sábado, 16 de setembro de 2017

Pecado de omissão da Igreja


A respeito do 23º Grito dos Excluídos 2017 - cujo tema é “Vida em primeiro lugar” e lema “Por direitos e democracia, a luta é todo dia” - a CNBB Nacional enviou às Comunidades, Paróquias e Dioceses três Cartas ou Mensagens. A primeira “Apoio ao 23º Grito dos Excluídos” (12 de julho) da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora (Pastorais Sociais) solicita “efetivo apoio” ao 23º Grito dos Excluídos/as 2017.
A segunda “Unidos para servir” (16 de agosto), da Presidência da CNBB, pede que o dia 7 de setembro seja também um dia de oração e jejum pelo Brasil. A terceira “Vida em primeiro lugar” (31 de agosto), também da Presidência da CNBB, pede novamente às Comunidades o apoio ao 23º Grito dos Excluídos/as. “Encorajamos, mais uma vez, as pessoas de boa vontade, particularmente em nossas Comunidades, a se mobilizarem pacificamente na defesa da dignidade e dos direitos do povo brasileiro, propondo ‘a vida em primeiro lugar’”.
Apesar dessas Cartas, muitas Dioceses - como a Arquidiocese de Goiânia - não atenderam ao pedido da CNBB e preferiram o silêncio, a indiferença e o desinteresse, lavando as mãos como Pilatos e traindo Jesus na pessoa dos Excluídos/as como Judas. A Arquidiocese de Goiânia, em seus meios de comunicação, como o “Encontro Semanal” (distribuído em todas as Comunidades e Paróquias) e outros, não publicou uma só palavra sobre o 23º Grito dos Excluídos/as.
É uma falta de comunhão com a CNBB. As Cartas - dizem os defensores desse posicionamento - não têm caráter de obrigatoriedade. Que visão legalista e farisaica! A comunhão constrói-se a partir do compromisso com a promoção da vida e não do que é canonicamente obrigatório.
Para quem (como eu, que fui colaborador direto de Dom Fernando Gomes dos Santos) acompanhou e viveu intensamente a caminhada de renovação pós-conciliar da Igreja de Goiânia na década de setenta e oitenta, tudo o que está acontecendo hoje é muito doido! O Papa são João XXIII abriu as janelas (e as portas) da Igreja para que entrasse ar puro, mas atualmente muitas Igrejas locais (Dioceses) preferem fechar novamente as janelas (e as portas) e ficar com o ar contaminado. É uma provação pela qual a Igreja da Caminhada - como se costumava chamar - está passando. Ela não morreu! Está muito viva, mesmo que seja nas catacumbas! Ela voltará fortalecida e com mais vigor! Tenho certeza, na fé, que Deus vai me dar a graça de ver esse dia!
A desculpa apresentada para tentar justificar a não participação no 23º Grito dos Excluídos/as foi: o Grito defende algumas bandeiras com as quais a Igreja não concorda. Ora, se os seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré são chamados a ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa, podem - eles e elas - escolher o tipo de terra que querem salgar, o tipo de mundo que querem iluminar e o tipo de massa que querem fermentar? Não é isso um absurdo?
Vejam com que simplicidade, respeito e espírito fraterno o Papa Francisco - no meio dos Movimentos Populares - se coloca diante da questão da diversidade e das diferenças. “Nós que hoje estamos aqui, de diferentes origens, credos e ideias, talvez não estejamos de acordo acerca de tudo, certamente pensamos de modo diverso sobre muitas coisas, mas sem dúvida estamos de acordo sobre estes pontos”, ou seja, as três tarefas imprescindíveis para a mudança de estruturas e a construção de uma alternativa humana: “pôr a economia ao serviço dos povos; construir a paz e a justiça e defender a Mãe Terra” (Discurso aos participantes do 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Roma - Itália, 05/11/16)
Vejam também o que diz o Papa a respeito da participação dos cristãos/ãs nos Movimentos Populares e o convite que ele faz a todos e todas nós. “Soube que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este Encontro” (Discurso aos participantes do 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Por que muitos padres e bispos - pastores de Comunidades, Paróquias e Dioceses - não fazem como o Papa e não atendem ao seu convite? Por que a Arquidiocese de Goiânia não publicou uma palavra sequer sobre os três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares com o Papa, que são a “marca registrada” do seu ministério pastoral?
Infelizmente, temos hoje na Igreja dois tipos de oposição ao Papa Francisco: a direta - que, mesmo não concordando com ela, devemos respeitar - e a silenciosa, que é uma oposição seletiva e cita do Papa só aquilo que lhe interessa. Essa oposição é hipócrita e farisaica! Não podemos aceita-la!
Apesar do boicote silencioso de muitas Igrejas locais (Dioceses) - que é um grave pecado de omissão, do qual os responsáveis terão que prestar conta a Deus - o Grito dos Excluídos/as aconteceu no Brasil inteiro e alcançou seus objetivos.
Em Goiânia - como foi amplamente divulgado - o Grito aconteceu na Região Noroeste. Participaram mais de 500 pessoas, a maioria líderes de Movimentos Populares e Sindicais, animadores e animadoras de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), agentes das Pastorais socioambientais, da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e (um testemunho que nos edificou a todos e todas) muitas religiosas inseridas, que (com o apoio da CRB Nacional e Regional) vivem a vida do povo e são solidárias com suas lutas (mesmo tendo que enfrentar às vezes - como diz o Papa Francisco - a “peste do clericalismo”. Os Padres éramos três.
Pela gravidade das situações que os nossos irmãos e irmãs vivem - entre os presentes no Grito - merecem um destaque especial e todo nosso apoio o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) e o Movimento Nacional dos Trabalhadores/as Sem Teto (MTST).
À luz da fé, fizemos a experiência da presença de Jesus de Nazaré. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (ou seja, por causa de mim e do meu projeto de vida), eu estou no meio deles” (Mt 18, 20).
Lembremos as palavras do Papa Francisco - pronunciadas há poucos dias - que nos animam a todos/as e fortalecem a nossa esperança. “Existem os pecados dos dirigentes da Igreja, carentes de inteligência ou que se deixam manipular. Mas a Igreja não são os bispos, os papas, os padres. A Igreja é o povo” (Dominique Woltom. Francisco - “socialmente um pouco franciscano, intelectualmente um pouco dominicano e politicamente um pouco jesuíta”. Instituto Humanitas Unisinos - IHU, 12/09/2017. Em: http://www.ihu.unisinos.br/571571-voce-sabe-como-um-argentino-se-suicida).
Na medida em que - diz ainda Francisco - nos envolvermos com a vida de nosso povo fiel e sentirmos a profundidade de suas feridas, podemos ver, sem filtros clericais, o rosto de Deus” (Em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/567500-papa-aos-bispos-do-celam-despojar-se-dos-filtros-clericais).
Trata-se de diariamente trabalhar no campo, lá onde vive o Povo de Deus. A missão se faz no corpo a corpo” e - acrescento eu - não morando em palacetes (Em: http://br.radiovaticana.va/news/2017/09/07/papa_aos_bispos_do_celam_a_miss%C3%A3o_se_faz_no_corpo_a_corpo/1335393).
A proposta dos Grupos Bíblicos, das Comunidades Eclesiais de Base e dos Conselhos Pastorais - continua o Papa - se colocam na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade dos leigos”. (Em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/july/documents/papa-francesco_20130728_gmg-celam-rio.html). Meditemos!

A esperança nunca morre! Vamos à luta!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 13 de setembro de 2017 

domingo, 10 de setembro de 2017

16ª Romaria da Terra e das Águas de Goiás


No dia 2 de setembro milhares de romeiros e romeiras, trabalhadores e trabalhadoras de toda a Diocese de Goiás e também de outras Dioceses do Estado se encontraram na cidade de Itapuranga (GO) para a realização da 16ª Romaria da Terra e das Águas (e das Sementes).
O tema escolhido foi "Organização popular e Luta por Direitos" e o lema “Memória, Rebeldia e Esperança.
Com a escolha do tema e do lema, a Romaria quis destacar a necessidade de ampliar e intensificar a organização popular para combater a concentração das terras, a destruição dos biomas brasileiros (de maneira especial, do cerrado), a contaminação das águas e a criminalização dos Movimentos Populares. Quis destacar também a necessidade de ampliar e intensificar a luta por direitos para defender a Mãe Terra, as sementes, a agroecologia familiar e comunitária, a soberania alimentar (direito de todos/as de produzir. distribuir e consumir alimentos saudáveis) e todos os direitos que estão sendo tirados. “Nenhum direito a menos!”.
Quis destacar ainda a necessidade de fazer a memória das lutas populares, dos mártires e da Igreja da Caminhada; a necessidade de rebeldia dos cristãos/ãs - sobretudo jovens - e de todas as pessoas frente ao sistema capitalista neoliberal, que é um sistema de exploração e ganância; e a necessidade de alimentar a esperança de uma boa convivência com o meio ambiente e de um mundo fraterno e justo em Cristo.
No mesmo dia da Romaria - na parte da manhã - a Pastoral da Juventude da Diocese de Goiás realizou o Dia Nacional da Juventude (DNJ), que contou com aproximadamente 500 jovens. O encontro aconteceu na Igreja Nossa Senhora de Fátima - iniciando às 8h e encerrando com o almoço - e foi marcado por momentos orantes, oficinas culturais, danças e muita cantoria. O DNJ teve como tema: “Juventude em defesa da vida, dos povos e da Mãe Terra”. No período da tarde, os jovens continuaram celebrando seu dia participando da Romaria da Terra e das Águas.
A Romaria foi organizada pela Diocese de Goiás, CPT diocesana e CPT Regional Goiás, com o apoio da CNBB Regional Centro Oeste e da Comissão das Pastorais Sociais da CNBB Nacional. Logo na chegada (no início da tarde), os romeiros e as romeiras foram recepcionados por grupos da Paróquia de Itapuranga que davam informações e orientações sobre a Romaria.
Na Feira Coberta da cidade - éramos quase cinco mil pessoas (entre as quais muitos/as jovens) - começou a Romaria com a acolhida das diversas caravanas de romeiros e romeiras que vinham das Paróquias da Diocese de Goiás e também de outras Dioceses do Estado. Da Paróquia Nossa Senhora da Terra do Jardim Curitiba III (Arquidiocese de Goiânia) éramos uma delegação de mais de oitenta pessoas (dois ônibus).
Foram acolhidos também representantes de Movimentos Populares do campo e da cidade, de Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras e alguns políticos (infelizmente, poucos), que apoiam a luta popular.
Ainda na Feira Coberta houve algumas falas concluindo com um momento de oração, presidido por Dom Eugênio Rixem, bispo de Goiás. Logo em seguida a equipe de animação convidou a todos e todas para a caminhada pelas principais ruas do Centro de Itapuranga. Estavam presentes também Dom Messias, bispo da Diocese de Uruaçu e Presidente da CNBB Regional Centro Oeste e Dom Guilherme, bispo da Diocese de Ipameri e Presidente da Comissão das Pastorais Sócias da CNBB Nacional.
Durante a caminhada, foi feita - com uma bonita encenação - a memória dos mártires da luta. Terminada a caminhada, todos e todas nos encontramos às margens do lago da cidade onde houve shows culturais, fala dos Movimentos Populares e lançamento do CD “O Povo Canta sua luta” da Diocese de Goiás.
A Romaria concluiu com a Celebração Eucarística, presidida por Dom Eugênio Rixen e concelebrada por Dom Messias, Dom Guilherme, Pe. Antonio Motta (Vigário Geral), Pe. Celso Carpenedo (Pároco de Itapuranga e Coordenador Diocesano de Pastoral) e alguns padres que estavam no meio do povo. A Celebração - que começou às 19h e terminou depois das 21h - foi um tempo forte de espiritualidade libertadora que nos confirmou a todos e todas na luta. Por ser uma Celebração muito rica em beleza e simbologia, representou - com seus cantos - o ápice do dia.
Em sua homilia Dom Eugênio iniciou saudando a todos os presentes e disse: “Passamos esse dia e foi um dia muito lindo, muito bem preparado onde muita gente se envolveu realmente e nós ficamos felizes de estarmos juntos aqui na mesma luta e no mesmo sonho”. Lembrou ainda que a pior coisa que pode acontecer é matar a esperança do povo e conclui citando a frase do mártir vivo Pe. Francisco Cavazzuti: “Aqui as forças da morte não venceram a vida”.
A Diocese de Ipameri irá acolher a 17ª Romaria da Terra, das Águas e das Sementes (Fonte: http://www.diocesedegoias.org.br/).
Na Romaria da Terra e das Águas fizemos a experiência da presença do Deus dos Oprimidos/as (Excluídos/as, Descartados/as), que caminha com seu povo e é um Deus Libertador. “Vi a miséria do meu povo, ouvi o seu clamor e conheci seu sofrimento, por isso desci para libertá-lo” (Ex 3, 7-8).
Por acreditar nesse Deus Libertador e por ser seguidor de Jesus de Nazaré (o maior revolucionário da história) - com dor no coração, mas com amor à Igreja - quero denunciar e lamentar o desinteresse e a indiferença da Arquidiocese de Goiânia e de outras Dioceses de Goiás (sobretudo de seus pastores: bispos e padres) em relação à Romaria da Terra e das Águas. Esse desinteresse e essa indiferença é um pecado de omissão,
Comunico aos romeiros e romeiras da 14ª Romaria da Arquidiocese de Goiânia - que foram a Aparecida do Norte justamente na data da Romaria da Terra e das Águas de Goiás - que perderam a viagem. Nossa Senhora Aparecida não estava lá, mas tinha ido a Itapuranga (GO) para participar da Romaria da Terra e das Águas. No dia 2 sentimos - de maneira muito forte - sua presença no meio de nós e às 18h (horário da Missa da Romaria da Arquidiocese de Goiânia em Aparecida do Norte), Nossa Senhora Aparecida estava nas margens do lago da cidade de Itapuranga, para participar - junto com todos os trabalhadores e trabalhadoras - da Celebração final da Romaria da Terra e das Águas. Tenho certeza que Nossa Senhora Aparecida teria gostado muito que a Arquidiocese de Goiânia tivesse incentivado os romeiros e as romeiras a irem a Itapuranga, deixando a Romaria a Aparecida do Norte para outra data.

Lutemos por uma Igreja pobre, para os pobres, com os pobres e dos pobres! É o sonho de Jesus de Nazaré! É o sonho do Concílio Vaticano II e de Medellín! É o sonho, hoje, da Igreja das catacumbas!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 06 de setembro de 2017 

sábado, 2 de setembro de 2017

Grito dos Excluídos/as 2017 “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”

Ouso dizer que está nas mãos dos Excluídos/as
o futuro da humanidade” (Papa Francisco)

O tema do 23º Grito dos Excluídos/as é - como sempre foi em todos os Gritos - “Vida em primeiro lugar!” e o lema - que muda a cada ano - é “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”.
No artigo anterior “Grito dos Excluídos/as 2017 - CNBB solicita ‘efetivo apoio’” apresentei, com alguns comentários, o conteúdo da Carta da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da CNBB sobre o 23º Grito (veja o artigo na internet). Neste artigo, abordo a temática e os objetivos (geral e específicos) desse Grito e faço algumas reflexões.
Começo lembrando que “os direitos e os avanços democráticos no Brasil, conquistados nas últimas décadas, são fruto das lutas populares. Exemplo disso foi a significativa participação da sociedade civil no debate para a elaboração e promulgação da Constituição Federal de 1988”, embora “muitas leis que garantiam direitos sociais não tenham sido regulamentadas, e muito menos aplicadas, correndo o risco de serem retiradas”.
Hoje, essas leis, em nome da chamada “modernização” - que na realidade é uma forma mais sutil e mais perversa de aumentar a exploração dos trabalhadores/as, sugando seu sangue - estão sendo retiradas pelo Governo ilegítimo do golpista Michel Temer, que não passa de um fantoche do sistema capitalista neoliberal mundial. Com o ajuste fiscal, esse Governo ilegítimo impõe reformas (ou melhor, antirreformas), que têm o objetivo de “retirar os direitos dos trabalhadores/as para tentar resolver a crise econômica no país”, como “a reforma trabalhista; a previdenciária; o congelamento de investimentos por 20 anos na saúde, educação, seguridade, saneamento; e a terceirização, que representam um retrocesso nos direitos conquistados no Brasil com muitas lutas, nos últimos 30 anos”.
O processo democrático - que garante vez e voz ao povo - não foi consolidado. “O que vivenciamos hoje é uma democracia representativa, profundamente questionada porque não representa a vontade popular. Se de fato ‘todo poder emana do povo’, como está na Constituição Federal, é preciso com urgência regulamentar e por em prática as leis que garantem vez e voz do povo nas decisões políticas do país. Avançar da democracia representativa para a democracia direta e participativa”.
A organização, a participação e a construção da luta de classe (que não é “ódio de classe”) precisa ser uma prática diária. Despertar a solidariedade entre os trabalhadores/as e organizar a resistência são elementos fundamentais nesse processo de democratização e defesa de direitos. Entretanto, o objetivo da nossa luta vai além do direito e da democracia, pois visa à construção de um Projeto Popular para o Brasil e outro mundo possível: justo e solidário, onde a vida esteja em primeiro lugar”.
As reformas desse Governo (assim como muitas medidas do Governo Dilma) “revelam um Estado que se volta contra a sociedade e o próprio ‘estado de direito’ e se curva aos interesses do capital - as grandes empresas, o agronegócio.

A luta é todo dia! Não devemos nos pautar somente em processos eleitorais, mas na possibilidade de reconquistar direitos em um cenário de longo prazo. Porém, com o sonho de construir uma nova sociedade pautada no bem viver.
A era dos retrocessos de direitos conquistados deve nos provocar a solidariedade de classe, a organização popular em rede, o retorno ao trabalho de base, a ressignificação do método Ver-Julgar-Agir e reencontrar estratégias culturais e populares de encantar-se com a luta e a defesa da vida, conquistando direitos e construindo a democracia”.
O objetivo geral do 23º Grito dos Excluídos/as é: “Valorizar a vida e anunciar a esperança de um mundo melhor, construindo ações a fim de fortalecer e mobilizar a classe trabalhadora nas lutas populares. Denunciar a estrutura opressiva e excludente da sociedade e do sistema neoliberal que nega a vida humana e quer nos impedir de sonhar”.
Os objetivos específicos são:
  • “Defender a vida dos Excluídos/as, assegurar os seus direitos, voz e lugar. Construir relações igualitárias que respeitem a diversidade de gênero, cultural, racial, religiosa e sejam esperança para juntas e juntos lutarmos por outro mundo possível;
  • Construir espaços e ações organizadas politicamente a fim de fortalecer e mobilizar o povo a construir um novo projeto de sociedade mais igualitária e fraterna que valorize a vida, a distribuição de terra, renda e bens para todos;
  • Denunciar as estruturas opressoras da sociedade, as injustiças cometidas pelo atual modelo econômico neoliberal, como a concentração de renda, a criminalização dos movimentos, dos defensores e defensoras dos direitos humanos e das lutas populares;
  • Ocupar os espaços públicos e exigir do Estado a garantia do acesso e a universalização dos direitos básicos como educação, segurança pública, saúde, transporte, alimentação saudável, saneamento básico, moradia. Lutar contra a privatização dos recursos naturais e contra as reformas que retiram direitos dos trabalhadores/as;
  • Cobrar dos governantes uma auditoria integral da dívida pública (interna e externa), que consome aproximadamente 45% do nosso dinheiro (orçamento federal) pagando juros e amortizações aos especuladores”.

Os eixos que estão sendo trabalhados neste ano são: democratizar a comunicação, direitos básicos, Estado fomentador de violência, projeto de país que desejamos e Estado que queremos, participação política e emancipação popular, unir generosas/os nas ruas, uma ecologia integral (Fonte: Jornal “Grito dos Excluídos/as”, número 66, ano 23, abril/maio 2017, p. 1-3).
Para os cristãos e cristãs, o Grito dos Excluídos/as (dos Descartados/as) é o Grito de Jesus de Nazaré. Dói muito constatar que na Igreja (falo da Igreja Católica, mas vale também para as Igrejas evangélicas) existem Comunidades, Paróquias e Dioceses que - por omissão ou ação de seus pastores (apesar da Carta da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da CNBB, de 12 de julho de 2017, solicitando “efetivo apoio”) - são indiferentes ou se opõem ao Grito dos Excluídos/as (às vezes, até boicotando-o com certo cinismo). Esses pastores são maus pastores, são os Judas de hoje, que traem Jesus na pessoa dos Excluídos/as. Terão que prestar conta a Deus!
Ai dos pastores que espalham e extraviam as ovelhas do meu rebanho, diz o Senhor. Agora sou eu que vou pedir contas a vocês pelo mal que praticaram, diz o Senhor” (Jr 23, 1-2).
Eu garanto a vocês - diz Jesus de Nazaré - tudo o que fizeram (ou deixaram de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeram (ou deixaram de fazer)” (Mt 25, 40 e 45).
Irmãos bispos do Conselho Episcopal Pastoral (Consep) e da Presidência da CNBB: não sejam - por medo ou conveniências nem sempre evangélicas - omissos, mas verdadeiros profetas da vida! “Um dia de oração e jejum pelo Brasil” é sempre um tempo forte de graça de Deus, mas não basta. “O jejum que eu quero - diz o Senhor Deus - é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, libertar os oprimidos (os excluídos, os descartados) e despedaçar qualquer jugo, repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu e não se fechar ao seu semelhante (ao seu irmão)” (Is 58, 6-7).
Como Jesus de Nazaré, os bons pastores estão sempre ao lado das ovelhas excluídas (descartadas) e solidários com elas na defesa de seus direitos.
Venham! Juntos e juntas - numa grande mobilização nacional, com manifestações no Brasil inteiro - vamos participar do Grito dos Excluídos/as! Vamos nós mesmos ser o Grito dos Excluídos/as!

Lembrete: Grito dos Excluídos/as 2017 em Goiânia: 07/09, às 16h - Praça do CAIC (ou Praça do CIOP) - Jardim Curitiba I e II - Região Noroeste



Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 30 de agosto de 2017 

domingo, 27 de agosto de 2017

Grito dos Excluídos/as 2017 CNBB solicita “efetivo apoio”


No dia 12 de julho passado, o Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da CNBB, Dom Guilherme Antônio Werlang (Bispo de Ipameri - GO), enviou uma Carta, dirigida aos “Cardeais, Arce/Bispos, Agentes de Pastoral e Lideranças”, solicitando “efetivo apoio” das Dioceses, Paróquias e Comunidades ao Grito dos Excluídos/as 2017.
A Carta começa fazendo uma breve memória do evento: “O Grito dos Excluídos/as chega ao seu 23º ano, fruto da Campanha da Fraternidade de 1995, cujo tema era ‘Fraternidade e os Excluídos/as’ e o lema: ‘Eras tu, Senhor?’. Ao contemplar as faces da exclusão na sociedade brasileira, setores ligados às Pastorais Sociais da Igreja optaram por estabelecer canais de diálogo permanente com a sociedade promovendo, a cada ano, na semana da Pátria, o Grito dos Excluídos/as”.
Continua a Carta: “O Grito dos Excluídos/as não quer se limitar ao sete de setembro. Vai muito além. Em preparação ao evento são promovidas rodas de conversa, seminários, fóruns temáticos e conferências, envolvendo entidades, instituições, movimentos e organizações da sociedade civil, fortalecendo as legítimas reivindicações sociais e reforçando a presença solidária da Igreja (reparem: a presença solidária da Igreja!) junto aos mais vulneráveis, sintonizando-a aos seus anseios e possibilitando a construção de uma sociedade mais justa e solidária”.
Fazendo uma breve análise do momento histórico que vivemos, a Carta - em tom profético - anuncia e denuncia: “Em 2017, o 23º Grito dos Excluídos/as tem como lema ‘Por direitos e democracia, a luta é todo dia’ Vivemos tempos difíceis. Os direitos e os avanços democráticos conquistados nas últimas décadas, frutos de mobilizações e lutas, estão ameaçados. O ajuste fiscal, as reformas - trabalhista e da previdência - estão retirando direitos dos trabalhadores para favorecer aos interesses do mercado. O próprio sistema democrático está em crise, distante da realidade vivida pela população”.
Enfim, a Carta faz um agradecimento e um novo apelo: “Agradecemos aos senhores pelo apoio recebido ao longo destes anos e nos comprometemos a continuar gritando pela vida em primeiro lugar’. Agora, solicitamos-lhes, mais uma vez, o efetivo apoio (reparem novamente: o efetivo apoio!) ao Grito dos Excluídos/as 2017”.
Conclui reconhecendo que o Grito dos Excluídos/as “é uma iniciativa que desperta para a solidariedade, para a organização e que renova a esperança dos pobres e os torna sujeitos de uma nova sociedade, sinal do Reino de Deus”.
Sobre o envolvimento com os Movimentos Populares, os cristãos e cristãs ouçamos o convite do Papa Francisco e sigamos o seu testemunho.
O convite: “Soube que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este Encontro” (Discurso aos participantes do 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
O testemunho: “Assistimos ao vídeo que vocês apresentaram como conclusão do 3º Encontro. Vimos os rostos de vocês nos debates sobre o modo de enfrentar ‘a desigualdade que gera violência’. Tantas propostas, muita criatividade e grande esperança na voz de vocês, que talvez tivesse mais motivos para se queixar, permanecer emudecida nos conflitos, cair na tentação do negativo. E, no entanto, vocês olham para a frente, pensam, debatem, propõem e agem. Congratulo-me com vocês, acompanho vocês (reparem mais uma vez: acompanho vocês!) e peço-lhes que continuem a abrir caminhos e a lutar. Isto me dá força, dá-nos força. Penso que este nosso diálogo, que se acrescenta aos esforços de muitos milhões de pessoas que trabalham diariamente pela justiça no mundo inteiro, começa a ganhar raízes” (Discurso aos participantes do 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Roma, 05/11/16). Quanta simplicidade, quanta abertura e quanta confiança encontramos nas palavras do nosso irmão Francisco! Meditemos!
O Grito dos Excluídos/as é o Grito dos pobres e descartados/as da sociedade capitalista neoliberal: uma sociedade estruturalmente injusta e perversa! O Grito dos Excluídos/as é o Grito do Brasil, é o nosso Grito, é o Grito de Jesus de Nazaré!
Militantes dos Sindicatos de Trabalhadores/as, dos Movimentos Populares, das Pastorais Sociais, das Comunidades e outras Organizações da sociedade civil, participemos do Grito dos Excluídos/as! A presença de cada um e cada uma de nós fará a diferença e fortalecerá a luta!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG

Goiânia, 23 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

Na Saúde Pública, a “pena de morte” continua


Em maio de 2015, no artigo “Falta de vagas em UTIs: ‘pena de morte’ para trabalhadores/as” (leia o artigo na internet), escrevia: “A Saúde Pública encontra-se em estado de descalabro total. É um caos generalizado. É uma situação de calamidade, que clama por justiça diante de Deus. A omissão de socorro por falta de vaga em UTIs é uma realidade de todo dia”.
Em agosto de 2016, no artigo “Uma desumanidade gritante: a ‘pena de morte’ na Saúde Pública” (também, leia o artigo na internet), de novo escrevia: “Infelizmente, essa realidade não mudou, continua a mesma”.
Hoje, em agosto de 2017, sou obrigado, mais uma vez, a dizer a mesma coisa: “Na Saúde Pública, a ‘pena de morte’ continua”, por causa da demora no atendimento, da estrutura física precária, da carência de recursos e equipamentos e, sobretudo, da falta de vagas em UTIs.
Entre as muitas situações que poderiam ser lembradas, só cito algumas - já divulgadas nos meios de comunicação - mais do que suficientes para mostrar o estado de descaso em que se encontra a Saúde Pública. Faltam desde remédios usados para tratar o enfarte até materiais básicos de primeira necessidade. “A falta de medicamentos e materiais de trabalho tem se tornado um problema cotidiano nas Unidades básicas de Saúde de Goiânia e atingem casos de urgência ou não. São antibióticos, medidores de glicose, reguladores de pressão arterial, até luvas e esparadrapos” (O Popular, 05/08/17, p. 12).
O pedreiro Lindomar Alves dos Santos, de 36 anos, morreu na quinta-feira (dia 3) no Hospital Salustiano, no Setor Aeroporto, depois de passar por uma série de dificuldades em seu atendimento médico. Parentes denunciam que houve omissão de socorro do Atendimento Móvel (Samu). Além disso, o paciente enfrentou, de forma improvisada, dias para conseguir um leito em uma UTI, problemas cotidianos do SUS” (Ib., 08/08/17, p. 12).
Tem UTI sem doente, tem doente sem UTI”. “Leitos (de hospitais) estão parados por conta de morosidade em cadastro no SUS e erro em sistema faz ministro achar que Goiás tem vagas suficientes. Enquanto isso, pacientes aguardam em fila”. “Na noite da última sexta-feira (dia 11), nove bebês aguardavam em UTIs em Goiás. Enquanto isso, 16 incubadoras de uma UTI neonatal estavam vazias, no Hospital Jacob Facuri, Setor Central de Goiânia”. “Hospitais reclamam de diárias atrasadas”. “Vagas fechadas ainda constam no sistema”. “Leitos de UTI que não existem ou que não são mais utilizados por pacientes do sistema público, continuam a constar no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (Cnes) (Ib., 15/08/17, p. 12).
Discute-se a aprovação de uma lei que estipule prazos para o atendimento e o tempo máximo de espera para cirurgias, exames e consultas médicas. Que absurdo! A questão da Saúde (que é a questão da Vida) não é uma questão matemática! O único critério para o atendimento deve ser o grau de gravidade da doença.
Apesar das argumentações que sempre são apresentadas, na Saúde Pública não existem razões que justifiquem essa situação de descaso. Na realidade, o Poder Público (Municipal, Estadual e Federal) não considera a Saúde como a prioridade das prioridades. O problema não é pessoal, mas estrutural e inerente à lógica perversa do sistema capitalista neoliberal, que - como diz o Papa Francisco - ninguém aguenta mais e precisa ser mudado.
Mesmo nessa verdadeira calamidade pública, graças a Deus, temos profissionais de Saúde (médicos/as, enfermeiros/as e outros trabalhadores/as) - infelizmente, não todos - que trabalham com muita dedicação e amor e que, por fazerem diariamente a experiência de sua impotência diante da situação, sofrem pelo descaso do Poder Público.
Frente a essa realidade, os Sindicatos de Trabalhadores/as, os Movimentos Populares, os Conselhos de Saúde, as Comunidades, as Pastoris Sociais e Ambientais e todas as Entidades de defesa dos Direitos Humanos precisam se unir, cada vez mais, na luta por uma Saúde Pública de qualidade para todos/as: direito do cidadão/ã e dever do Estado.
A lei da preservação da vida está acima de qualquer lei humana, inclusive da lei de responsabilidade fiscal. Do ponto de vista ético, em caso de urgência e emergência, o que deve prevalecer sempre é a lei da preservação da vida, mesmo que seja necessário - às vezes - “desobedecer” à lei de responsabilidade fiscal ou a outras leis humanas.
Nesses casos de urgência e emergência, é obrigação do Poder Público atender a pessoa doente imediatamente, mesmo que - para fazer isso - tenha de pagar por uma vaga em UTI particular e “desobedecer” a outras leis da administração pública. A omissão de socorro é crime e - acontecendo isso - o Poder Público não só pode, mas deve ser processado e responsabilizado criminalmente. O não atendimento ou a demora no atendimento é a decretação silenciosa da “pena de morte”. A vida em primeiro lugar!
Por fim, como a “pena de morte” na Saúde Pública só existe para trabalhadores/as - sobretudo os/as mais pobres - faço um pedido aos advogados/as, principalmente aos criminalistas: dediquem algumas horas do seu tempo à prática do voluntariado na área da Saúde Pública (que é um vasto campo de atuação para vocês) e ofereçam-se aos interessados/as para assumir gratuitamente os casos de “pena de morte”, processando criminalmente o Poder Público e exigindo - se necessário - a devida indenização para as famílias vítimas dessa gritante desumanidade. Será um trabalho muito gratificante para vocês e um testemunho que nos edificará a todos/as. Com esse trabalho, vocês colaborarão eficazmente para extinguir a “pena de morte” na Saúde Pública e para construir o Projeto Político Popular no Brasil e no mundo.










Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 16 de agosto de 2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Governo Federal e Congresso Nacional: duas redes de esgoto a céu aberto


Hoje, o Governo Federal ilegítimo do golpista corrupto Michel Temer e o Congresso Nacional - composto de Deputados e Senadores, em sua grande maioria, corruptos e sem representatividade popular - são na realidade duas redes de esgoto a céu aberto. Ninguém aguenta mais tanto fedor!
O descaramento e a falta de pudor dos políticos não têm nenhum limite! A arrogância e o cinismo de Michel Temer e de seus asseclas dá nojo! O oportunismo interesseiro da maioria dos deputados e senadores é revoltante! Felizmente, ainda existem no Congresso alguns riachos de água limpa que são motivo de esperança.
No dia 13 de julho, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara Federal derrubou, por 40 votos a 25 (com uma abstenção) o relatório do deputado Sérgio Zveiter (PMDB-RJ), que pedia a admissibilidade da denúncia feita pela Procuradoria Geral da República (PGR) contra Michel Temer, autorizando o prosseguimento da acusação pelo crime de corrupção passiva, perante o Supremo Tribunal Federal (STF).
Por meio de manobras políticas inescrupulosas e diabólicas, Michel Temer - que tinha sido gravado apoiando o suborno do ex-deputado federal Eduardo Cunha para encobrir seus negócios sujos e corruptos - comprou deputados, com emendas parlamentares, cargos de confiança para aliados e ameaças, para evitar a investigação.
No dia 2 de agosto - em sessão deprimente e vergonhosa - a Câmara Federal, por 263 votos (13 dos deputados goianos) a 227 (4 dos deputados goianos), barrou a denúncia da PGR contra Michel Temer, mesmo tendo conhecimento de sua impopularidade (95%) e sabendo que a investigação da denúncia é exigida pelos eleitores (81%). Trata-se de total desrespeito para com o povo e de verdadeira afronta - cínica, irônica e repugnante - à sua inteligência!
Segundo pesquisa do Ibope (24 a 26 de julho), para 79% dos entrevistados o deputado que vota contra a denúncia (o afastamento do golpista Michel Temer e o prosseguimento das investigações no STF) é cumplice de corrupção e, para 73% dos eleitores, o deputado que vota contra a denúncia não merece ser reeleito.
No dia 3 do mês corrente (um dia depois da votação na Câmara), em um Jornal, lia-se a manchete “Temer se safa”. Em outro, “deputados salvam Temer e enterram denúncia de corrupção”. Advirto o golpista corrupto Michel Temer que - mesmo tendo-se “safado” ou “salvado” na Câmara Federal com suas manobras políticas inescrupulosas e diabólicas - não se “safará” ou “salvará” diante de Deus. Michel Temer aguarde e, enquanto ainda há tempo, lembre-se de sua idade!
Enfim, pergunto:
  1. Não é um absurdo jurídico exigir a aprovação da Câmara Federal para dar prosseguimento à investigação de uma denúncia fundamentada contra um presidente (no caso em questão, contra o golpista corrupto Michel Temer)? Ao menos em teoria (embora não o seja na prática), não somos todos iguais perante a lei?
  2. Não é um crime contra os trabalhadores e trabalhadoras comprar o voto de deputados com dinheiro dos cofres públicos?
  3. Se praticar uma injustiça em nome do dinheiro é um crime grave, praticar uma injustiça em nome de Deus - falando o nome de Deus em vão - é um crime muito mais grave ainda e uma grande hipocrisia. Infelizmente, não é isso que muitos políticos - que se dizem “católicos” ou “evangélicos” - fazem?
  4. Impedir, com manipulações inescrupulosas e diabólicas, o prosseguimento da investigação da denúncia, não é - para Michel Temer - uma auto confissão de culpabilidade?
  5. Se Michel Temer achasse a denúncia injusta e sem fundamentação, não deveria ser ele mesmo o primeiro interessado em defender o prosseguimento das investigações para limpar o seu nome e reestabelecer a verdade?
Vejam a pouca vergonha dos deputados que pertencem aos partidos da base aliada do golpista corrupto Michel Temer e que no dia 2 de agosto votaram em massa a favor dele, derrubando a denúncia da PGR. Os deputados aumentaram a pressão por cargos ocupados por "infiéis", ameaçam travar a discussão da Reforma da Previdência e retirar o apoio ao Governo ilegítimo na votação de uma provável segunda denúncia apresentada pela PGR. Que descaramento! Que comportamento político nojento! Dá vômito!
Eleitor e eleitora não está na hora de tirar o Brasil desse mar de lama? Nas próximas eleições, antes de votar, conheçam a história de vida dos candidatos ou candidatas, estudem seu projeto político e o do seu partido. Não se deixem enganar com palavras bonitas e falsas promessas. Vamos banir para sempre da vida pública os políticos corruptos, que buscam cargos públicos para defenderem seus próprios interesses e para se enriquecerem com dinheiro dos cofres públicos, que é dinheiro dos trabalhadores e trabalhadoras. Chega de enganação! Abramos nossos olhos!

Outro Brasil é possível! Lutemos por ele! 





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 09 de agosto de 2017


terça-feira, 8 de agosto de 2017

“Quem não luta, está morto! Quem luta educa!”
Sobre a “Carta do Encontro Brasileiro de Movimentos Populares em Diálogo com o Papa Francisco”


Além dos três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares (sobre os quais escrevi diversos artigos), entre os dias 1º e 4 de junho de 2016 aconteceu em Mariana (MG) o “Encontro Brasileiro de Movimentos Populares em Dialogo com o Papa Francisco”, com quase 300 participantes.
O Encontro teve o apoio e a solidariedade do cardeal Peter K.A. Turkson, Presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz (que, em nome do Papa Francisco, enviou uma Carta muito fraterna e carinhosa) e da Arquidiocese de Mariana.
A Carta final do Encontro (do dia 4 de junho) é uma luz para os Movimentos Populares e as Pastorais Sociais do Brasil. Começa dizendo: “Nós, Movimentos Populares e Pastorais Sociais reunidos em Mariana, Minas Gerais, em resposta ao chamando do Papa Francisco para o diálogo com os que lutam por ‘terra, teto e trabalho’, aqui viemos nos solidarizar com as famílias atingidas pelo maior crime socioambiental provocado em 2015 pela mineração no Brasil e alimentar nossa esperança na construção de outro mundo possível”.
Continua relatando: “Povos indígenas, quilombolas, pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, agentes das pastorais sociais compartilhamos nossas experiências de lutas, dificuldades numa sociedade tão desigual. Debatemos a opressão das forças do capital, a fragmentação e criminalização dos Movimentos Sociais (Populares) e as violências contra os pobres, negros, mulheres, jovens e LGBTs. Aprofundamos nossa reflexão e partilha das formas de resistência e luta, para enfrentar esses desafios”.
Na Carta, os Movimentos Populares clamam e denunciam: “Clamamos junto com a Mãe-Terra, que o uso intensivo de agrotóxicos provoca a morte de nossos povos e rios. Denunciamos que a concentração da propriedade e o estímulo ao agronegócio geram conflitos e violências no campo e na cidade, por isso se tornam urgentes e necessárias a Reforma Urbana e a Reforma Agrária”.
Com muita firmeza e garra, os Movimentos Populares declaram: “Queremos o fim da especulação imobiliária. Apesar dos avanços na política de moradia popular, a carência por moradia cresce a cada ano. O avanço do capital nos territórios, com estímulo ao extrativismo mineral, deixa um rastro de destruição ambiental, do qual o crime na Bacia do Rio Doce, provocado pela Vale e BHP Billiton, por meio da Samarco, com a conivência do  Estado, é um dos exemplos mais terríveis. Neste momento de trevas no país, o Encontro Brasileiro surge como uma luz. Nos últimos anos, o modelo de desenvolvimento adotado foi favorecido pelo contexto internacional, possibilitou avanços e garantias de direitos sociais, mas muito lucro para o capital.  Com a crise do capitalismo mundial iniciada em 2008, este modelo se esgotou. As forças do capital querem garantir seus interesses, mas nosso povo vem resistindo. Tomaram o Governo Federal por meio de um golpe, com apoio do Congresso Nacional e do Judiciário brasileiro, impondo o modelo neoliberal derrotado por quatro vezes nas urnas”.
Os Movimentos Populares continuam denunciando: “Dizemos não às privatizações propostas pelo Governo interino e golpista, não ao desemprego e à terceirização que ameaçam diretos dos trabalhadores e trabalhadoras. No Brasil, a democracia sempre foi resultado da organização e da luta do povo. Uma vez mais é preciso fortalecer a aliança das classes populares (reparem: a aliança das classes populares!). Mais do que isto, estamos desafiados a construir um novo Projeto para o país. Projeto que além de garantir terra, teto e trabalho para todos e todas, com justiça social, esteja em sintonia com a Mãe-Terra”.
Quanta clareza e objetividade encontramos nas palavras dos Movimentos Populares!
 Em total sintonia com os Encontros Mundiais dos Movimentos Populares, os participantes do Encontro Brasileiro declaram: “Nós em diálogo com o Papa Francisco, reafirmamos o que está na Encíclica Laudato Si’: ‘Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. A solução requer uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza’”.
Ao final, com muito realismo, os Movimentos Populares afirmam: “Quem não luta, está morto! Quem luta, educa!. Com nossa fé revolucionária (reparem mais uma vez: nossa fé revolucionária!), fortalecemos nossa esperança na caminhada e a certeza na chegada. É preciso lutar para derrotar o golpe no Brasil, por isso nos comprometemos a ampliar as mobilizações, fortalecendo e diversificando os trabalhos de base, o diálogo entre os Movimentos e ocupando as ruas. A luta imediata deve ser fermento no processo de construção de um Projeto Popular de país”.
Concluem dizendo: “Encerramos o Encontro no subdistrito de Paracatu de Baixo, com nossos pés na terra devastada pela ganância do capital, e em diálogo com os atingidos reforçamos nossa solidariedade e compromisso com a luta pela justiça, reparação e empoderamento do povo da Bacia do Rio Doce”.
Enfim - afirmam os participantes do Encontro - queremos “manter viva a memória e o compromisso de cuidar bem da nossa Mãe-Terra como Casa Comum de todos”. E declaram solenemente: “ao som dos sinos de Mariana, ecoando a dor dos Atingidos e Atingidas, clamamos por Justiça!”.
A luta dos povos do campo, das águas e das florestas continua! Sejamos solidários!





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 02 de agosto de 2017

sábado, 1 de julho de 2017

Frente Ampla Nacional



Hoje, na grave crise política, econômica, social e institucional que o Brasil atravessa, as Frentes Políticas Populares (Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo e outras) - que integram Partidos Políticos Populares (ou Correntes Populares de Partidos Políticos), Sindicatos de Trabalhadores, Centrais Sindicais de Trabalhadores, Movimentos Populares e Centrais de Movimentos Populares sentem, cada vez mais, a necessidade de se unir numa Frente Ampla Nacional (uma Frente de Frentes) para que sua ação política seja mais orgânica, mais abrangente e mais eficaz.
Mantendo a identidade e valorizando as diferenças (e até as divergências) das diversas Frentes Políticas Populares na apresentação de Propostas e na escolha de Estratégias para os vários momentos históricos do processo de construção do Projeto Político Popular, a Frente Ampla Nacional deve - sobretudo neste tempo de crise - exercer sua militância em dois níveis.
  1. Em nível conjuntural: conclamando toda a sociedade brasileira a se mobilizar, tomar as ruas e as praças e gritar bem alto e forte: Fora Temer! Diretas já! Nenhum direito a menos! (e outras palavras de ordem).
  2. Em nível estrutural: dando todos os passos possíveis e necessários para derrotar (superar) o projeto capitalista neoliberal e construir o Projeto Político Popular para o Brasil (e para o mundo).
Atualmente, na prática política, podemos assumir três posicionamentos: o de quem quer manter o projeto político dominante (conservador), o de quem quer reformá-lo (reformista) e o de quem quer transformá-lo (transformador, libertador).
Por ser a história humana dinâmica e contraditória (dialética), esses posicionamentos não são três compartimentos estanques, sem nenhuma comunicação mútua. Entre seus defensores - mesmo que seja por razões diferentes - pode haver, por exemplo, "acordos pontuais” sobre alguma prática política concreta, mas nunca "aliança”, que supõe comunhão de ideais e de utopias.
O que caracteriza o projeto político dominante (projeto capitalista neoliberal)? Ele é um "sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida - DA 385) ou um "sistema nefasto”, porque considera "o lucro como o motivo essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos bens de produção como um direito absoluto, sem limites nem obrigações correspondentes” (Paulo VI. Populorum Progressio - PP 26).
O sistema econômico capitalista neoliberal cria profundas desigualdades sociais, oprime, marginaliza e descarta os pobres. Como diz o Papa Francisco aos Movimentos Populares (Bolívia, julho de 2015), “este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata!”.
Para o projeto político neoliberal, o importante não é a vida do povo, mas o deus-mercado e os interesses dos seus servidores e adoradores. Do ponto de vista estrutural, ele é desumano, antiético e, portanto, anticristão.
Os defensores desse projeto político podem até aceitar algumas mudanças, mas só se for para modernizar o sistema e torná-lo mais eficiente. Nunca pensam em mudanças de estruturas. Com as migalhas que sobram da mesa dos ricos, promovem programas chamados de distribuição de renda, que - por sua ambiguidade - de um lado, servem para amenizar situações de extrema pobreza (o que é sempre positivo) e, de outro lado, para cooptar os trabalhadores e evitar que se transformem numa ameaça para a segurança e os interesses do próprio sistema. Na realidade, porém, esses programas não distribuem a renda, mas simplesmente restituem ao povo uma pequena e insignificante parcela daquilo que é sistemática e permanentemente roubado (roubo legalizado e institucionalizado) dos pobres na exploração da mão de obra e nos impostos sobre os produtos de primeira necessidade.
O que caracteriza o projeto político reformista (projeto capitalista neoliberal reformado)? As reformas - dizem os defensores desse projeto - têm por objetivo um "capitalismo com sensibilidade e responsabilidade social e ambiental” um "capitalismo de rosto humano”, um "capitalismo humanizado”, com a redução das desigualdades sociais e a busca do bem estar social e ambiental. É a chamada Terceira Via, doutrina político-econômica, idealizada por Anthony Giddens, impulsionada por Tony Blair e Lionel Jaspin, e que ganhou força com o chanceler Gerhard Schroeder e outros.
Uma pergunta: se o capitalismo neoliberal é estruturalmente desumano, pode ser humanizado? Pela lógica, a resposta é: não. O máximo que pode ser feito é amenizar, em determinadas situações conjunturais, seus efeitos iníquos.
O que caracteriza o projeto político transformador, libertador (Projeto Político Popular)? Como projeto alternativo, ele visa mudar as estruturas e superar o capitalismo neoliberal, abrindo caminhos para um socialismo realmente democrático e comunitário.
Um alerta: “Atualmente, multiplicam-se sem cessar as relações do ser humano com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que a própria socialização introduz novas ligações, sem no entanto favorecer em todos os casos uma conveniente maturação das pessoas e relações verdadeiramente pessoais (a personalização)” (Concílio Ecumênico Vaticano II. A Igreja no mundo de hoje - GS, 6). O desafio é buscar sempre mais a integração entre “socialização” e “personalização”.
O Projeto Político Popular “é a sociedade que queremos construir, é o objetivo a ser alcançado. Ele deverá estimular o trabalho de base, a formação militante e as ações conjuntas para a transformação de nossa sociedade. O caráter do nosso projeto não é apenas reivindicativo, mas busca construir unidade e força social para a transformação profunda das relações de produção”.
Para isso, precisamos construir o Poder Popular - como serviço - que consiste na "organização autônoma e independente do povo em suas lutas concretas, sejam elas locais ou regionais, de âmbito nacional ou internacional”, como "um processo permanente de busca por igualdade e justiça”, na promoção e defesa dos Direitos Ambientais, Políticos, Sociais, Civis, Econômicos e Culturais (II Assembleia Popular Nacional. Projeto Popular para o Brasil na construção do Brasil que queremos. Luziânia, 25-28/05/10, p. 6-9).
Em outras palavras, o Projeto Político Popular é o projeto do Bem Viver, do Bem Conviver. Jesus de Nazaré, "profeta da maior Utopia (‘que sejamos bons como Deus é bom, que nos amemos como Ele nos amou, que demos a vida pelas pessoas que amamos’) promulgou, com sua vida, sua morte e sua vitória sobre a morte, o Bem Viver do Reino de Deus. Ele é pessoalmente um paradigma, perene e universal, do Bem Viver, do Bem Conviver” (Pedro Casaldáliga. Latino-americana Mundial 2012, p. 11).
O argumento do pragmatismo político, tão usado pelos chamados Governos progressistas, deve nos levar a tomar consciência daquilo que - em determinadas condições objetivas concretas - é possível fazer para construir o Projeto Político Popular e não para promover e fortalecer o projeto capitalista neoliberal. Como se pode derrotar ou superar o projeto capitalista neoliberal fazendo acordos que o promovem e o fortalecem?
Não merece uma autocrítica a prática política social-desenvolvimentista (ou capitalista neoliberal “maquiada”) que levou os Governos presididos pelo PT “a dar atenção às demandas populares, desde que não contrariassem a política macroeconômica de inspiração neoliberal”? (CEBs e os desafios do mundo urbano. Texto Base do 14º Intereclesial das CEBs, 23-27 de janeiro de 2018, Londrina - Pr, p. 27-28).
E ainda: um Governo comprometido com a construção do Projeto Político Popular não deveria exercer o poder-serviço organicamente ligado (com seu apoio e sua solidariedade) às Frentes Políticas Populares e - se firmar - com a Frente Ampla Nacional? O que nós queremos implementar e fortalecer sempre mais é a governabilidade popular e não a governabilidade capitalista neoliberal!
Como resultado do esforço conjunto das Frentes Políticas Populares no processo de construção do Projeto Político Popular, tivemos uma grande mobilização em todos os cantos do país: nos dias 8 e 15 de março, na Greve Geral de 28 de abril, no Ocupa Brasília em 24 de maio e, por último, na Greve Geral de 30 de junho. Por sua vez, como resultado da grande mobilização e do amplo debate com a sociedade, conseguimos frear a tramitação da Reforma da Previdência e reprovar na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAS) a Reforma Trabalhista. Tudo isso é uma grande vitória que precisa ser comemorada.
No Brasil atual, a Frente Ampla Nacional - que já é uma realidade - poderá se tornar a grande força propulsora do Projeto Político Popular. Essa é a nossa esperança!
(Leia também na internet o artigo “Sobre o Plano Popular de Emergência”).
Se Deus quiser, voltarei a escrever na 1ª semana de agosto.





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 01 de julho de 2017

 
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos