sábado, 27 de maio de 2017

Carta aberta aos irmãos e irmãs da Paróquia São Judas Tadeu e a quem possa interessar


Dirijo-me a vocês como irmão, religioso dominicano e padre. Sem nenhuma intenção de polemizar e com todo respeito, em consciência sinto-me no dever de fazer algumas considerações e reflexões.
A área na qual se localiza a Igreja S. Judas Tadeu é conhecida, historicamente, como Praça S. Judas Tadeu (Setor Coimbra - Goiânia - GO) e não como Estacionamento S. Judas Tadeu. A história deve ser respeitada (mesmo que a propriedade do terreno seja de uma Entidade particular).
Confesso a vocês, irmãos e irmãs, que me doeu muito quando vi que os bancos tinham sido tirados da Praça, para que - conforme disseram algumas pessoas - os jovens não sentassem nos bancos para namorar ou usar drogas e, sobretudo, para que os Moradores de Rua não comessem nos bancos - sujando a Praça - ou não dormissem debaixo deles.
Fica a pergunta: Jesus de Nazaré - se morasse hoje no Setor Coimbra - teria agido dessa forma? Pensemos!
Confesso também a vocês que me doeu mais ainda quando tomei conhecimento que - por decisão (dizem) da Assembleia paroquial - tinha sido lançada a “Campanha do estacionamento e do fechamento da Praça”.
Fica novamente a pergunta: Jesus de Nazaré teria agido dessa forma? Com toda fraternidade para com o meu irmão Frei Bruno (atualmente, Coordenador da nossa Província dominicana do Brasil Frei Bartolomeu de Las Casas), será que se pode dizer: “Você colabora, a Comunidade agradece e Deus abençoa!”? Pessoalmente, não acredito que, neste caso, “Deus abençoe”! Continuemos pensando!
Na Paróquia São Judas Tadeu - confiada aos cuidados pastorais dos Frades Dominicanos e fundada por Frei Nazareno Confaloni, artista plástico e pintor reconhecido nacional e internacionalmente - trabalhei três anos e meio, de novembro/69 a maio/73 (depois de vir da Itália e morar dois anos em São Paulo), colaborando com Frei Celso Pereira de Almeida, pároco da Paróquia.
À época, eu - jovem padre - e algumas outras pessoas, fundamos o Movimento de Jovens “Mundo Novo”, que teve uma atuação marcante em Goiânia e em algumas outras cidades, sobretudo no meio estudantil.  
Após essa primeira experiência pastoral - por opção pelos pobres e vocação missionária - trabalhei sempre em Comunidades e Paróquias da periferia de Goiânia (quase a vida toda) e de Belo Horizonte (5 anos). Além disso, em Goiânia, assumi serviços pastorais em nível de Arquidiocese e fui professor de teologia (UCG, IFITEG e Seminário Santa Cruz) e, sobretudo, de Filosofia (UFG).
Atualmente - com Irmãs Dominicanas, Irmãs de São José e muitos outros irmãos e irmãs - trabalho na Paróquia Nossa Senhora da Terra (5 Comunidades) na Região Noroeste de Goiânia e participo de Pastorais Sociais e Movimentos Populares.
Sou membro do Convento S. Judas Tadeu (o Convento, além da Paróquia homônima, tem também outras atividades missionárias) e, no momento, a minha presença na Paróquia São Judas Tadeu se dá somente nas Missas com a Oração da Manhã (Laudes) das 7h - de terça à sexta-feira - e nas Missas de encerramento de algumas festas da Família Dominicana.
Mesmo assim, como irmão e baseado na minha longa experiência pastoral no meio do povo, faço alguns questionamentos e dou algumas sugestões a respeito da “Campanha do estacionamento e fechamento da Praça”.

  1.  Com esta Campanha, irmãos e irmãs, vocês não estão indo na contramão do Evangelho de Jesus de Nazaré e das orientações do Papa Francisco, que nos pede para construir pontes que unem e não muros (ou grades) que separam?
  2. Por que - no lugar de fechar toda a Praça - vocês não reduzem a área já fechada ao mínimo necessário e aumentam a área verde com estacionamento?
  3.  Por que - nesta área verde com estacionamento - vocês não fazem calçadas com bancos (em forma de quadrados ou círculos), para que a Praça se torne um lugar de encontro e de convívio com as pessoas, principalmente com os nossos irmãos e irmãs Moradores de Rua, vítimas de estruturas sociais injustas e de “um sistema econômico iniquo”?
  4. Por que - respeitando a estrutura arquitetônica da Igreja - vocês não criam (como fez o Papa Francisco) um espaço com chuveiros e lavanderia para que os Moradores de Rua possam tomar banho e lavar suas roupas, colaborando assim na recuperação de sua autoestima?
  5.  Por que, na dimensão social do Dízimo, vocês não reservam mensalmente uma quantia de dinheiro para que uma Equipe multidisciplinar de voluntários e voluntárias da Paróquia possa realizar - depois de bem preparada - um trabalho de Pastoral da População de Rua, promocional e libertador, em comunhão com a Pastoral Nacional da População de Rua da CNBB e em “colaboração real, permanente e comprometida” (Papa Francisco) com o Movimento Nacional da População de Rua e com o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, de Goiás?
  6.  Por que vocês constroem na Igreja “puxados” que desrespeitam e agridem sua estrutura arquitetônica original, justamente no ano em que comemoramos o centenário de nascimento do idealizador da Igreja, Frei Nazareno Confaloni?
  7.  Enfim, por que - para valorizar a história da Paróquia - vocês não recuperam, no seu estilo original, a Igrejinha da antiga Comunidade S. Judas Tadeu (anterior à vinda dos Frades Dominicanos), como lugar de Oração e Contemplação?
Lembrem-se, irmãos e irmãs, das palavras de Jesus, no juízo final: “Tudo o que vocês fizeram (ou não fizeram) a um desses meus irmãos mais pequeninos, é a mim que o fizeram (ou não o fizeram)” (Mt 25, 40 e 45).
Termino, convidando todos e todas vocês a meditar comigo dois textos do Papa Francisco, que recentemente comemorou seus 80 anos de idade tomando o café da manhã com Moradores de Rua.
“Hoje vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades que oferecem inúmeros prazeres e bem-estar para uma minoria..., mas nega-se o teto a milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e eles são chamados, elegantemente, de ‘pessoas em situação de rua’. È curioso como no mundo das injustiças abundam os eufemismos. Não se dizem as palavras com toda a clareza, e busca-se a realidade no eufemismo. Uma pessoa segregada, uma pessoa apartada, uma pessoa que está sofrendo a miséria, a fome, é uma ‘pessoa em situação de rua’: palavra elegante, não? (...). Em geral, por trás de um eufemismo há um crime”. (Discurso do Papa Francisco. 1º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Roma, 28/10/14).  
“Soube que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos Movimentos Populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vocês, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada Diocese, em cada Comissão ‘Justiça e Paz’, uma colaboração real, permanente e comprometida com os Movimentos Populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais, a aprofundar este encontro” (Discurso do Papa Francisco. 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).
Como irmão de vocês, espero que um dia - parafraseando as palavras do Evangelho - não sejamos obrigados a dizer: “Não há lugar para eles (os Moradores de Rua - que são as Marias grávidas e os Josés de hoje) na Praça São Judas Tadeu!” (Lc 2, 7). Fraternalmente, Frei Marcos.




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 24 de maio de 2017

sábado, 20 de maio de 2017

O vale tudo do Governo e a luta dos trabalhadores

“No esforço de superação do grave momento atual, são necessárias Reformas, que se legitimam quando obedecem à lógica do diálogo com toda a sociedade, com vistas ao bem comum” (CNBB. O grave momento nacional, 03/05/17)
Infelizmente, não é isso o que acontece hoje no Brasil, no Governo ilegítimo do golpista Michel Temer com as Reformas (Antirreformas) da Previdência e Trabalhista e com a Lei da Terceirização. As Reformas são impostas ditatorialmente, de cima para baixo, sem ouvir a voz dos trabalhadores e das trabalhadoras.
É o império do mal, é um crime contra a vida do povo (um crime de lesa-humanidade). Michel Temer não passa de um fantoche, manipulado pelos detentores do poder financeiro internacional e a serviço de seus interesses.
Para impor as Reformas, “vale tudo”. Basta um exemplo. “A equipe econômica (do Governo) decidiu perdoar os juros da dívida da contribuição social do empregador rural. A informação é publicada por O Estado de S. Paulo, 15-05-17. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, bateu o martelo nesse ponto reivindicado pela bancada ruralista do Congresso. O Governo vai editar uma medida provisória para tratar do passivo do Funrural, o equivalente à contribuição para a Previdência do setor, cujo passivo pode superar R$ 10 bilhões. Michel Temer se reúne com a bancada hoje e deve anunciar a medida como moeda de troca para o apoio à Reforma da Previdência” (http://www.ihu.unisinos.br/567640-por-reforma-governo-faz-agrado-aos-ruralistas). O descaramento é total e a sem-vergonhice não tem limites!
No dia 4 do mês corrente, as Centrais Sindicais - na Nota “Continuar e ampliar a mobilização contra a retirada de direitos” - “avaliaram a Greve Geral do dia 28 de abril como a maior mobilização da classe trabalhadora brasileira”. E afirmam: “Os trabalhadores demonstraram sua disposição em combater o desmonte da Previdência social, dos Direitos trabalhistas e das Organizações Sindicais de trabalhadores”.
Continuam dizendo: “A forte paralisação teve adesão nas fábricas, escolas, órgãos públicos, bancos, transportes urbanos, portos e outros setores da economia e teve o apoio de entidades da sociedade civil como a CNBB, a OAB, o Ministério Público do Trabalho, Associações de magistrados e advogados trabalhistas, além do enorme apoio e simpatia da população, desde as grandes capitais até as pequenas cidades do interior”.
As Centrais Sindicais, reafirmando sua disposição de luta em defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, definiram um calendário para dar continuidade e ampliar as mobilizações.
“De 8 a 12 de maio:
  • Comitiva permanente de dirigentes sindicais no Congresso Nacional para pressionar os deputados e senadores e também atividades em suas bases eleitorais para que votem contra a retirada de direitos;
  • Atividades nas bases sindicais e nas ruas para continuar e aprofundar o debate com os trabalhadores e a população sobre os efeitos negativos para a toda sociedade e para o desenvolvimento econômico e social brasileiro.
De 15 a 19 de maio:
  • Ocupa Brasília: conclamamos toda a sociedade brasileira, as diversas categorias de trabalhadores do campo e da cidade, os Movimentos sociais (populares) e de cultura a ocuparem Brasília para reiterar que a população brasileira é frontalmente contra a aprovação da Reforma da Previdência, da Reforma Trabalhista e de toda e qualquer retirada de direitos;
  •  Marcha para Brasília: em conjunto com as Organizações sindicais e sociais (populares) de todo o país, realizar uma grande manifestação em Brasília contra a retirada de direitos”.
A Nota termina dizendo: “Se isso ainda não bastar, as Centrais Sindicais assumem o compromisso de organizar um movimento ainda mais forte do que foi o 28 de abril. Por fim, as Centrais Sindicais reunidas convocam todos os Sindicatos de trabalhadores do Brasil para mobilizarem suas categorias para esse calendário de lutas” (CGTB - Central Geral dos Trabalhadores do Brasil, CSB - Central dos Sindicatos Brasileiros, CSP Conlutas - Central Sindical e Popular, CTB - Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil, CUT - Central Única dos Trabalhares, Força Sindical, Intersindical - Central da Classe Trabalhadora, NCST - Nova Central Sindical de Trabalhadores, UGT - União Geral dos Trabalhadores).
No dia 7 último, as Centrais Sindicais convocaram a “Marcha para Brasília” contra as Reformas para o próximo dia 24, como uma preparação para a segunda greve geral do ano no País. Parabéns às Centrais Sindicais pela unidade na luta! Aliadas aos Movimentos Populares e outras Organizações da sociedade civil - como Comunidades Eclesiais de Base, Igrejas, Pastorais Sociais e outras - elas são uma força invencível.
A causa é justa e Deus está do lado dos que lutam pela justiça! Fora Temer! Diretas já! Nenhum Direito a Menos!




Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 17 de maio de 2017

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Igreja católica no Brasil de hoje


A Constituição Pastoral sobre a Igreja do Concílio Ecumênico Vaticano II tem como título “A Igreja no mundo de hoje” e não “A Igreja e o mundo de hoje”. A historia da Igreja - como também de toda e qualquer instituição, religiosa ou não - não é uma historia paralela ou oposta à história do mundo, mas parte integrante dela.
O Concílio afirma: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco em seu coração (A Igreja no mundo de hoje, 1).
E ainda: “Para desempenhar sua missão (ser ‘Igreja em saída’) a Igreja, a todo momento (reparem: a todo momento!), tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre os significados da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática" (Ib. 4). O método sugerido é “ver-julgar-agir” (“analisar-interpretar-libertar”).
A situação do Brasil hoje é uma situação de desigualdade social cada vez maior, de injustiça institucionalizada, de práticas políticas descaradamente interesseiras (do “toma-lá-dá-cá, do “vale-tudo”).
Para ilustrar essa situação iníqua, basta lembrar a barganha do governo ilegítimo Michel Temer a respeito das Reformas (Antirreformas). “Planalto parte para ‘vale-tudo’ (manchete). Na batalha da Reforma da Previdência “Michel Temer se prepara para a votação no plenário e sabe que terá que acenar a deputados com emendas e cargos (os chamados ‘agrados’ à base aliada) para chegar aos 308 votos necessários” (O Popular, 07/05/17, p. 4). É uma prática política nojenta!
Nesta realidade, que clama a Deus por justiça, qual é a posição ou quais são as posições da Igreja? Perscrutando - como nos ensina o Concílio - os sinais dos tempos e interpretando-os à luz do Evangelho, percebemos claramente (é uma leitura crítica da realidade e não um julgamento das consciências individuais, que só Deus pode fazer) que, no Brasil, temos hoje três posições da Igreja, representando três maneiras de ser Igreja.
A primeira posição é a de uma Igreja profética, que anuncia o projeto de vida de Jesus de Nazaré (o Reino de Deus) e denuncia sem medo - se necessário, até com o martírio - tudo o que é contrário a esse projeto. A segunda posição é a de uma Igreja - cega, surda e muda - que fica em cima do muro (na realidade, com o seu silêncio, fica do lado do poder dominante, ou seja, do “status quo”) e que lava as mãos (como Pilatos). A terceira posição é a de uma Igreja claramente aliada dos ricos e poderosos (traindo - como Judas - Jesus de Nazaré nos pobres); Qual das três posições torna presente hoje a prática de Jesus de Nazaré? Sem dúvida nenhuma, é a primeira.
Diante das Reformas (Antirreformas) Trabalhista e da Previdência e da Lei da Terceirização, que são uma iniquidade diabólica - planejada em favor dos ricos e contra os trabalhadores - a CNBB, diversas dioceses, cerca de cem bispos e outras lideranças da Igreja se posicionaram de forma profética - oralmente ou com Notas públicas - contra as Reformas, convidando o povo a se unir e a lutar por seus direitos e dando todo apoio à greve geral do dia 28 de abril último.
Infelizmente, porém, muitas dioceses, bispos e outras lideranças ficaram calados. É um pecado de omissão e um verdadeiro crime! Pior ainda foi a atitude repugnante - desumana e antievangélica - de certos lideres da Igreja, que - mesmo sendo bispos ou cardeais - não entenderam nada do que significa ser cristãos. Como exemplo desse comportamento vergonhoso, cito somente um fato, que é muito ilustrativo.
Conforme reportagem de Mauro Lopes, “no começo da tarde (do dia 26 de abril último), o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, rompeu o silêncio e falou. Um vexame que envergonhou a Igreja. Escalado para a entrevista coletiva da primeira tarde da Assembleia Geral da CNBB, pouco depois das 15h, o cardeal foi encarregado de falar sobre os temas sociais do país. Ao apresentar a agenda da Assembleia, ele ignorou a greve geral. Questionado por um jornalista, dom Odilo deu razão a todos os que o acusam de aderir ao regime do golpe. Disse secamente que ‘o povo tem direito de se manifestar’, disse que espera que a Reforma da Previdência seja boa (?) e arrematou: ‘dizer que somos a favor ou contra é muito simplista’”. Foi realmente um vexame que envergonhou a Igreja! Como nos faz falta - em São Paulo e no Brasil - o grande profeta Dom Paulo Evaristo!
O autor da reportagem afirma: “É significativo o silêncio dos cardeais de São Paulo (dom Odilo Pedro Scherer) e do Rio (dom Orani Tempesta), que tornam suas Arquidioceses bastiões do conservadorismo católico no país, em oposição ao Papa Francisco”(acrescento eu: oposição diplomática e silenciosa, que é a mais hipócrita de todas as oposições)(http://www.ihu.unisinos.br/567032-cnbb-e-mais-de-60-bispos-convocam-populacao-para-a-greve-geral).
Mesmo fervendo de indignação profética diante desse tipo de comportamento vergonhoso (possível em nossa condição humana neste mundo) não perdemos a esperança. Sabemos que a Igreja - embora de origem divina - é uma instituição humana e, como tal é santa e pecadora ao mesmo tempo. E, quando dizemos que a Igreja é pecadora, não falamos somente dos pecados pessoais dos cristãos e cristãs (todos e todas - enquanto seres em construção - somos limitados e pecadores), mas sobretudo do pecado estrutural da Igreja (a injustiça institucionalizada, muitas vezes em nome de Deus) e dos que o sustentam e fortalecem com sua prática.
Em pleno século XXI temos ainda bispos, padres, religiosos/as e outras pessoas que - por incrível que pareça - sonham com uma “Igreja imperial” (basiliké), com uma “Igreja feudal” ou com uma “Igreja capitalista”.  
Por falar em Igreja capitalista, lembro-me de um fato, em si de pouca relevância, mas muito significativo. A imagem de Nossa Senhora da Terra (da Paróquia homônima, do Jardim Curitiba III - Goiânia - GO), cuja história remonta à luta pela terra no Pará, é vestida de trabalhadora rural (de mulher pobre) e o menino Jesus, de filho de trabalhador rural (de menino pobre). Já vi bispos, padres, seminaristas e outras pessoas que, diante da imagem, torceram disfarçadamente o nariz com um sorriso irônico contido de desaprovação. Por felicidade, porém, encontrei também o meu irmão dominicano frei Henri, advogado e defensor dos trabalhadores rurais no Pará (atualmente na França, cuidando da saúde) que, depois de ver a imagem, com o rosto iluminado sorriu e vibrou de alegria.
Quando a imagem de Nossa Senhora é vestida de mulher rica, a maioria das pessoas acha bonito. Com isso não estão dizendo que o ideal de vida é o da mulher rica? Maria não foi uma mulher pobre? Jesus não nasceu numa manjedoura? À luz do Evangelho, essas pessoas não precisam rever totalmente sua escala de valores?
Os cristãos e cristãs que acreditamos no projeto de Jesus de Nazaré (o Reino de Deus ou, em outras palavras, a “sociedade do bem-viver”, a “terra sem males”) renovemos a nossa esperança. Que o Espírito Santo - o Amor de Deus - nos torne verdadeiros profetas e profetisas de Jesus de Nazaré no Brasil e no mundo de hoje! E que os Profetas Dom Helder, Dom Paulo, Dom Tomás e muitos outros - sobretudo os profetas e profetisas de nossas Comunidades de Base e de nossos Movimentos Populares - que já partiram, mas que de outra forma continuam a caminhar conosco, intercedam por nós!





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 10 de maio de 2017

sábado, 6 de maio de 2017

Ocupar Brasília


Na noite do dia 19 de abril último, o Governo ilegítimo do golpista Michel Temer - com manobras oportunistas e inescrupulosas da base aliada - aprovou na Câmara Federal, em 2ª votação (na 1ª, do dia anterior, tinha sido rejeitada), a urgência da Reforma Trabalhista, apesar dos cartazes que foram erguidos no plenário com os dizeres “Cunha de novo não” e “Método Cunha não”.
Dizer que a Reforma Trabalhista “moderniza” as relações de trabalho, porque com ela irá prevalecer o “acordado” (no diálogo entre empregados e empregadores) sobre o “legislado” (na CLT e na Constituição, que garantem os direitos dos trabalhadores/as), é uma grande armadilha. Mal comparando, é a mesma coisa que dizer: daqui para frente, o que irá prevalecer no galinheiro, não será mais a segurança de sua estrutura física, mas o “acordado” entre as galinhas e a raposa.
As Reformas (na realidade, Antirreformas) da Previdência e Trabalhista e a Lei da Terceirização - cínica e descaradamente mentirosas - são uma conspiração política diabólica desse Governo ilegítimo e seus aliados contra os direitos dos trabalhadores/as e a favor dos privilégios dos poderosos (os donos do dinheiro).
Nunca esse Governo falou em taxar as grandes fortunas e os lucros exorbitantes dos banqueiros para resolver a chamada crise. Só os trabalhadores devem pagar a conta de uma crise - se é que existe - que não foram eles que criaram. É o deus dinheiro, com seus iníquos adoradores, que governa o Brasil e o mundo. Tudo (sobretudo a vida dos trabalhadores/as e dos pobres em geral) deve ser sacrificado no altar desse deus.
O documento das Centrais Sindicais “A greve de 28 de abril continua”, divulgado no dia 1º de Maio (Dia do Trabalhador/a) - afirma: “O dia 28 de abril de 2017 entrará para a história do povo brasileiro como o dia em que a maioria esmagadora dos trabalhadores disse NÃO à PEC 287, que destrói o direito à aposentadoria, NÃO ao PL 6787, que rasga a CLT e NÃO à Lei 4302, que permite a terceirização de todas as atividades de uma empresa!”.
Continua o documento: “Sob a palavra de ordem ‘em 28 de abril vamos parar o Brasil’ todas as Centrais Sindicais e suas bases se mobilizaram, de norte a sul do país, impulsionando uma imensa paralisação das atividades e grandes manifestações de protesto. Trabalhadores dos transportes urbanos, das fábricas, comércio, da construção civil, prestadores de serviços, escolas, órgãos públicos, bancos, portos e outros setores da economia cruzaram os braços. E este ato contou com o apoio dos Movimentos Sociais (Populares), como a UNE, de Entidades da sociedade civil como a CNBB, a OAB, o Ministério Público do Trabalho, Associações de magistrados e advogados trabalhistas, com o apoio dos nossos companheiros do Movimento Sindical Internacional, e contou também com uma enorme simpatia popular”.
As Centrais Sindicais declaram: “Com nossa capacidade de organização, demos um recado contundente ao Governo Temer (ilegítimo) e ao Congresso Nacional: exigimos que as propostas nefastas que tramitam em Brasília sejam retiradas. Não aceitamos perder nossos direitos previdenciários e trabalhistas”.
E ainda: “Nos atos de todas as Centrais Sindicais pelo país neste 1º de Maio de 2017, Dia do Trabalhador, reafirmamos nosso compromisso de unidade para derrotar as propostas de Reforma da Previdência, da Reforma Trabalhista e da Lei que permite a terceirização ilimitada”.
Com a força de sua unidade e com a certeza de vitória, as Centrais Sindicais decidem: “O próximo passo é Ocupar Brasília para pressionar o Governo e o Congresso a reverem seus planos de ataques aos sagrados direitos (reparem: sagrados direitos!) da classe trabalhadora”.
Concluem reafirmando: “Sobre essa base, as Centrais Sindicais estão abertas, como sempre estiveram, ao diálogo. Se isso não for suficiente assumimos, neste 1º de Maio, o compromisso de organizar uma reação ainda mais forte”.
Terminam o documento com as palavras de ordem: VIVA A LUTA DA CLASSE TRABALHADORA! VIVA O 1º DE MAIO! ABAIXO AS PROPOSTAS DE REFORMAS TRABALHISTA E DA PREVIDÊNCIA! NENHUM DIREITO A MENOS!”.
Assinam os presidentes das Centrais Sindicais:
Antônio Neto, da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB)
Adilson Araújo, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)
Vagner Freitas, da Central Única dos Trabalhadores (CUT)
Paulo Pereira da Silva, Paulinho, da Força Sindical
José Calixto Ramos, da Nova Central (NCST)
Ricardo Patah, da União Geral dos Trabalhadores (UGT)
Parabéns às Centrais Sindicais pela unidade na luta! Trabalhador unido, jamais será vencido! Estamos com vocês!
Em tempo: A Comissão que analisa a Reforma da Previdência na Câmara Federal aprovou - nesta quarta-feira, dia 3 de maio - o texto do relator Arthur Maia (PPS-BA). Foram 23 votos a favor e 14 contrários. Para ser aprovado, o texto precisava de 19 votos.
É mais uma safadeza! Realmente, a maioria dos nossos deputados federais é um bando de oportunistas desonestos e totalmente insensível aos apelos dos trabalhadores/as. Não desanimemos! Deus está do nosso lado! A vitória final será nossa!





Fr. Marcos Sassatelli, Frade dominicano
Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP)
Professor aposentado de Filosofia da UFG
Goiânia, 03 de maio de 2017
A palavra do Frei Marcos: uma palavra crítica que - a partir de fatos concretos e na escuta dos sinais dos tempos - aponta caminhos novos