terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Uma Justiça “injusta”

           
Lendo a manchete “TJ aprova vale-alimentação para juiz e desembargador” (O Popular, 17/12/13, 1ª página), fiquei profundamente estarrecido e indignado.
            Lembro que - além do auxílio-alimentação (R$ 418 mensais) - os magistrados recebem também o auxílio-moradia (10%  do salário, mensalmente) e o auxílio-livro (12%  do salário, uma vez ao ano). O salário de juiz em início de carreira é cerca de R$ 22 mil e o salário do presidente do TJ-GO é cerca de R$ 30 mil. Coitados, os nossos juízes e desembargadores, estão passando necessidade! Poderiam ser inscritos no programa “Bolsa-Família”! Ironias a parte, é realmente um descaramento total.
Concordo plenamente, em gênero, número e grau, com Humberto Milhomem, quando afirma: “mais uma vez percebe-se que o Brasil é o país dos oportunistas, dos aproveitadores, das castas privilegiadas, dos marajás...”. E ainda: “a extensão do vale-refeição aos juízes e desembargadores - privilégio que outras categorias do Judiciário já possuem - é, antes de tudo, uma acinte à população”.
Para mostrar o absurdo e a imoralidade do benefício, ele lembra, como exemplo, “que os professores dos Estados e dos Municípios de todo o Brasil não têm direito sequer ao lanche servido aos alunos, muito menos ao vale-refeição. E por que essa categoria não é merecedora deste direito?”.
Humberto continua dizendo: “muitos professores, para dar conta das contas em casa, trabalham em dois turnos, tendo menos de uma hora para almoçar, uma vez que as aulas terminam às 12:15 e começam às 13 horas. Vão, então, para o segundo turno com fome, sem se alimentar. E quanto ganham os professores? O salário é de R$ 1.567,00. Isto mesmo! Com este mísero salário não têm direito ao vale-refeição”.
            A partir dessa realidade de gritante desigualdade, ele pergunta: “quanto ganha um desembargador?”. Responde: “mais de R$ 20 mil. Estes absurdos - afirma Humberto - nos fazem entender por que o Brasil é um dos países mais injustos do mundo, um país de contrastes que só crescem”
            Termina, pois, o seu desabafo, dizendo: “agora, com todos esses privilégios, por que nossa Justiça é a pior do mundo, ninguém consegue entender. Talvez esteja na hora do Governo Federal, a exemplo dos médicos, importar juristas cubanos mais eficientes e menos caninos na hora de atacar o erário” (Humberto Milhomem. Ib, 18/12/13. Carta dos leitores, p. 6).
            Humberto, todos e todas, que temos um mínimo de sensibilidade humana e de senso ético, somos solidários e solidárias com a sua justa indignação.
            Em contraste com a denúncia de Humberto, vejam agora o despudor do juiz de direito e presidente da Associação dos Magistrados do Estado de Goiás (ASMEGO), Gilmar Luiz Coelho. Para justificar o injustificável, a ASMEGO - através de seu presidente - “reitera que não defende nenhum tipo de privilégio para qualquer categoria. Defende, ao contrário, respeito, dignidade e igualdade no tratamento de qualquer trabalhador. Ao requerer o pagamento do direito, o fez fundamentada na Constituição Federal (artigo 129, parágrafo 4º) e na Resolução 133 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que prevê equiparação entre as carreiras da Magistratura e do Ministério Público”.
A ASMEGO ressalta “que o direito não é vedado pelo CNJ, sendo pago nos Tribunais Superiores e na imensa maioria dos Tribunais de Justiça brasileiros. Destaca que o valor aprovado pela Corte Especial do TJ-GO é bem inferior ao que é pago, por exemplo, ao MP: R$ 418,00 para magistrados, enquanto o MP paga a promotores e procuradores R$ 710,00. E também que não haverá pagamento retroativo a cinco anos, como no caso do Ministério Público” (Ib.).
Vejam, também, o despudor do promotor Alencar José Vital, presidente da Associação Goiana do Ministério Público (AGMP). Ele afirma, com todas as letras, que “não vê imoralidade no pagamento do auxílio-alimentação”. Para o promotor, “a concessão é legal e há outros benefícios que o MP-GO ainda não recebe”. E adianta: “vou atrás para recebermos”
Apresentando as razões, Alencar José diz: “o pedido do pagamento do auxílio-alimentação retroativo a 2008 e do reajuste do valor partiu da AGMP. Qual a justificativa para esse pedido? Esse benefício está previsto para o Ministério Público Federal (MPF) desde 1993. Com a criação do CNJ, passou-se a dar um caráter de similaridade nacional para os magistrados e membros do MPF. Com isso, o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) reconheceu a simetria entre MPF e MPs estaduais. E é importante ressaltar que isso já vale para outros órgãos da Justiça, como STF, STJ, que já recebiam o auxílio. Nós fomos um dos últimos Estados a pagar esse benefício”.
Sobre o assunto em questão, o promotor demonstra ter uma visão meramente legalista, corporativista e egocêntrica. Nas suas palavras não transparece a mínima preocupação com a sociedade, que é estrutural e legalmente injusta, que exclui e descarta as pessoas com a maior frieza e crueldade, e que é baseada na lei do mais forte, que é a lei da barbárie.
A respeito da conquista do benefício (que, diante de Deus - tenho certeza - é um malefício), Alencar José declara: “comemoramos entre nós. A nossa obrigação, da Associação, é lutar pelos nossos direitos. Na medida em que a PGJ aquieceu a um pedido nosso, que foi feito dentro da lei, da fundamentação que se aplica a todo território nacional, não vejo problemas”.
Perguntado se, na concessão do benefício do auxílio-moradia, não há imoralidade, o promotor diz: “o norte da sociedade moral é a lei. Porque o julgamento moral dessa ou aquela ação é subjetivo. Agimos em cima da legalidade”.
Não dá para acreditar que um promotor possa, honestamente, fazer uma afirmação como essa. Até uma criança do Ensino Fundamental sabe que nem tudo o que é legal, é ético. Na sociedade, a imoralidade é, na maioria das vezes, legalizada e institucionalizada. Ora, quando a lei é injusta, toda pessoa ética tem a obrigação de não aceitar os benefícios concedidos por ela e, se for necessário - em nome do direito à “objeção de consciència” - tem também a obrigação (mesmo com risco de vida) de praticar a “desobediência civil” e de lutar para que a lei seja mudada. O comportamento ético é o comportamento mais humano possível numa determinada situação concreta.
Defender o “auxílio-alimentação e outros auxílios em causa própria, é muita cara-de-pau dos magistrados. Esses juízes e desembargadores não têm moral e, portanto, não têm condição de fazer justiça. Como podemos confiar numa Justiça “injusta”, que é um verdadeiro assalto aos cofres públicos? É lamentável que, em pleno século XXI, exista ainda tanto atraso cultural e ético.
Que - depois de recebermos, com alegria e esperança, a Boa Notícia do Natal de Jesus - 2014 seja, para todos e todas nós, um ano de muito compromisso com a construção de uma nova sociedade, justa, igualitária, de verdadeiros irmãos e irmãs. Feliz Ano Novo!


            Em tempo: voltarei a escrever no início do mês de fevereiro/14.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A Boa Notícia do Natal de Jesus, hoje

"Eu anuncio a vocês a Boa Notícia,
que será uma grande alegria para todo o povo” (Lc 2, 10)

O Evangelho de Lucas diz que, estando José e Maria em Belém, chegou a hora de Maria dar à luz. Como “não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2, 7), Jesus nasceu num estábulo, “rejeitado” e “excluído” pela sociedade da época. Maria o enfaixou e o colocou numa manjedoura. “Veio para a sua casa, mas os seus não o receberam" (Jo 1, 11). Jesus - diríamos hoje - nasceu como “sem-teto”.
Antes de encontrar abrigo num estábulo, José e Maria, grávida de Jesus, perambularam nas ruas e praças de Belém, bateram em muitas portas, que - por serem pobres - sempre se fechavam na frente deles. Dormiram - penso eu - debaixo das marquises nessas mesmas ruas e praças. Hoje diríamos que Jesus, ainda no seio de Maria, foi “morador de rua”.
Os pastores foram os primeiros que receberam a Boa Notícia do Natal de Jesus. "Eu anuncio a vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá de sinal: vocês encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado na manjedoura" (Lc 2, 10-12).
Os pastores foram às pressas se encontrar com José e Maria, e o recém-nascido. Voltaram louvando e glorificando a Deus, e tornaram-se os primeiros anunciadores da Boa Notícia do Natal de Jesus.
Quem eram os pastores? Eram pessoas "odiadas por não respeitar as propriedades alheias, ocupando-as com seus rebanhos e cobrando preços exorbitantes pelos produtos. Um pastor - segundo o Talmud babilônico - não podia ser eleito ao cargo de juiz ou testemunha nos tribunais, por causa da má fama e do desrespeito à propriedade" (Pe. José Bortolini, Roteiros homiléticos. Paulus, 2006, p. 3 - Missa da noite de Natal). Os pastores não eram, portanto, considerados "pessoas de bem". Eram - diríamos hoje - os “sem-terra” da época de Jesus.
E o Natal de Jesus, hoje? Quem são os pastores, hoje? A partir da nossa realidade e à luz da mensagem do Evangelho, podemos afirmar que os pastores são, hoje:
- os “moradores de rua”, que a sociedade hipócrita, injusta e excludente considera “lixo humano” e que são barbarmante assassinados, com a anuência silenciosa das chamadas “pessoas de bem”;
- os “sem-teto”, que, como verdadeiros heróis e verdadeiras heroínas, lutam incansavelmente pelo direito à moradia digna;
- os “sem-terra”, que, unidos e organizados em movimentos, combatem o latifúndio, reivindicam uma verdadeira reforma agrária e defendem o direito à terra de trabalho;
- os “presos”, que, considerados a escória da sociedade, vivem nas cadéias (verdadeiros depósitos de “lixo humano”) em condições degradantes e subumanas;
- os “desempregados”, que, como massa sobrante, descartável e excluída do direito à cidadania, não encontram trabalho para poder sustentar com dignidade a si e a suas famílias;
- os “subempregados” que são explorados por empresas gananciosas, que visam somente o lucro;
- os “trabalhadores”, que - mesmo empregados, na rede pública ou privada - trabalham o dia inteiro e ganham um salário de fome;
- os “doentes”, que, por omissão de socorro, morrem à mingua, devido a uma saúde pública, que é uma verdadeira calamidade;
- os “jovens”, que - envolvidos no mundo das drogas, por falta de políticas públicas de qualidade - são cruelmente exterminados;
- enfim, “todos aqueles e aquelas” que - solidários com os empobrecidos, oprimidos e excluídos da sociedade - denunciam profeticamente as injustiças e lutam, com muito amor e esperança, por um mundo novo, que, à luz da Fé, é o Reino de Deus, acontecendo na história humana e cósmica.
Hoje, são estes os pastores, os primeiros que recebem, com alegria, a Boa Notícia do Natal de Jesus em seu meio. Hoje, são estes os pastores, que, louvando e glorificando a Deus, se tornam os primeiros anunciadores dessa Boa Notícia para todos nós.
Há poucos dias, recebi da Pastoral do Povo da Rua do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia - que acompanho de perto - o convite (o mais honroso da minha vida) para ajudar a servir o almoço a cerca de 100 Moradores de Rua e para almoçar junto com eles. Conversando com os Moradores de Rua, fiquei profundamente impressionado com a sensibilidade humana desses nossos irmãos e irmãs, sofridos e “descartados” pela sociedade.

Fiquei também muito sensibilizado e edificado pelo testemunho de ternura com que a Neusa, a Madalena e a equipe de voluntários trataram os Moradores de Rua. Todos receberam uma cesta de Natal, preparada com carinho e amor de irmãos e irmãs.
Para mim e para todos e todas que estávamos lá, foram eles e elas os primeiros e as primeiras que - numa situação de muito sofrimento - receberam, com grande alergria e esperança, a Boa Notícia do Natal de Jesus. Foram eles e elas os primeiros e as primeiras que anunciaram essa Boa Notícia para todos e todas nós.
No juízo final, “os justos perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar? O Rei responderá: em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 37-40) 
Atenção, meus irmãos e minhãs irmãs! Não nos iludamos, procurando a Boa Notícia do Natal de Jesus onde ela não se encontra. Procuremo-la onde ela realmente se faz ouvir e onde ecoa com toda força profética. Feliz Natal!.

Leia também os artigos:
Jesus, o “sem-teto” de Belém, em:
Jesus, “morador de rua” em Belém, em:

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Parem a execução de Moradores de Rua!

Em Goiânia, entre a noite do dia 4 e a madrugada do dia 5 deste mês, foram barbaramente executados mais três Moradores de Rua: Ricardo Jorge Teixeira Figueiredo (o português), de 30 anos e dois outros homens ainda sem identificação.  
O delegado Adriano Costa, adjunto da Delegacia Estadual de Investigações de Homicídios (DIH), disse que não há nenhuma ligação entre os três casos e nenhuma relação com grupo de extermínio, porque cada caso aconteceu de uma forma diversa do outro.
Delegado Adriano, o senhor não acha que assassinar Moradores de Rua, de forma diversa, pode ser proposital (para despistar), provando justamente o contrário daquilo que o senhor diz? Como o senhor tem o despudor de afirmar que se trata de “problemas pontuais”, quando, somente na capital, em pouco mais de um ano, foram executados 44 (ou 48, segundo uma outra fonte) Moradores de Rua?  Se realmente - pelas investigações feitas - a maioria das execuções está ligada ao acerto de contas entre Moradores de Rua e traficantes, o que tem - ou, quem está - por trás de tudo isso? O fato de a DIH se achar na obrigação de dizer - toda vez que acontecem assassinatos de Moradores de Rua - que não existe grupo de extermínio, não suscita muitas desconfianças?
Infelizmente, matar Moradores de Rua tornou-se habitual e Goiânia, em proporção à sua população, ocupa o primeiro lugar no Brasil. É uma situação que clama por justiça diante de Deus!
Apesar de tantas reuniões, de tantas conversas e de tantas promessas, a ineficiência dos Poderes Executivo e Legislativo (Municipal, Estadual e Federal) é assusdora, com a leniência do Judiciário e a omissão do Ministério Público.
Falou-se diversas vezes na federalização dos assassinatos de Moradores de Rua de Goiânia. Segundo a Midia noticiou, alguns pedidos já foram feitos, mas até agora nada de concreto aconteceu e a matança continua.
Diante dos três últimos assassinatos, na manhã do dia 6 do mês corrente, numa reunião extraordinária do Comitê Pop Rua (órgão da Prefeitura de Goiânia, criado para instituir políticas para a População em situação de Rua), com a participação de um representante da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da Presidência da República (SDH-PR), foi anunciado que a referida Secretaria encaminhou o pedido ao Superior Tribunal de Justiça (STF) para a federalização das investigações dos crimes. A mesma ação já foi feita junto à Procuradoria-Geral da República (PGR).
A busca de uma solução para os assassinatos dos Moradores de Rua de Goiânia é de urgência urgentíssima. Não dá mais para esperar! O que todos e todas desejamos é que as providências tomadas não fiquem - mais uma vez - só em palavras, mas cheguem, com rapidez, a resultados concretos.
            Em nome da Pastoral do Povo de Rua do Vicariato Oeste da Arquidiocese de Goiânia e, penso poder dizer também, em nome de todos aqueles e aquelas que lutam na defesa dos Direitos Humanos, de maneira especial, da vida dos Moradores de Rua, faço novamente (já fiz no início do mês de abril deste ano) à ministra Maria do Rosário, da SDH-PR, quatro apelos dramáticos:
1.    Que, na Grande Goiânia, os Moradores de Rua sejam incluídos, com a máxima urgência, no Sistema de Proteção a Pessoas Ameaçadas do Governo Federal;
2. Que as investigações das mortes de Moradores de Rua sejam federalizadas imediatamente;
3.    Que os resultados das investigações sejam públicos e amplamente divulgados na Mídia;
4.    Que os responsáveis sejam processados, julgados e condenados com rigor e rapidez.

            Chega de tanta barbárie! Em nome de Deus, parem a execução de Moradores de Rua, nossos irmãos e irmãs! 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Para que “nossa agenda” seja em favor da Vida [Agenda/Livro Latino-americana Mundial]

“Eu vim para que tenham Vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10)


Logo na primeira página, a Agenda/Livro Latino-americana Mundial, com palavras de extraordinária densidade humana, diz-nos - de modo resumido, mas claro - o que pretende ser e qual é o seu objetivo.

Ela é “sinal de comunhão continental e mundial entre as pessoas e as comunidades que vibram e se comprometem com as Grandes Causas da Patria Grande (América Latina), como resposta aos desafios da Patria Maior (mundo). Um anuário da esperança dos pobres do mundo, a partir da perspectiva latino-americana. Um manual companheiro para ir criando a ‘outra mundialidade’. Uma síntese da memória histórica da militância e do martírio da Nossa América. Uma antologia de solidariedade e criatividade. Uma ferramenta pedagógica para a educação, a comunicação, a ação social ou a pastoral popular. Da Pátria Grande para a Pátria Maior”.

A Agenda/Livro Latino-americana Mundial é uma “luz” que indica “caminhos”, para que “nossa agenda” seja em favor da Vida, da Justiça e da Paz, ou, em outras palavras, em favor do Reino de Deus. Ela pretende divulgar e celebrar os sinais da presença desse Reino entre nós e tudo aquilo que está sendo feito, para que estes sinais se multipliquem sempre mais. Com isso, ela fortalece a nossa esperança e nos faz acreditar que um mundo novo, igual e fraterno, é possível.  

A Agenda/Livro Latino-americana Mundial começou a ser publicada em 1990. Atualmente, ela é traduzida em seis idiomas e distribuída em 22 países. A edição 2014 traz como tema - que é um grande desafio - “Liberdade. Liberdade!”.

José Maria Vigil, apresentando a Agenda/Livro 2014, exlama: “’Liberdade, Liberdade!’. Um grito, uma bandeira, um suspiro, uma utopia perseguida e sonhada ao longo de toda a História Humana...”. Diz ainda: “faltava esse tema na já longa lista de Grandes Causas e grandes temas de reflexão do itinerário de nossa Agenda/Livro. E aqui estamos, frente a frente com ela, como ideal, como caminho, como compromisso de esperança”. 

A Agenda/Livro convida-nos a refletir sobre a liberdade a partir dos empobrecidos, oprimidos e excluídos (os “pequeninos” do Evangelho), ou seja, a partir do reverso da História. É o único caminho que torna possível a liberdade para todos e para todas. 

Na distribuição dos assuntos - tratados, como afirma José Maria Vigil, por autores “de reconhecido espírito latino-americano” - o esquema usado é sempre o do método latino-americano, tripartido: ver-julgar-agir ou analisar-interpretar-libertar. No ver, os autores analisam críticamente diversos aspectos da realidade da América Latina e do mundo. No julgar, interpretam esses aspectos da realidade com argumentos racionais (filosóficos) e argumentos racionais à luz da Fé (teológicos). No agir, indicam caminhos de libertação, que fazem acontecer a verdadeira liberdade. 

Costumamos dizer que o ser humano, enquanto ser racional, é livre. Considerando, porém, que o ser humano é um ser histórico, situado (num determinado lugar) e datado (num determinado tempo), o certo seria dizer que o ser humano tem a possibilidade de ser livre. A liberdade de fato acontece no processo histórico, que é um processo de libertação de tudo aquilo que nos impede de ser livres, em todas as dimensões da vida humana, pessoais, sociais (sócio-econômico-político-culturais-ecológicas) e cósmicas. Nós somos sujeitos desse processo histórico de libertação, mas condicionados ao lugar em que estamos e ao tempo em que vivemos. O ser humano é fruto do meio ambiente e, ao mesmo tempo, faz o meio ambiente.

Na introdução à Agenda/Livro 2014, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix, Mato Grosso, diz que o tema liberdade é abordado “em todas suas dimensões, buscando conhecer e viver a liberdade integral, que tem muitas vertentes, que é um dom e uma conquista”. 

Diz ainda o bispo: “ser livres, tornar-se livres, acolher a liberdade como um processo espiritual e uma vivência política é ir humanizando sempre mais nossa humanidade”.

Mercedes Sosa - relata Dom Pedro - “faz um convite entranhavelmente humano”: “Irmão, dá-me tua mão, vamos juntos buscar uma coisa pequenina, que se chama liberdade”.

Por fim, podemos dizer que a nossa liberdade não termina onde começa a liberdade dos outros e das outras (liberdade em competição), mas a nossa liberdade acontece com a liberdade dos outros e das outras (liberdade em comunhão).

“A verdade os fará livres” (Jo 8, 32). “Cristo nos libertou para que sejamos de fato livres” (Gl 5, 1). 

Um lembrete: no Brasil, a Agenda-Livro Latino-americana Mundial 2014 - lançada em novembro, em diversas cidades do país - pode ser adquirida pelo telefone ou via e-mail. A edição e publicação são de responsabilidade da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, sediada em Goiânia. Os pedidos devem ser feitos pelo correio eletrônico justpaz@dominicanos.org.br ou pelo telefone (62) 3229.3014, de segunda a sexta-feira, das 13:30 às 17h.

















terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Jovens desafiando jovens [10ª Assembleia do CMI]

A Rede Ecumênica de Juventude (REJU), com sede no Rio de Janeiro, participou - de 30 de outubro a 8 de novembro, na cidade sul-coreana de Busan - da 10ª Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). O testemunho dos jovens da Rede demonstra consciência crítica, maturidade humana e responsabilidade histórica. É realmente motivo de muita esperança. 

Quero comentar o depoimento de Alexandre Pupo Quintino, que é de uma sensibilidade e capacidade de discernimento extraordinárias. Diz o jovem: “participar de uma Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas foi um sonho para mim desde que comecei a me envolver no Movimento Ecumênico. Apesar de saber que o Ecumenismo de verdade acontece na base, nas comunidades, nas paróquias, nos bairros e cidades, a perspectiva global é essencial para o próprio conceito de Ecumenismo”. 

Continua relatando: “durante os últimos 20 dias trabalhei com 120 stewards (articuladores, orientadores, coordenadores). Jovens de todo mundo que, como eu, deixaram suas realidades, ou melhor, trouxeram um pouco delas, para Busan. Aqui nós recebemos formação e tivemos espaços de discussão e compartilhamento; além de trabalharmos na Assembleia. Fui designado para o grupo de Liturgia e Música. Nosso grupo era composto por brasileiros, canadenses, americanos, jamaicanos, coreanos, egípcios, polinésios, finlandeses, alemães, suíços, franceses. Metodistas, batistas, anglicanos, luteranos, ortodoxos, coptas, reformados, unidos”. 

Narra, ainda, Alexandre: “de partida já tivemos muitos desafios culturais e de respeito às diversidades. Imagine pensar em uma celebração que agrade a todos, não ofenda ninguém, e ao mesmo tempo seja significativa. Aí está a beleza do Movimento Ecumênico. Sob o tema ‘Deus da Vida, guia-nos à Justiça e à Paz’, nossas diferenças se tornam pequenas no distanciamento e grandes na beleza da diversidade dos dons de Deus. Cantamos em cantos gregorianos e árabes, oramos em voz alta com os coreanos, cantamos ao ritmo do tango argentino e com os tambores tradicionais da Coreia. A mensagem era uma, apesar das formas diversas. Essa grande diversidade nos lembra do primeiro ponto do tema da Assembleia: Deus da Vida. O nosso Deus é um Deus de Vida. Ele nos deu ela através do seu sopro, se submeteu a ela através do seu Filho e com ela venceu a morte através da Ressurreição. Como cristãos e cristãs, somos convidados a viver essa Vida, esse dom, essa dádiva. As diferentes culturas nos lembram da extensa dimensão desse conceito. A Vida vence a morte, a Vida é maior do que tudo que podemos entender dela, o nosso próprio Deus é Vida”.

O jovem descreve com realismo, mas com muita fé: “nestes dias ouvimos histórias e compartilhamos relatos de situações que afetam nossos contextos e nossas comunidades. Notícias de jornal, tão distantes de nós, como as situações na Síria ou no Paquistão, se tornam muito mais próximas quando as ouvimos direto daqueles que vivem na pele estas situações. Choramos com o relato do Genocídio Armênio, com as histórias do Apartheid na África do Sul, com a situação ainda sem resolução dos nossos irmãos palestinos. Aprendemos sobre questões de gênero e violência contra a mulher, sobre a história da Libéria, sobre a divisão das Coreias”. 

Alexandre faz, pois, um caloroso apelo: “olhando tudo isto, fomos desafiados por esse nosso Deus que é Vida. Sigamos em direção à Justiça e à Paz. A voz profética não terminou com os profetas do Antigo Testamento ou com a Ascensão do Cristo, ela seguiu como um mandamento a todos aqueles que estivessem dispostos ao discipulado de Jesus. Denunciar o pecado da injustiça, da morte, da opressão, da desigualdade, da guerra; e proclamar o ano aceitável, a Justiça, a Paz, a Vida plena, o Reino; é o que une cristãos do mundo inteiro ao Corpo de Cristo. É isso que nos lembra a própria Eucaristia, o Cristo que se faz realmente presente quando há partilha”.

Alexandre relata, ainda, que Olive - uma jovem coreana com a qual tiveram o prazer de conviver nos últimos dias - numa reunião com os stewards do grupo de Liturgia e Música - disse: “Vocês sabem que a sociedade coreana tem muita hierarquia e diferentes formas de tratamento de acordo com a sua idade. Hoje eu me dei conta que estamos trabalhando num comitê junto com dois dos mais famosos regentes da Coréia. Um deles, inclusive, me deu aula. Porém, aqui nos tratamos como iguais, todos dão suas opiniões, as discordâncias são reconhecidas e a igualdade prevalece, parece o Reino de Deus”. 

Que depoimento bonito e significativo! É isso que nos fortalece a todos e todas, e nos incentiva - com esperança, que já é certeza de vitória - a continuar a luta por um Mundo Novo, de justiça, igualdade, fraternidade e amor.

O jovem continua relatando: “em cada encontro e desencontro, oração, culto, conversa e jantar, nós tivemos a oportunidade única de viver essa experiência de diversidade e igualdade, unidade e respeito. Tudo foi muito intenso e vou levar muito tempo para entender o que realmente foi tudo isso, o quanto tudo isso mudou minhas perspectivas, aqueceu minha fé, renovou minha experiência com Deus”. 

Como ao fim de cada viagem, o jovem lembra, pois, do sábio ensinamento do avô: “Em uma viagem, o mais importante não são os lugares que você vai conhecer, as fotos que você vai tirar, mas as pessoas com que você vai encontrar pelo caminho que vão marcar sua vida”. 

Alexandre termina o seu depoimento, dizendo: “esta caminhada ecumênica é como uma grande peregrinação, na qual vamos encontrando pessoas diferentes que podem até se estranhar de princípio, mas que aos poucos se percebem caminhando na mesma direção. Então, os passos começam a entrar no mesmo compasso ao som da canção do Deus da Vida, e é nessa hora que lá no horizonte é possível começar a vislumbrar o Reino de Justiça e Paz. Somos todos peregrinos” (http://www.reju.org.br/noticias-conteudo.asp?cod=1634 - 14/11/13). 

Parabéns, Alexandre! O seu depoimento - que é o testemunho de uma maravilhosa experiência de Vida - é de uma profundidade teológica extraordinária, que, tenho certeza, fará um bem imenso a todos os jovens e a todas as jovens, libertando-os e libertando-as de tudo aquilo que impede a verdadeira Vida e a verdadeira Felicidade. Continue sendo profeta da Vida, sobretudo no meio dos jovens e das jovens! Um outro mundo é possível e necessário! Os jovens e as jovens são seus protagonistas, “no seguimento de Jesus Cristo, na vivência eclesial, e na construção da Vida, da Justiça e da Paz” (CF 2013: Fraternidade e Juventude). “Eis-me aqui, envia-me!” (Is 6, 8). Que o Natal de Jesus 2013 seja, para todos e todas nós, um Novo Natal! 

Leia também o artigo “Deus da Vida guia-nos à Justiça e à Paz” [10ª Assembleia do CMI], em:
http://www.dm.com.br/jornal/#!/view?e=20131122&p=19;
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=78785&langref=PT&cat=24.

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos