25 anos nesse dia do lançamento. Aos fariseus, que disseram a Jesus: “Mestre, manda que teus discípulos se calem”, Jesus respondeu: “Eu digo a vocês: se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,39-40). Estas palavras inspiraram o canto ‘Pão da igualdade’: “Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão. Se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascerão”… (Ir. Vaz Castilho). Até o final do ano, o lançamento do Livro-Agenda Latino-americana Mundial 2013 acontecerá em diversas cidades do Brasil. Em Goiânia, será no dia 13 deste mês de setembro, às 19:30h, no Centro Cultural Cara Vídeo (Rua 83, N° 361, Setor Sul, Goiânia - GO). Venha participar! Ficaremos muito felizes com a sua presença. Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 12/09/12, p. 07 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120912&p=23 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=70320 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Grito dos/as Excluídos/as 2012

“Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população!” A Cáritas Brasileira define muito bem o que é o Grito dos/as Excluídos/as. Diz: “O Grito dos/as Excluídos/as é uma manifestação popular carregada de simbolismo. È um espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos/as Excluídos/as. O Grito dos/as Excluídos/as, como indica a própria expressão, constitui-se numa mobilização com três sentidos: > denunciar o modelo político e econômico que, ao mesmo tempo, concentra riqueza e renda e condena milhões de pessoas à exclusão social; > tornar público, nas ruas e praças, o rosto desfigurado dos grupos excluídos, vítimas do desemprego, da miséria e da fome; > propor caminhos alternativos ao modelo econômico neoliberal, de forma a desenvolver uma política de inclusão social, com a participação ampla de todos os cidadãos”. Afirma ainda: “Não é um movimento nem uma campanha, mas um espaço de participação livre e popular, em que os próprios excluídos, junto com os movimentos e entidades que os defendem, trazem à luz o protesto oculto nos esconderijos da sociedade e, ao mesmo tempo, o anseio por mudanças” (http://caritas.org.br/novo/gritos-dosas-excluidosas-2012/). Em 2012 o Grito dos(as) Excluídos(as) traz como tema: “Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população!”. O pano de fundo de todos os Gritos é sempre: “A Vida em primeiro lugar”. Lideranças dos movimentos sociais populares realizaram em São Paulo no dia 30 de agosto/12, às 14:30h, entrevista coletiva para o lançamento da 18ª edição do Grito dos/as Excluídos/as. Participou também da coletiva o presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz da CNBB (promotora do evento, juntamente com outras entidades), dom Guilherme Werlang, que convocou a população a acompanhar as manifestações programadas. Entre as lideranças presentes estava Iury Paulino, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens. A coletiva aconteceu na sede do Regional Sul 1 da CNBB, na capital paulista. Dom Guilherme disse que os movimentos sociais populares exigem mudanças profundas. “O Estado - disse - faz pequenas concessões, mas não muda sua estrutura”. Reconheceu que, a partir dos últimos governos federais, o Estado brasileiro tornou-se “menos surdo” aos gritos dos grupos sociais considerados excluídos. “Tivemos avanços, sim, mas seu modelo, sua essência, continua servindo aos interesses do capital internacional”. E ainda: “O Estado é uma empresa particular. Ele tem um entendimento sobre desenvolvimento complicado, que favorece a poucos e afeta populações injustamente. Daremos, neste ano, um grito contra a gentrificação que ele vem promovendo”. (Gentrificação é o processo urbanístico pelo qual se busca “enobrecer” bairros e cidades ao substituir moradores pobres por novos imóveis e empreendimentos para os que têm maior poder aquisitivo). Iury Paulino abordou a questão da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na bacia do Rio Xingú, no Pará e disse que a estratégia energética do país não busca atender a toda a população. “Belo Monte nada mais é do que a evidência de que a estratégia política de energia é feita para atender as grandes construtoras, mineradoras e empresas internacionais”. Segundo ele, a energia que vai ser produzida atenderá mais à iniciativa privada, do que a população. “O problema não é a barragem, mas a quem ela servirá. As pessoas não entendem que as cidades próximas às barragens não usufruem da energia produzida por elas”. Para Yuri, o empreendimento de Belo Monte não levou desenvolvimento às cidades afetadas por ele, mas sim problemas urbanos, com uma concentração demográfica impossível de ser atendida pelos serviços públicos que elas ofereciam. Questionou: “Não entendo quando dizem que com Belo Monte, a região passará a ter escolas e um serviço eficaz de saúde. O que uma coisa tem a ver com a outra? Por que precisa de barragem pra ter escola?”. A obra é alvo de protestos de indígenas, grupos socioambientais e do Ministério Público paraense, por conta dos impactos negativos que já causa e ainda causará na região. As entidades que promovem o Grito dos/as Excluídos/as são contra o projeto, porque acarreta desalojamentos forçados e mais injustiças no campo e na cidade. O Grito dos/as Excluídos/as abordará também, em todo país, a questão da moradia. Ari Alberti, da Coordenação do Grito, afirmou: “O Estado tem a obrigação de fornecer moradia digna, mas não o faz”. Outro grito deste ano será a denúncia da violência institucional cometida contra a juventude, em particular a juventude pobre. Ettore Meireles, integrante da Pastoral da Juventude de São Paulo, afirmou: “A violência (contra essa parcela da população) cresceu 400% nos últimos dois anos. Homossexuais e negros estão sendo exterminados. A polícia trata como criminosos os jovens, que, muitas vezes, procuram o lazer nos espaços públicos, como as praças, pois é só isso que lhes resta”. O que acontece em São Paulo, acontece também em todas as grandes cidades do Brasil, como Goiânia. Farão parte ainda das pautas das manifestações os problemas da fome e da falta de saneamento básico generalizado. “Embora o Brasil seja a sexta economia do mundo, é um dos países mais desiguais. Gritaremos contra isso”. De 1° a 7 de setembro serão promovidas em todo Brasil as mais variadas atividades: atos públicos, romarias, celebrações especiais, seminários, cursos de reflexão, blocos na rua, caminhadas, teatro, música, dança, feiras de economia solidária e acampamentos (Cf. http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2012/09/grito-dos-excluidos-protesta-contra-imobilidade-social-do-estado-diz-cnbb). No dia 7, data em que se celebra a independência do Brasil, tradicionalmente o Grito dos/as Excluídos/as organiza grandes passeatas em diversas cidades do Brasil. Em Goiânia a concentração para a passeata do Grito (organizada pelo Fórum do Grito dos/as Excluídos/as e pelo Fórum dos Movimentos Populares de Goiás) será na Assembleia Legislativa de Goiás, às 8:00h. Daremos um destaque especial aos gritos por saúde e educação pública de qualidade para todos/as, por moradia digna, por reforma agrária e pelo fim da criminalização da pobreza e dos movimentos populares. Participe! Sua presença e muito importante! “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 05/09/12, p. 05 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120905&p=21 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=70204 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano

O julgamento do "mensalão" no STF

O chamado “mensalão” é o esquema de compra de votos (de apoio político) de parlamentares com dinheiro público e de lavagem de dinheiro, que é considerado o maior escândalo do governo Lula, em 2005/2006. Na acusação dos réus do mensalão no STF, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que o esquema funcionava "entre quatro paredes" do palácio presidencial e pediu a prisão imediata de eventuais condenados. "Quando falo de quatro paredes, falo das paredes da Casa Civil, de algo que transcorria dentro do palácio da Presidência da República". O chefe do Ministério Público Federal disse ter sofrido intimidações e "ataques grosseiros" após entregar suas alegações finais. "Houve tentativa de constrangimento e intimidação do procurador-geral da República, o que jamais havia ocorrido, o que mostra que nós temos uma quadrilha extremamente arrogante." Gurgel pediu aos ministros do STF que a corte estabeleça um "paradigma histórico". "(Peço) desde já a expedição dos mandatos de prisão cabíveis imediatamente após a realização do julgamento". Gurgel considerou "risível" o discurso de que o mensalão não passou de um "delírio". "Jamais um delírio foi tão solidamente (...) documentado e provado". E repetiu que trata-se do mais "atrevido" e "escandaloso" esquema de corrupção do Brasil. O procurador-geral apontou o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu como o mentor da quadrilha. Dedicou 25 minutos das quase 5 horas de discurso a Dirceu, e disse que "a prova é contundente contra o ex-ministro. Procurou também justificar a ausência de provas documentais da ação de Dirceu, alegada pela defesa. "O autor intelectual, quase sempre, não fala ao telefone, não envia mensagens eletrônicas, não assina documentos, não movimenta dinheiro por suas contas, agindo por intermédio de `laranjas'. A prova da autoria do crime não é extraída de documentos ou de perícias, mas essencialmente da prova testemunhal". Gurgel deu uma ênfase especial aos repasses de dinheiro a deputados em épocas de votações importantes no Congresso, como as reformas tributária e previdenciária, ocorridas entre setembro e dezembro de 2003. Dos 38 réus, o procurador-geral pediu a absolvição por falta de provas do ex-ministro Luiz Gushiken e do assessor partidário Antônio Lamas (Cf. Felipe Seligman, Flávio Ferreira, Márcio Falcão e Rubens Valente. Mensalão - o julgamento. Folha de S. Paulo, 04/08/12, p. A4). E ainda: o ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza, responsável pela denúncia do mensalão no STF, afirma que, tanto na denúncia quanto nas alegações finais do Ministério Público, existem evidências "certas e determinadas" da compra de apoio político. "Não há dúvida nenhuma quanto a isso". O Ministério Público Federal considera o mensalão o mais "atrevido" escândalo de corrupção do país e apresenta as provas sobre a existência de uma "sofisticada quadrilha". Souza rejeita a tese de que houve caixa dois. "A convicção do Ministério Público é que não foi caixa dois". "Toda aquela movimentação financeira, pagamentos na calada da noite, às escondidas, em dinheiro vivo, à margem do sistema bancário, revela algo ilícito que não poderia ser à luz do dia". Souza afirma que o Ministério Público foi justo na acusação e cauteloso em todo o processo (Cf. Márcio Falcão. Mensalão - o julgamento. Folha de S. Paulo, 10/08/12, p. A4). Os advogados de defesa dos réus tentam desqualificar o mensalão. Alguns, como Márcio Thomaz Bastos (que foi chamado o “deus” dos criminalistas) e outros, são crimininalistas famosos e de muita experiência. Recebem honorários astronômicos e não se importam se o dinheiro tem origem em práticas de corrupção ou não. Com oportunismo descarado, sem nenhuma preocupação com a verdade e com a ética, usam todos os artifícios jurídicos possíveis para conseguir absolver seus clientes, mesmo sabendo que são culpados. Por razões venais jogam, sem nenhum escrúpolo, sua dignidade humana no lixo. Trata-se realmente de uma prática repugnante. É verdade que todo ser humano, mesmo o maior criminoso, tem direito à defesa, mas sempre dentro de critérios baseados na justiça. "Não podemos ser justos se não formos humanos" (Vauvenarques, Luc de Clapiers). No dia 18 de maio do corrente ano, escrevi um artigo com o título: O caso do mensalão: até quando ficará impune? (Veja nos sites: http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120518&p=23; http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=67048 e outros) Para manter a impunidade usam-se diversas artimanhas. Cito só algumas, amplamente divulgadas na imprensa: - A artimanha de gerar incertezas e dúvidas sobre a existência do mensalão, dizendo que se trata de um “delírio” e que o mensalão não existiu; - A artimanha de retardar a ação judicial com recursos processuais, para que o julgamento não acabe antes das eleições municipais de 7 de outubro, evitando, assim, o desgaste e o dano que eventuais condenações poderiam causar nos partidos políticos envolvidos; - A artimanha de caracterizar a distribuição de dinheiro do mensalão como mera caixa dois, uma infração menor do ponto de vista legal; - A artimanha de usar todos os meios para não perder os clientes endinheirados; - A artimanha de querer salvar a qualquer custo a imagem dos partidos políticos envolvidos no mensalão, decorrente do julgamento (“quem não deve, não teme”); - A artimanha de acompanhar o julgamento de forma discreta, visando “fechar o capítulo”; - A artimanha de pedir aos partidos políticos, envolvidos no mensalão, para manter a aparência de calma; - A artimanha de fazer o possível para que a pauta dos telejornais não seja concentrada no julgamento do mensalão; - A artimanha de desqualificar as provas sobre a existência de uma “sofisticada quadrilha”; - A artimanha de dizer que a acusação é desprovida de provas; - A artimanha de elogiar os advogados de defesa dos réus do mensalão. Infelizmente o STF é - parece - muito dividido: alguns ministros pró-condenação e outros pró-absolvição. “O julgamento assemelha-se a uma competição eleitoral, com dois partidos disputando uma vaga: a de fazer justiça” (Joaquim Falcão. Quem tem razão, Barbosa ou Lewandowski? Folha de S. Paulo, 19/08/12, p. A4). A sociedade espera que o STF julgue os réus do mensalão com isenção e com justiça, tendo como único critério de julgamento a verdade dos fatos. Inclusive, os culpados devem ser punidos e obrigados a devolver aos cofres públicos o dinheiro subtraído ilicitamente. Caso isso não aconteça, o STF ficará totalmente desmoralizado frente à opinião pública. "Três coisas devem ser feitas por um juiz: ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente" (Sócrates). "Não procure tornar-se juiz se não tiver força para eliminar a injustiça. Do contrário, você se acovardaria diante de um poderoso e mancharia a sua própria integridade" (Eclo 7,6). Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 03/09/12, p. 02 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20120903&p=21 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=70042 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos