sábado, 28 de novembro de 2015

Carta de Santa Cruz, do 2º EMMP (1ª parte)



           A “Carta de Santa Cruz”, do 2º EMMP (juntamente com a “Carta dos Excluídos aos Excluídos”, do 1º EMMP - Roma, 27-29/10/14) servirá de base para o trabalho dos Movimentos Populares em seus respectivos países. Como a do primeiro Encontro, a Carta está em plena sintonia com o Discurso do Papa Francisco e é também uma fonte inspiradora para as Pastorais Sociais e Ambientais da Igreja, hoje.
           Pretendo agora, com alguns comentários e questionamentos, destacar os 10 pontos da Carta, que inicia dizendo: “As organizações sociais reunidas no Segundo Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, durante os dias 7, 8 e 9 de julho de 2015, concordamos com o Papa Francisco em que as problemáticas social e ambiental emergem como duas faces da mesma moeda. Um sistema incapaz de garantir terra, teto e trabalho para todos, que mina a paz entre as pessoas e ameaça a própria subsistência da Mãe Terra, não pode seguir regendo o destino do planeta”.
         Quanta clareza e quanta firmeza nas palavras dos participantes do 2º EMMP! Eles sentem-se fortalecidos com a proximidade, a solidariedade e o apoio do Papa Francisco, que é hoje o grande animador e incentivador das lutas dos Movimentos Populares. E nós? E as Pastorais Sociais e Ambientais da nossa Igreja? Não podemos ser omissos ou indiferentes diante do testemunho do nosso irmão Francisco. É um sinal dos tempos. É - como já disse - uma “revolução evangélica”.
         A Carta aponta o caminho da mudança: “Devemos superar um modelo social, político, econômico e cultural onde o mercado e o dinheiro se converteram nos reguladores das relações humanas em todos os níveis”.
        E acrescenta: “Nosso grito, o grito dos mais excluídos e marginalizados, obriga que os poderosos compreendam que não se pode seguir dessa forma. Os pobres do mundo se levantaram contra a exclusão social que sofrem cotidianamente. Não queremos explorar, nem ser explorados. Não queremos excluir, nem ser excluídos. Queremos construir um modo de vida no qual a dignidade esteja acima de todas as coisas”.
Para alcançar esse objetivo, os participantes do Encontro assumem os seguintes compromissos, que são um programa de luta e de vida:
  1. Impulsionar e aprofundar o processo de mudança. Reafirmamos nosso compromisso com os processos de transformação e libertação como resultado da ação dos povos organizados, que a partir de suas memórias coletivas tomam a história em suas mãos e decidem transformá-la, para dar vida às esperanças e às utopias que nos convocam a revolucionar as estruturas mais profundas de opressão, dominação, colonização e exploração”.
Será que nós - como cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs - estamos convencidos que “os processos de transformação e libertação” são o “resultado da ação dos povos organizados”, que “tomam a história em suas mãos e decidem transformá-la”? Será que queremos realmente “dar vida às esperanças e às utopias que nos convocam a revolucionar as estruturas mais profundas de opressão, dominação, colonização e exploração”? Meditemos!
  1. Bem viver, em harmonia com a Mãe Terra. Seguiremos lutando para defender e proteger a Mãe Terra, promovendo a ‘ecologia integral’ de que fala o papa Francisco. Somos fiéis à filosofia ancestral do ‘bem viver’, nova ordem de vida que propõe harmonia e equilíbrio nas relações entre os seres humanos e entre estes e a natureza. A terra não nos pertence, nós pertencemos à terra. Devemos dela cuidar e trabalhá-la em benefício de todos. Queremos leis ambientais em todos os países em função do cuidado dos bens comuns. Exigimos a reparação histórica e um marco jurídico que resguarde os direitos dos povos indígenas em nível nacional e internacional, promovendo um diálogo sincero a fim de superar os diversos e múltiplos conflitos que atravessam os povos indígenas, originários, camponeses e afrodescendentes”.
Que determinação e que profundidade humana encontramos nas palavras dos participantes do Encontro! Que nível de consciência ecológica e que senso de responsabilidade! É um testemunho de vida para todos e todas nós! É um motivo de muita esperança!
  1. Defender o trabalho digno. Comprometemo-nos a lutar na defesa do trabalho como direito humano. Pela criação de fontes de trabalho digno, pelo desenho e implementação de políticas que restituam todos os direitos trabalhistas eliminados pelo capitalismo neoliberal, tais como os sistemas de seguridade social, a aposentadoria e o direito de sindicalização. Rechaçamos a precarização, a terceirização e buscamos que se supere a informalidade através da inclusão, nunca com perseguição ou repressão. Levantamos também a causa dos migrantes, deslocados e refugiados. Instamos aos governos dos países ricos a que derroguem todas as normas que promovem tratamento discriminatório contra eles e que estabeleçam formas de regulação que eliminem o trabalho escravo, o tráfico de pessoas e a exploração infantil. Impulsionaremos formas alternativas de economia, tanto em áreas urbanas como em zonas rurais. Queremos uma economia popular e social comunitária que resguarde a vida das comunidades e na qual prevaleça a solidariedade acima do lucro. Para isso é necessário que os governos fortaleçam os esforços que emergem das bases sociais”.
Esses compromissos - e os outros da “Carta de Santa Cruz” - são o caminho que faz acontecer a mudança. Ah, se os nossos políticos e governantes seguissem esse caminho! Reparem a clareza e a força da expressão: “Queremos uma economia popular e social comunitária que resguarde a vida das comunidades e na qual prevaleça a solidariedade acima do lucro”! Lutemos para que essa economia se torne realidade! Vamos eleger, com urgência, políticos e governantes que estejam realmente comprometidos com esse projeto!
(Continua no próximo artigo).



Fr Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 18 de novembro de 2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Discurso de Francisco aos participantes do 2º EMMP - Defender a Mãe Terra



Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa Irmã, a Mãe Terra,
que nos sustenta e governa e produz variados frutos
 com flores coloridas e verduras” (Cântico das criaturas)


Neste 5º artigo sobre o 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares destaco o quarto e último ponto marcante do Discurso do Papa Francisco: “defender a Mãe Terra” (que é a terceira grande tarefa, “talvez - diz ele - a mais importante que devemos assumir hoje”, proposta por Francisco aos Movimentos Populares).
O Papa Francisco inicia dizendo: “A casa comum de todos nós está sendo saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra reuniões de cúpula internacionais sem qualquer resultado importante”.
E afirma: “Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está sendo cumprido. Não se pode permitir que certos interesses - que são globais, mas não universais - se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação”.
Francisco faz, pois, um apelo à responsabilidade: “Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir - pacífica, mas tenazmente - a adoção urgente de medidas apropriadas”. E um pedido: “Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na Carta Encíclica ‘Laudato si’”.
O Papa conclui lembrando: “Quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança”.
Reparem a confiança que Francisco deposita na capacidade dos povos se organizarem e dos Movimentos Populares conduzirem o processo de mudança!
Enfim, com muita empatia para com os Movimentos Populares, o Papa manifesta sua solidariedade: “Estou com vocês. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice”.
E de coração aberto, como um verdadeiro irmão, incentiva os Movimentos Populares, dizendo: “Continuai com a luta de vocês e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vocês, rezo com vocês e quero pedir a Deus nosso Pai que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim”.
O Discurso de Francisco - que certamente não agrada aos detentores do poder econômico, mesmo que às vezes se digam “católicos” - é claramente anticapitalista. Chama o capitalismo de “sistema idólatra que exclui, degrada e mata”; de “sistema que impõe a lógica do lucro a todo custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza” (a Mãe Terra); de “sistema insuportável” e “ditadura sutil”.
O Papa convida-nos a escutar os clamores da nossa Irmã, a Mãe Terra - violentada e devastada - e a nos comprometer com sua defesa.
nossa casa comum se pode comparar ora a uma Irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa Mãe, que nos acolhe nos seus braços”. Esta Irmã, a Mãe Terra, “clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que ‘geme e sofre as dores do parto’ (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos”.
Precisamos com urgência mudar o nosso comportamento e as estruturas do sistema no qual vivemos. Qual é a contribuição que a Igreja, com suas Pastorais Sociais e Ambientais, pode dar para essa mudança? Como cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs, pensemos!


Fr Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 11 de novembro de 2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Discurso de Francisco aos participantes do 2º EMMP - Unir os nossos Povos no caminho da Paz e da Justiça


Neste 5º artigo sobre o 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares destaco o quarto ponto marcante do Discurso do Papa Francisco: “unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça” (que é a segunda grande tarefa proposta por Francisco aos Movimentos Populares).
O Papa Francisco começa dizendo: “Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados”.
E ainda: “Nenhum poder efetivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque ‘a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do ser humano, mas também no respeito pelos direitos dos povos, sobretudo o direito à independência’” (cita o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja” do Pontifício Conselho ‘Justiça e Paz’, 157).
Francisco lembra: “Os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições, procurando conquistar uma independência plena”.
E constata: “Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os Governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a ‘Pátria Grande’”.
O Papa faz, pois, um pedido aos Movimentos Populares: “Peço-vos, irmãos e irmãs dos Movimentos Populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça”.
Francisco reconhece: “Apesar destes avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e limitam a soberania dos países da ‘Pátria Grande’ e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados ‘de livre comércio’ e a imposição de medidas de ‘austeridade’ que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres”.
O Papa lembra ainda: “Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no Documento de Aparecida (66), quando afirmam que ‘as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações’”.
Como um verdadeiro profeta, Francisco denuncia: “Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo - graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada - vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores”.
E continua: “Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social, que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural, é outra das formas que adota o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em ‘peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante’” (cita a Exortação Apostólica pós-sinodal “Ecclesia in Africa” de São João Paulo II, 52).
O Papa conclui dizendo: “Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum Governo pode atuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interação não é sinónimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros”.
Sempre com muito realismo, Francisco afirma: “O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter”.
Quanta clareza e quanta sabedoria nas palavras de Papa! Meditemos! Diante dessa realidade desumana e antievangélica, Francisco convida-nos a tomar uma posição clara, sem meios termos e sem ambiguidades: “Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz”.
Por último, o Papa diz: “Aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: ‘quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas ações da Igreja’. Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja ‘se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão pelos pecados passados e presentes dos seus filhos’” (cita a Bula “Incarnationis mysterium” de São João Paulo II, 11).
E afirma: “Digo-vos que quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América. Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a Boa Nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz; que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios Movimentos Populares mesmo até ao martírio”.
Francisco declara: “A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”.
Irmãos e irmãs, reparem a radicalidade evangélica dessas palavras: “a nossa fé é revolucionária”, “a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”! Como cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs, o Papa nos provoca, nos faz refletir e nos impele a tomar atitudes firmes.
Com muita dor no coração, Francisco reconhece: “Hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar”. Mais uma vez, irmãos e irmãs, reparem as palavras: “terceira guerra mundial em parcelas”. Não dá para sermos indiferentes diante dessa realidade!
O Papa termina essa parte de seu discurso expressando sua solidariedade de irmão aos povos indígenas: “Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A procura desta interculturalidade, que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados, enriquece-nos e fortalece-nos a todos”.

Quanta sensibilidade, quanta ternura e quanta sintonia com os desafios do mundo de hoje nas palavras e nas atitudes do nosso irmão Francisco! E nós cristãos e cristãs - em nossas Pastorais Sociais e Ambientais - temos essa mesma sensibilidade, essa mesma ternura e essa mesma sintonia? Pensemos!


Fr Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 04 de novembro de 2015


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Discurso de Francisco aos participantes do 2º EMMP - Pôr a economia a serviço dos Povos


Depois de mais de um mês de interrupção, retomo hoje os meus escritos. Neste 4º artigo sobre o 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares (três já foram publicados) destaco o terceiro ponto marcante do Discurso do Papa: “pôr a economia a serviço dos povos” (que é a primeira grande tarefa proposta por Francisco aos Movimentos Populares).
O Papa - demostrando sempre proximidade e empatia com os Movimentos Populares - afirma: “Por último, gostaria que refletíssemos juntos sobre algumas tarefas importantes neste momento histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto de Governos, Movimentos Populares e outras forças sociais. Sabemos isto também!”.
Mas, com muito realismo, ele reconhece: “Não é tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflita este projeto de fraternidade e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no coração”.
No entanto - como um irmão que deseja contribuir com a luta dos Movimentos Populares - Francisco diz: “Gostaria de vos propor três grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos Movimentos Populares”. A primeira é “pôr a economia a serviço dos povos”; a segunda, “unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça”; a terceira, “defender a Mãe Terra” (que - afirma - “é talvez a mais importante que devemos assumir hoje”). Comecemos com a primeira.
O Papa - com clareza e objetividade - afirma: “Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”.
Francisco - como um verdadeiro profeta - anuncia: “A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um ‘decoroso sustento’. Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos ‘3 T’ (Terra, Teto, Trabalho) pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária - poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã - deve garantir aos povos dignidade, ‘bem-estar e civilização em seus múltiplos aspectos’” (cita a Encíclica “Mater et Magistra” de São João XXIII, 3).
E ainda: “Isto envolve os ‘3 T’, mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao esporte e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentadoria na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vocês - e outros povos também - resumem este anseio duma maneira simples e bela: ‘bem viver’”.
Acreditando, pois, na capacidade que o ser humano tem de mudar a realidade e na força transformadora dos Movimentos Populares, o Papa diz: “Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia (irrealizável), nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de ‘todos os homens e do homem todo’” (cita a Encíclica “Populorum Progressio” do Beato Paulo VI, 14).
Mas - constata Francisco - “o problema é outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da ‘produtividade’, continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projeto de Jesus”.
Com firmeza, o Papa declara: “A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário”.
Como um verdadeiro irmão, Francisco nos questiona a todos e a todas. Pergunto: Será que as Pastorais Sociais e Ambientais da nossa Igreja encaram os planos (as obras) de assistência como “respostas transitórias”? Será que participam, ativa e conscientemente, das lutas de todas as forças sociais organizadas que levam à “verdadeira inclusão”? Como cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs, meditemos!
O Papa reconhece: “Neste caminho, os Movimentos Populares têm um papel essencial (reparem: papel essencial!), não apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vocês são poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global”. Mais uma vez, reparem: “descartados pelo mercado global”!
Francisco continua, pois, relatando: “Conheci de perto várias experiências, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papel são exemplos desta economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adota formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do fato de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!”.
As palavras do Papa - que são de um realismo contundente - nos questionam, nos incomodam e nos impelem a tomar atitudes concretas claras e sem ambiguidades. Reparem novamente: Francisco fala de uma “economia popular, que surge da exclusão”!
Enfim, com muita esperança, ele afirma: “Os Governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia a serviço das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infraestruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste setor alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos ‘3 T’, ativam-se os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa”. Ah, se os nossos governantes tivessem essa consciência!
Em síntese, Francisco, de um lado, fala que a economia do sistema dominante é uma “economia de exclusão e desigualdade”, uma “economia idólatra”; uma economia que “mata”, que “exclui” e que “destrói a Mãe Terra”, e nos pede para dizer “NÃO” a essa economia. De outro lado, com o coração aberto e cheio de esperança, fala de uma “economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adota formas solidárias que a dignificam”; de uma “economia popular e produção comunitária”; de uma “economia verdadeiramente comunitária”; de uma “economia de inspiração cristã”; de uma “economia justa”; de uma “economia a serviço das pessoas”.
As palavras do Papa revelam que sua tomada de posição é claramente anticapitalista, verdadeiramente profética, radicalmente humana e profundamente evangélica. E nós, cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs, de que lado estamos? Qual é a nossa tomada de posição?




Fr Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP),
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 28 de outubro de 2015

A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos