sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Jesus, “morador de rua” em Belém

              Segundo o Evangelho de Lucas, para atender ao recenseamento que o imperador César Augusto mandou fazer no império, "todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro de casa" (Lc 2, 3-7).
            Meditando sobre o relato do nascimento de Jesus, fico pensando: Se “não havia lugar para eles dentro de casa”, José e Maria, grávida de Jesus, devem ter perambulado, dias e noites, nas ruas e praças de Belém; devem ter dormido diversas vezes debaixo das marquises dessas mesmas ruas e praças; e devem ter batido em portas de muitas casas, inclusive dos parentes de José, para pedir ajuda, mas - por serem pobres - as portas sempre se fechavam na frente deles. Finalmente, quando “se completaram os dias para o parto”, José e Maria - talvez por pena de alguma pessoa bondosa - encontraram acolhida e abrigo num estábulo e Maria deu à luz numa manjedoura.
             Jesus se solidarizou e se identificou de tal forma com “os pequeninos” (todos aqueles que na sociedade não tem voz e não tem vez, são excluídos, rejeitados e descartados) que, ainda antes de nascer, no seio de sua mãe Maria, se tornou “morador de rua” em Belém.
            E hoje? Jesus continua sendo “morador de rua” em muitas cidades do Brasil, da América Latina e do mundo, na pessoa de irmãos e irmãs nossos. Cada morador de rua é Jesus ameaçado de morte. “Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram (ou não fizeram) isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizeram (ou não o fizeram)” (Mt 25, 40 e 45).
            Cito o caso de Goiânia destes últimos tempos, que - pelo alto número de assassinatos - causou repercussão nacional. Uma Nota Pública, assinada por 38 entidades, afirma que, na cidade de Goiânia, “a sociedade acompanha estarrecida os contínuos assassinatos de moradores de rua”. “Nos últimos meses deste ano já foram doze mortes: em outubro, três; em novembro, seis; e em dezembro, até o momento, três. Nos casos mais recentes, em 10 de dezembro, que por sinal era o Dia Internacional dos Direitos Humanos, foi assassinado a facadas o morador de rua ‘Fernando’, na Vila Irani. Na madrugada do dia 11, foi assassinado com dois tiros ‘Tiago’, no Setor Central. E na madrugada do dia 12, foi assassinado a tiros o morador de rua ‘Michel’” (Nota Pública sobre os Assassinatos de Moradores de Rua, Goiânia, 13 de dezembro de 2012). ´
            Segundo as últimas informações, “no período de dois meses, 14 moradores de rua foram assassinados na capital de Goiás, Goiânia. Ontem, 17, duas pessoas foram mortas” (http://www.sbt.com.br/jornalismo/noticias/?c=27680&t=Numero+de+moradores+de+rua+mortos+em+Goiania+chega+a+14 - 18/12/12).
            Darci Accorsi, secretário da Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS), afirma “que todas as mortes são relacionadas com o tráfico de drogas e que policiais militares estão diretamente envolvidos nos crimes” (http://www.portal730.com.br/cidades/secretario-de-assistencia-social-aponta-participacao-de-policiais-em-mortes-de-moradores-de-rua-pm-contesta -17/12/12).
            De modo enfático, a Nota Pública citada declara: “Repudiamos e condenamos veementemente esses assassinatos, denunciando-os como gravíssimas violações aos Direitos Humanos. Nada justifica crimes tão bárbaros. A vida deve estar em primeiro lugar!”.
            Enfim, a Nota Pública conclui com dois pedidos. O primeiro: “Pedimos ao secretário da Secretaria Municipal de Assistência Social de Goiânia (SEMAS), Darci Accorsi, e ao prefeito Paulo Garcia que, em caráter de urgência urgentíssima, implementem políticas públicas que visem, em primeiro lugar, a acolhida e a proteção aos moradores de rua e, em segundo lugar, ajudem esses moradores a se conscientizarem sobre o sentido (o valor) da vida humana, aumentando o reconhecimento de suas potencialidades e de sua autoestima”
            O segundo: “Pedimos, também, ao secretário da Secretaria de Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás (SSPJ-GO), Joaquim Cláudio Figueiredo Mesquita e ao governador Marconi Perillo que, com responsabilidade e agilidade, tomem as providências cabíveis para identificar e processar os responsáveis - mandantes e executores - desses assassinatos, que gritam por justiça diante de Deus”.
            Trata-se de violência estrutural (institucionalizada) que todos e todas devemos combater. No Natal, somos impelidos/as a renascer para viver uma vida nova, uma vida de irmãos e irmãs, uma vida de justiça e de compromisso com os Direitos Humanos. Que o Menino Jesus nos traga este presente!

            (Leia também o artigo Jesus, o “sem-teto” de Belém, escrito no dia 4 de janeiro de 2011, em: http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.asp?cod=53390&lang=PT).

Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano,
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 20 de dezembro de 2012 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Para meditar no Advento

Recebi, há dias, o texto: “As noites dos trabalhadores rurais escravizados. A estrela na noite da solidão”, escrito em Xinguara (PA), no dia 20 de outubro deste ano, por Frei Henri Burin des Roziers, dominicano, missionário, membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e advogado dos trabalhadores rurais do Pará. Frei Henri é um homem de muita fé, defensor corajoso e intransigente dos injustiçados, e, por isso, como Jesus de Nazaré, marcado para morrer. Obrigado, Frei Henri, pelo seu testemunho de vida. Frei Henri sugere que este texto seja meditado durante o Advento, em preparação ao Natal. Nada de mais apropriado para essa finalidade. Trata-se de um texto que comove, mexe profundamente com as nossas entranhas e fortalece-nos como seguidores/as de Jesus de Nazaré, o “sem-teto” de Belém. “Não havia lugar para eles dentro da casa” (Lc 2,7). O texto é uma história de vida. Inicia apresentando uma situação concreta dos trabalhadores rurais. “Sentados em frente às suas casas, eles estavam sem trabalho na sua pequena cidade pobre do Piauí e suas crianças passavam fome. Passou uma caminhonete com alto-falante convidando o pessoal para trabalhar numa fazenda do Estado do Pará. O ‘gato’ do fazendeiro prometia bons salários, comida, alojamentos. Iludidos, sem alternativa, embarcaram no caminhão. Foram dois dias de viagem cansativos, no calor, na poeira, quase sem comer”. Infelizmente - como costuma acontecer - a promessa não foi cumprida. Os trabalhadores foram enganados. “Agora - relata a história - eles estão lá, junto com muitos trabalhadores migrantes, de todas as regiões do Brasil, procurando trabalho, perdidos na mata, debaixo da lona, sem receber salários, sem dinheiro, bebendo água suja do córrego onde pisa o gado, comendo carne de vaca doente, trabalhando o dia inteiro, do amanhecer ao anoitecer, no calor, derrubando arvores, roçando juquirá vigiados por homens armados”. Conta, ainda, a triste e comovente história. “Há três meses que sobrevivem na escravidão. Nesta noite, deitados e cansados nas suas redes, eles olham, mais uma vez, através dos buracos da lona, o céu estrelado. Onde está sua estrela? Pois cada um tem uma estrela! Onde esta a estrela do menino, seu companheiro de 17 anos que, sendo menos vigiado, conseguiu fugir para tentar alertar as autoridades? Saiu de noite com o dinheirinho e o frito que conseguiram arrumar para ele. Onde está? Será que está vivo? Conseguiu escapar dos pistoleiros que foram atrás dele no dia seguinte?”. A história, que a todos/as nos questiona e nos faz refletir, continua relatando: “A noite se afastou, apareceu a aurora, amanheceu, o sol se levantou. Já no serviço, dentro da mata, desmatando, ouviram um ruído de motores. De repente apareceram no fundo do trilho, três caminhonetes 4x4, solavancando. Chegaram. Policiais Federais pularam fora, armas em punho. Saíram também vários fiscais do Ministério do Trabalho, Procurador da Republica, Delegado da Policia Federal. Estavam livres!”. Que alegria, que festa! Foi o Menino Jesus que os libertou, por meio do menino Sebastião. “No banco traseiro da caminhonete, encapuzado, escondido, um rapaz, com medo. Era o menino Sebastião! Era ele que tinha alertado as autoridades e mostrado o caminho desconhecido, tão difícil para chegar até aqui!”. Meditemos a outra parte da história: “Sebastião tinha caminhado a noite inteira na mata, no meio dos ruídos da floresta, com medo das cobras, das onças, dos jacarés, bebendo a água dos córregos, se orientando com essa estrela do Cruzeiro do Sul, como lhe tinham ensinado seus companheiros mais velhos. Seguindo sempre ela, não se perderia e cruzaria, com certeza, cedo ou tarde, uma estrada”. A história pergunta: “Não foi uma estrela que levou os Reis Magos, de noite, até a manjedoura do Menino Jesus? O jovem Sebastião seguia também sua estrela com confiança. Às vezes, a perdia na escuridão total da mata fechada, mas a encontrava de novo logo em uma clareira, todo alegre! Andou muito, muito. Tropeçava, vacilava, caia. Ficava um pouco deitado nas folhas do chão. Olhava para o céu. Se sentia tão pequeno na imensidão dessas miríades de estrelas do firmamento, tão perdido nessa mata sem fim, tão frágil”. Pergunta, ainda, a história: “Mas, o Menino Jesus não era uma coisinha muito pequeninha, muito frágil nessa noite de Natal, na manjedoura? Não é na fraqueza do ser humano, da nossa vida, que a força do Amor de Deus se manifesta? A história continua relatando: “Sebastião comia um pouco do frito dos companheiros, os quais esperavam tanto dele. Retomava força. Buscava sua estrela no firmamento, levantava-se e caminhava de novo”. E finalmente: “Amanheceu, o sol apareceu. Chegou a uma estrada de chão. Para onde ir? Para a esquerda, para a direita? Esperou, esperou! Chegou um velho caminhão. Parou, entrou na cabina perto do motorista. Andaram e depois de um bom tempo de silêncio, o motorista parou, olhou para o menino e perguntou: ‘Você esta fugindo de uma fazenda’? Tremendo de medo, respondeu: ‘Sim’. Então - disse o motorista - vai atrás na carroceria e se esconde debaixo da lona e da mercadoria, bem escondido, porque na ida, um pouco mais pra frente, tinha um grupo de homens armados que paravam e vistoriavam os veículos. Sebastião se escondeu e o caminhão partiu”. Relata, ainda, a história: “Alguns quilômetros depois, homens armados pararam o caminhão, olharam na cabina, falaram com o motorista e o deixaram ir embora. Mais tarde, o motorista chamou Sebastião para a cabina. Andaram a tarde inteira e chegaram à noite em uma cidade, Tucumã. O motorista deixou Sebastião no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Lá comunicaram-se com a CPT que articulou com as autoridades a libertação dos 150 trabalhadores, escravizados na mata”. A história conclui, dizendo: “Já era de noite, a estrela que tinha guiado Sebastião brilhava no céu. Era a mesma estrela que aquela que tinha levado os Reis Magos até o presépio do Menino Jesus, Aquele que veio para libertar os oprimidos e anunciar o Reino do Amor, da Justiça, da Solidariedade e da Paz”. Depois de tanta angústia e de tanto sofrimento, o Natal aconteceu na vida do menino Sebastião e dos trabalhadores rurais escravizados Que o Advento, tempo de espera alegre da vinda do Menino Jesus, leve-nos a uma profunda conversão para que o Natal 2012 aconteça na nossa vida e na vida de tantos irmãos/ãs escravizados/as no Brasil, na América Latina e no mundo de hoje. Diário da Manhã, Opinião Pública, 16/12/12, p. 03 http://dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20121216&p=19 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=72892 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano,

Direitos Humanos: Verdade, Memória e Justiça

Em 1950, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu que em 10 de dezembro seria celebrado anualmente o Dia Internacional dos Direitos Humanos. A data foi escolhida em memória da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU, em Paris, na Assembleia Geral de 10 de dezembro de 1948. Na ocasião, a Assembleia proclamou o documento (com 30 artigos) “como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição” (texto citado por: http://www.mndh.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=291&Itemid=45). A data de 10 de dezembro desafia-nos permanentemente, todos os dias do ano. Nesta data - no corrente ano - fazemos a memória dos 64 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Caminhamos muito (tivemos avanços e conquistas), mas ainda há muito a caminhar para realizar efetivamente os Direitos Humanos no Brasil, na América Latina e no mundo. O Dia Internacional dos Direitos Humanos leva-nos a fazer duas reflexões. A primeira, sobre as violações dos Direitos Humanos, praticadas atualmente no Brasil, e a segunda, sobre os sinais concretos de esperança que existem hoje no Brasil. A primeira leva-nos a reconhecer que continuam existindo hoje muitas violações de Direitos Humanos no Brasil: violações individuais (que - mesmo frequentes - são pontuais) e violações estruturais (que são permanentes). Normalmente, as violações individuais chocam-nos a todos/as, pelo seu requinte de frieza, crueldade e desumanidade. A não ser em casos claramente patológicos, perguntamo-nos: como pode um ser humano cometer crimes tão bárbaros? Entre os muitos, cito dois casos de Goiânia: no primeiro, um jovem é executado a sangue frio, em pleno dia, por três policiais, que - depois de cercar a casa onde ele estava escondido com viaturas da Polícia - a invadiram, sem nenhuma autorização legal. No segundo caso, três moradores de rua foram executados, no período da meia-noite às 4 horas, e um dos suspeitos é um policial, que estaria agindo a mando de traficantes. Em 30 dias 8 moradores de rua foram assassinados na capital. “Há suspeita de envolvimento de policiais militares nos crimes, sendo dois soldados, um subtenente e um outro policial, cuja patente ainda não havia sido confirmada pela Polícia” (O Popular, 02/12/12, p. 9). Praticamente, todos os dias a mídia noticia a execução - sobretudo nos bairros da periferia - de algum jovem, quase sempre envolvido com o mundo das drogas. Chega de extermínio da juventude! É urgente implementar Políticas Públicas que ocupem os jovens e os ajudem a descobrir o sentido da vida. As violações estruturais dos Direitos Humanos são situações sociais impessoais, anônimas, silenciosas, com as quais nós nos acostumamos, omitindo-nos e perdendo, muitas vezes, a capacidade de nos indignar e a vontade de lutar. Entre as muitas, cito duas situações do Estado de Goiás: a situação da Saúde Pública e a situação da Educação Pública. A primeira - mesmo reconhecendo a dedicação de agentes de saúde (médicos, enfermeiros e outros) - é uma situação de calamidade. É uma situação que mata os pobres e descarta os idosos. É uma situação de descaso e de violência institucionalizada permanente. A situação da Educação Pública - mesmo reconhecendo (como na área da Saúde) a dedicação de educadores/as - é uma situação de descalabro e de faz de conta. A maioria dos professores faz de conta que ensina e a maioria dos alunos faz de conta que aprende. É também uma situação de violência institucionalizada permanente. O próprio sistema econômico no qual vivemos é uma violação estrutural permanente dos Direitos Humanos. A segunda reflexão leva-nos a perceber os sinais de esperança, que irrompem, com força cada vez maior, na caminhada de realização dos Direitos Humanos, no Brasil hoje. Entre os muitos, cito três sinais, que, na realidade, são três grandes frentes de luta. O primeiro sinal ou a primeira frente de luta é a do Movimento Nacional de Direitos Humanos e dos inúmeros Centros ou Comissões de Direitos Humanos e de Justiça e Paz, que brotam por toda parte no Brasil e se fortalecem cada vez mais (alguns Centros ou Comissões, em nível institucional e sua grande maioria, em nível de organizações da sociedade civil). O segundo sinal ou a segunda frente de luta é a da Educação em Direitos Humanos. A aprovação do Programa Nacional de Direitos Humanos, do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos e das Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos (em nível institucional) respalda a luta das organizações da sociedade civil, sobretudo dos Movimentos Populares e possibilita um amplo trabalho de Educação em Direitos Humanos, seja na Educação formal, seja, sobretudo, na Educação informal. O terceiro sinal ou a terceira frente de luta é a do empenho da sociedade civil organizada no esclarecimento público das violações dos Direitos Humanos pela Ditadura Militar (1964-1985). A criação da Comissão Nacional da Verdade e das Comissões Estaduais da Verdade - algumas já criadas e outras a serem criadas (em nível institucional) e a criação dos Comitês Estaduais pela Verdade, Memória e Justiça - alguns já criados e outros a serem criados (em nível de organizações da sociedade civil) são acontecimentos emblemáticos, de grande significado social e histórico. Estas Comissões e estes Comitês são uma conquista da sociedade civil organizada e uma prova concreta que as violações dos Direitos Humanos (como torturas, desaparecimentos e assassinatos) são crimes que nunca podem e devem ser anistiados. A motivação principal das Comissões e Comitês é construir uma história sobre as violações dos Direitos Humanos pela Ditadura Militar, em que a Verdade seja revelada, a Memória seja feita e a Justiça seja exigida. Reconhecemos, com gratidão, que os principais incentivadores dos Comitês Estaduais são os anistiados, os exilados voltados ao Brasil, os presos pela Ditadura Militar e os familiares das vítimas, assassinadas ou tidas como desaparecidas (fala-se de 15 em Goiás e de cerca 450 no Brasil). Viva os Direitos Humanos! Verdade, Memória e Justiça! Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 12/12/12, p. 06 http://www.dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20121212&p=22 http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=7906:submanchete071212&catid=72:imagens-rolantes http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=72714 http://www.brasildefato.com.br/node/11326 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano,

Imoralidade parlamentar

Os parlamentares brasileiros foram reconhecidos, pelo estudo da Organização Transparência Brasil, divulgado em 2010, como os mais caros do mundo. Em nenhum lugar, os parlamentares possuem tantas regalias como no Brasil. “Juntos, o Congresso Nacional e 16 Assembleias Legislativas desembolsam cerca de R$ 252,5 milhões com o pagamento de salários extras, o famoso auxílio-paletó, a parlamentares federais e estaduais, ao longo de quatro anos de mandato” (http://www.sinpolgo.org.br/v2/index.php?option=com_content&task=view&id=4372&Itemid=280 - 26/11/12). É realmente lamentável! Neste escrito, refiro-me somente ao caso das ausências não justificadas de Vereadores da Câmara Municipal de Goiânia e de Deputados Estaduais da Assembleia Legislativa de Goiás (não de todos) como uma amostra da imoralidade parlamentar. No Brasil (e até no mundo inteiro), existem muitos outros casos. "Ao custo de R$ 206,35 milhões desde o início de 2009 até agosto deste ano, a Câmara de Goiânia gastou aproximadamente R$ 5,89 milhões com cada um dos 35 vereadores que foram escolhidos pelos 845.321 eleitores que a capital possuía em 2008”. Vejam que absurdo! "Mesmo com custos tão elevados aos cofres públicos, a Casa registrou um total de 604 faltas (refiro-me somente às faltas não justificadas) dos parlamentares nos últimos três anos e meio” (O Popular, 09/09/12, p. 18. Leiam a íntegra da reportagem, com o número de ausências não justificadas de cada vereador). Os vereadores de Goiânia - é bom lembrar - só têm o compromisso obrigatório e, portanto, a responsabilidade de manter a presença em plenário e votar as matérias, das 9h ao meio dia, três vezes por semana. Será que isso é trabalho demais pelo salário que recebem? Na Assembleia Legislativa de Goiás a situação não é diferente. É até pior. “Cada deputado estadual recebe um salário aproximado de R$ 20 mil, além de verba indenizatória de R$ 21 mil, ao mês, para despesas com passagens, telefonia, combustível, serviços gráficos e mecânicos, entre outros. De acordo com a Constituição, os deputados estaduais podem receber até 75% do salário dos deputados federais. Além disso, cada parlamentar goiano tem direito a orçamento de R$ 45 mil para despesas com pessoal. Assim sendo, um deputado estadual pode custar ao contribuinte R$ 86 mil ao mês, ou mais de R$ 1 milhão ao ano. Multiplicado pelos 41 parlamentares, equivale a dizer que a Assembleia Legislativa possui gasto superior aos R$ 42 milhões por ano. Isso, sem incluir verbas com a presidência, que possui um gabinete a mais e, portanto, mais despesas com pessoal, material e afins”. Em 2011, por exemplo, “o custo da Assembleia Legislativa, com certeza, superou essa projeção. Somente na aquisição de iPhones, para deputados, secretários e assessores, a Casa gastou a bagatela de R$ 214 mil dos cofres públicos. A justificativa para o mimo, no valor individual de R$ 1.982, foi propiciar aos parlamentares, diretores e chefias o acesso com mobilidade aos sistemas corporativos em desenvolvimento naquela Casa de Leis. Ao todo, foram adquiridos 108 aparelhos. Portanto, o gasto de R$ 86 mil mensais revela uma projeção modesta” (http://www.sinpolgo.org.br/v2/index.php?option=com_content&task=view&id=4372&Itemid=280 - 26/11/12). É uma situação estarrecedora! Mesmo com todos esses privilégios, que não se justificam e são uma afronta aos trabalhadores, “os 41 deputados estaduais que compõem a atual legislatura da Assembleia Legislativa somaram 938 faltas sem justificativa entre o início do ano e 31 de outubro. Na prática, é como se os deputados tivessem deixado de comparecer a 22 das 93 sessões agendadas para o período ou se, somados aos 90 dias de recesso parlamentar concedidos no fim e no meio do ano, cada um deles não aparecesse na Casa por cinco meses desde dezembro do ano passado” (O Popular, 18/11/12, p. 10. Leiam a íntegra da reportagem, com o número de ausências não justificadas de cada deputado neste ano). Reparem! “As 938 faltas sem justificativa acumuladas pela Assembleia Legislativa entre o início dos trabalhos em 15 de fevereiro deste ano e 31 de outubro é maior do que o total acumulado pela Câmara de Goiânia nos últimos três anos e meio” (604 faltas sem justificativa) (Ib.). Em matéria de maracutaia, a Assembleia Legislativa ganha da Câmara Municipal. É bom lembrar que a Assembleia Legislativa - como a Câmara Municipal - só tem sessões ordinárias durante a tarde e apenas três vezes por semana, entre terça e quinta-feira. Coitados dos deputados! É muito trabalho pelo salário que recebem e pelos privilégios que gozam! Mesmo que as principais atribuições constitucionais dos deputados sejam legislar e fiscalizar atos do governo estadual, as faltas não justificadas causaram “o acúmulo de cerca 40 projetos do governo estadual na pauta da Casa, que só teve quorum em 15 das 42 sessões realizadas no segundo semestre” (Ib.). As motivações para as faltas não justificadas - assumidas pelos deputados - são as mais diversas, entre as quais, uma das principais é a motivação eleitoral. Na realidade, só há uma motivação para essas faltas: a total falta de ética e de vergonha na cara. O Ministério Público Estadual deve investigar tamanha falcatrua e exigir que o dinheiro das faltas não justificadas (dinheiro roubado) dos vereadores de Goiânia e dos deputados do Estado de Goiás seja devolvido aos cofres públicos. É o mínimo que, em nome da justiça, deve ser feito, enquanto não houver no Brasil (e é urgente que isso aconteça) uma reforma estrutural dos Parlamentos. Diário da Manhã, Opinião Pública, Goiânia, 07/12/12, p. 06 http://dmdigital.com.br/novo/#!/view?e=20121206&p=22 http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=72475 http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=7902:social071212&catid=71:social&Itemid=180 Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano,
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos